Informações do Autor

Dr. Augusto Pimazoni Netto
Coordenador do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do Hospital do Rim – Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP
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A prestigiada revista médica New England Journal of Medicine publicou em 02 de julho de 2015 uma excelente revisão conceitual sobre o uso de placebos na prática médica. Os autores ressaltam que o efeito placebo não se restringe apenas aos efeitos positivos de uma substância inerte sobre o organismo mas, também, pode ser derivado de crenças religiosas, rituais, símbolos ou interações de grupos. Afinal, qual é o conceito correto de placebo nos dias atuais?

Em primeiro lugar, embora os placebos proporcionem alívio de certas condições clínicas, eles raramente conseguem promover a cura. Embora a pesquisa médica já tenha revelado as vias neurobiológicas envolvidas no processo, a evidência até agora disponível sugere que os benefícios terapêuticos derivados do efeito placebo não alteram a fisiopatologia das doenças para além do simples alívio das manifestações sintomáticas. Por exemplo, não há evidências até agora de que os placebos possam diminuir os tumores cancerosos, mas podem aliviar substancialmente alguns efeitos colaterais do tratamento medicamentoso, tais como fadiga, náuseas, dores, etc.

Em segundo lugar, como já foi dito acima, o efeito placebo não decorre unicamente de uma “pílula de açúcar”. Intervenções outras podem aumentar dramaticamente a efetividade de agentes farmacológicos ativos. Por exemplo, um estudo recente de tratamento de enxaqueca demonstrou que, quando os pacientes receberam rizatriptan disfarçado em embalagem etiquetada claramente como placebo, os desfechos não foram distintos daqueles do outro grupo de pacientes que recebeu “placebo” disfarçado em embalagem claramente etiquetada como “rizatriptan”. Ou seja, não houve diferença entre os dois grupos em termos de eficácia terapêutica, uma vez que a droga ativa e o placebo promoveram o mesmo percentual de alívio. Numa segunda fase desse estudo, ambas as embalagens foram etiquetadas corretamente, ou seja, a embalagem de placebo era etiquetada como tal e a embalagem de rizatriptan era etiquetada como a substância ativa. Nesta segunda fase do estudo o efeito analgésico do rizatripan foi aumentado em cerca de 50%, em comparação com o placebo.

Em terceiro lugar, os fatores psicossociais que promovem os efeitos terapêuticos do placebo também têm um potencial de causar consequências adversas, conhecidas como “efeito Nocebo”. Com razoável frequência, os pacientes percebem os efeitos adversos dos medicamentos, os quais são causados mais por antecipação dos efeitos indesejáveis. Por exemplo, num estudo sobre hipertrofia prostática benigna os pacientes foram tratados com finasterida: um primeiro grupo de pacientes recebendo esse fármaco foi informado sobre os efeitos sexuais indesejáveis que poderiam ocorrer, enquanto que o outro grupo de pacientes não recebeu tal informação. Pois bem: no primeiro grupo os pacientes relataram uma frequência três vezes maior desses efeitos sexuais adversos do que os pacientes do segundo grupo. Uma pequena provocação: qual a reação de nossos pacientes depois de lerem sobre os vários efeitos adversos de um medicamento, muitos deles classificados como de baixo risco de ocorrência?

Não podemos afirmar que somente os tratamentos farmacológicos podem promover o efeito placebo. Os eventos positivos provocados por intervenções farmacológicas podem ser proporcionados, legitimamente, por influência de intervenções religiosas, de credo ou de conceitos populares amplamente aceitos por amplos setores da sociedade. Nos dias de hoje, talvez a modalidade de situações capazes de promover o efeito placebo está representada pela fé, uma atitude perfeitamente saudável, desde que não interfira nas recomendações da medicina tradicional.

Para finalizar este comentário: o efeito placebo pode ajudar no tratamento do diabetes?...

 

Texto adaptado de: Kaptchuk TJ and Miller FG. Placebo Effects in Medicine. N Engl J Med 2015; 373:8-9. DOI: 10.1056/NEJMp1504023.

 

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