Os estudos clínicos iniciais sobre cirurgia bariátrica no tratamento do diabetes.

limitavam-se a avaliar os resultados obtidos especificamente com a técnica cirúrgica utilizada ou, na melhor das hipóteses, avaliavam os resultados comparativos entre diferentes técnicas cirúrgicas, mas um grupo comparador de tratamento clínico era sistematicamente ignorado. Nos últimos anos, um grupo comparativo de tratamento clínico passou a fazer parte de alguns protocolos de estudos nessa área nos quais a abordagem não cirúrgica passou a ser denominada “melhor tratamento clínico” ou “tratamento clínico intensivo”.

Mas, afinal, o que seria na prática esse tal de Tratamento Clínico Intensivo? Aquele que definia metas terapêuticas muito rígidas para os valores de A1C e de glicemia? Ou aquele que exigia dos pacientes dietas de fome, sabidamente ineficazes em longo prazo? Ou seria aquele que utilizava a prática intensiva de automonitorização? Ou, talvez, aquele que oferecia um programa intensivo de educação em diabetes aos pacientes do grupo? Ou poderia ser aquele em que os pacientes eram tratados com múltiplos agentes antidiabéticos? Talvez esse termo implicasse em um acompanhamento intensivo dos pacientes com visitas semanais durante o período de observação?

Do ponto de vista conceitual, um “tratamento clínico intensivo” ou “o melhor tratamento clínico” é aquele que oferece TODAS as intervenções mencionadas acima, com abordagens inteiramente baseadas nas necessidades individuais de cada paciente, com acompanhamento semanal nas primeiras 4 a 6 semanas de tratamento, com a realização de 6 a 7 testes de glicemia por dia durante 3 dias por semana na fase aguda, com avaliação individual das necessidades educacionais e terapêuticas de cada paciente, com a disponibilidade de uma equipe interdisciplinar treinada e experiente e obedecendo metas terapêuticas eficazes e seguras, tais como um nível de glicemia média semanal de 150 mg/dl (equivalente a uma A1C de 6,9%). É isso exatamente o que vimos fazendo nos últimos 6 anos em nosso Grupo de Educação e Controle do Diabetes do Hospital do Rim e Hipertensão da Universidade Federal de São Paulo. Com a ajuda de uma equipe de 25 profissionais de saúde, nossa taxa de sucesso chega a 70% dos pacientes que migram para a normalização do controle glicêmico em apenas 4 a 6 semanas, com uma queda de A1C de -1,82% em 6 semanas e de -2,26% em 12 semanas.[1] No seguimento conduzido num prazo médio de 9 meses após o encerramento do estudo, 50% desses pacientes mantiveram o bom controle glicêmico e outros 50% não conseguiram manter, o que não deixa de ser um resultado auspicioso. Um copo meio cheio e meio vazio? Ninguém consegue sempre obter um copo inteiramente cheio...

Em resumo, sinceramente, não consigo idealizar outro conceito de “melhor tratamento clínico” ou de “tratamento clínico intensivo” que atenda aos requisitos fundamentais da boa prática clínica como os expostos anteriormente. Vale ressaltar que um estudo conduzido com 6671 pacientes em vários centros de diabetes no Brasil em 2009 mostrou que  praticamente 90% dos pacientes com DM1 e 73% dos pacientes com DM2 estão fora de controle. Esses números apenas confirmam que ainda estamos longe de proporcionar o “melhor tratamento clínico” aos nossos pacientes com diabetes, apesar dos progressos na terapia farmacológica ocorridos nos últimos 10 anos. Falta estrutura educacional, falta compromisso, falta vontade governamental de vencer a epidemia de diabetes que se aproxima...

Fontes:       1-) Pimazoni-Netto A, Rodbard D and Zanella MT. Rapid Improvement of Glycemic Control in Type 2 Diabetes Using Weekly Intensive Multifactorial Interventions: Structured Glucose Monitoring, Patient Education, and Adjustment of Therapy – A Randomized Controlled Trial. Diabetes Technology and Therapeutics 2011;12(10):997-1004. DOI: 10.1089/DIA.2011.0054. (Acesso livre)

2-) Mendes ABV, Fittipaldi JAS, Neves RCS e al. Prevalence and Correlates of Inadequate Glycemic Control: Results from a Nationwide Survey in 6.671 Adults with Diabetes in Brazil. Acta Diabetologica 2010;47:137-145. DOI: 10.1007/s00592-009-0138-z.

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Informações do Autor

Dr. Augusto Pimazoni-Netto
Coordenador do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do Hospital do Rim e Hipertensão da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP
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