Os estudiosos do assunto já previram, há muito, mas só recentemente o assunto ganhou as manchetes de todo o mundo. A quantidade dos alimentos produzidos está cada vez menor em relação às necessidades da população mundial. Mais consumo do que a produção, resultado: aumento de preços.

Aumento que tem causado inflação em, praticamente, todos os países do mundo. No nosso país, a elevação dos custos com a alimentação já é uma grande ameaça para que a inflação, o grande mal que enfrentamos durante anos, retorne. Como o custo dos alimentos representam muito mais no orçamento dos pobres, são eles os mais prejudicados.

Como entender que um país com enorme fronteira agrícola, que é o Brasil, um dos maiores produtores de alimentos do mundo, esteja enfrentando este tipo de problema ??? O agronegócio, no Brasil, a cada ano bate recordes. É ele o grande responsável pelo fato da nossa balança comercial ser superavitária, há anos.

Porém, quando analisamos a nossa produção agrícola, verificamos que o aumento da nossa produção se deve, quase que exclusivamente, à chamada agricultura de exportação. A soja, por exemplo, um grande item de nossa pauta de exportação, tem sido extremamente mais lucrativa para os nossos empresários do que a produção de outros alimentos mais necessários à segurança alimentar da nossa população.

Os nossos governos, interessados nos dólares obtidos com este tipo de atividade, têm destinado os incentivos muito prioritariamente para ela. Por outro lado, para a pequena empresa, para a agricultura familiar, maior responsável pela produção de alimentos mais consumidos pelo nosso povo, os estímulos tem sido limitados quando não inexistentes.

Felizmente, nos últimos anos, o Governo brasileiro tem tomado medidas com o objetivo de minimizar o problema. E que não nos sirva como consolo. A situação no mundo, como um todo, é muito preocupante.

Acredita-se que um sexto da população global, cerca de um bilhão de pessoas, passam fome. Segundo o banco mundial, 33 países estão à beira de enfrentar uma crise alimentar de proporções catastróficas. Outros fatos têm contribuído para que isso aconteça.

O aumento do consumo de alimentos por parte das populações da China e da Índia, o aumento do preço do petróleo, encarecendo os transportes dos alimentos, o aumento do uso de áreas destinadas à produção de agrocombustíveis, são alguns deles.

Isto sem falarmos no aquecimento da Terra, que também já vem contribuindo para a diminuição da produtividade na agricultura. A elevação do preço dos alimentos, nos últimos anos, é realmente muito preocupante. A tonelada de alimentos que a ONU compra para ajudar as populações carentes passou de 480 para 760 dólares em um ano. O preço do arroz triplicou em igual período. Alimentos mais caros, mais fome no mundo.

No entanto, para as multinacionais que operam com cereais, o aumento dos preços trouxe benefícios. Uma delas aumentou em mais de 80% os seus lucros nos últimos anos.

Assim como a saúde, a produção dos alimentos é um assunto tão sério, que não pode ser entregue apenas às leis do mercado. Os Governos podem e devem intervir.

VOLTAR

Informações do Autor

Dr. Ney Cavalcanti
Professor de Endocrinologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Pernambuco
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)