Dr. Rodrigo Lamounier
Do Conselho Editorial do site
Estive na última semana no acampamento da ADJ/UNIFESP para crianças e adolescentes com diabetes, entre 9 e 16 anos, que aconteceu no NR 1(Nosso Recanto) em Sapucaí Mirim, linda cidade bem colocada entre Minas e São Paulo, próxima a Campos do Jordão, encostada na serra da Mantiqueira.
O evento é uma colônia de férias com 1 semana de duração, que envolve 75 meninos e meninas de diferentes classes sociais e todos tendo em comum o uso de várias doses de insulina, a monitoração da glicemia, as hipoglicemias. Uma ilha no mundo de preconceito e insegurança de sentir-se diferente em um mundo cada vez mais "igual e pasteurizado". Todos passam, a partir desta experiência, a terem em comum também a vivência coletiva daquela semana no NR1, tradicional acampamento de férias de São Paulo.
Uma colônia normal, de férias de verão, contando com equipe de recreação de alto nível (incluindo vários monitores também com diabetes), diversas atividades lúdicas, esportivas e culturais e uma extensa equipe de profissionais, incluindo médicos, enfermeiras, nutricionistas, psicólogos e educadores físicos; dedicados, integrados e se emocionando com o convívio com a garotada. No total, 155 pessoas envolvidas.
Há diversas opções de diversão, desde cama elástica a pingue-pongue, passando por tirolesa, pebolim, gincanas. Tudo recheado com monitoração glicêmica. Antes das refeições, preparadas de acordo com a orientação da equipe de nutrição, as equipes se encontram nos quartos onde são feitas as medições e todo mundo, de olho no cardápio, avalia a quantidade de carboidratos que será ingerida e calcula-se e aplica-se as doses de insulina rápida.
A turma curte o período dividida em quartos, de acordo com sexo e faixa etária. Cada quarto com 6 a 7 crianças, um monitor, um enfermeiro(a), um médico(a), sendo que alguns quartos contam com mais profissionais de saúde.
O Dia-a-Dia
A alvorada é cedo, pela manhã. No primeiro dia, pesagem, depois ponta de dedo pré café da manhã. Definida e aplicada as insulinas, toca o sino no restaurante e todos se reúnem para o desjejum. A moçada se diverte desde aí: primeiro sendo comum, igual aos outros. O controle ali é uma necessidade básica, banal, corriqueira a todos antes de comer, assim, como escovar os dentes. Tudo com bom humor e misturado, confundindo o controle glicêmico com brincadeiras, sorrisos e a descontração de conviver de mãos dadas: tratamento e alegria.
O pessoal é dividido em equipes, desde os quartos, que são conhecidos por cores. Com grito de guerra e tudo o mais, cada equipe compete pelo título de quarto mais limpo e mais animado . Depois do café e de passar na lavanderia, o pessoal capricha no quarto, antes de receber a visita do monitor que dá notas à limpeza e à animação. Veja o video com essas brincadeiras.
Para algumas atividades do dia, são formadas outras equipes, em que se misturam todos os acampantes, para tarefas de gincanas ao longo da semana, grandes e pequenos, meninas e meninos.
As enfermeiras(os) permeiam tudo, como anjos da guarda da criançada. "Tia tô com hipo" (foto). E ela abre a bolsa prateada, com glicosímetro e diferentes fontes de carboidratos, de absorção rápida e intermediária, que são administrados de acordo com a situação.
Realizadas algumas tarefas da gincana, o horário é livre. A galera está liberada pra curtir as diversas possibilidades disponíveis: futebol, cama elástica, touro mecânico, ensaios do teatro, da dança etc.
Alguns fazem os controles mais intensivamente do que outros, conferindo sempre as pós-prandiais. Mas de maneira oficial, o rádio sempre convida aos quartos para monitoração antes das 3 principais refeições e da ceia. Sempre a rotina: monitoração, cardápio, contagem de carboidratos, doses de insulina. Igual para os mais novos e para os adolescentes.
Na hora do almoço, as mesas são ocupadas pelos quartos. Todo mundo cantando, na tentativa de que a sua mesa possa se servir primeiro. Os monitores incentivam e chamam a se servir, aqueles mais animados. Depois da comida, mais gincana e horário livre, com lanche e mais tarde, após a hora do banho, todos se reúnem no teatro antes do jantar, para uma apresentação feitas pelos profissionais, na forma de teatro, sempre com muito bom humor, abordando algum aspecto educacional relacionado ao diabetes.
Entram em cena insulinas rápidas, que carregam pelo palco glicoses enlouquecidas, evitando assim o seu aumento após as refeições. E no outro lado do palco, a insulina basal, muito tranquila de óculos escuros e sandália, está sossegada, levando devagar e sempre, uma a uma, as glicoses, constantemente. Nas fotos abaixo, alguns momentos das peças encenadas durante os dias do acampamento.
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Em outra cena, chapeuzinho vermelho vira o "personagem insulina" de cabeça para baixo para retirar a dose necessária. Aí Xuxa (na verdade, um monitor caracterizado) entra em cena e lembra a todos da importância da prega para a aplicação, com a conhecida "estica e puxa". Pura brincaderia, todo mundo rindo muito.
À noite, algumas vezes tem balada. Festinha leve, entre o jantar e o controle da ceia às 22h, mas com o pessoal animadíssimo. A turma dança até, pequenos e grandes, monitores e profissionais e todos entre si. As enfermeiras estão lá, sempre espalhadas, com suas bolsas prateadas. Neste horário, os médicos em geral estão reunidos, discutindo os casos de cada criança, apresentados pelos responsáveis por cada quarto. Antes da ceia, controle e toque de recolher, sempre às 22:30h. O dia seguinte começa cedo, há controle na madrugada naqueles com risco de hipo noturna e, no dia seguinte, alvorada pelo som às 7h - 7h30min.
Muitos avanços têm acontecido em relação ao tratamento do diabetes nos últimos anos. A insulina certamente foi o maior deles. Quando foi descoberta há mais de 80 anos, a insulina trouxe vida e perspectiva àqueles com diagnóstico de diabetes tipo 1. A partir daí o tratamento foi evoluindo e o novo grande impacto na qualidade e expectativa de vida dessas pessoas foi o advento dos programas de educação em diabetes. Atividades em que a informação de qualidade, a troca de experiências, a motivação, se unem como ferramentas para suavizar o convívio com o tratamento e quebrar barreiras e preconceitos. Entre as técnicas utilizadas há décadas em todo o mundo, estão os acampamentos para jovens.
Em meio a ciência e avanços tecnológicos, há algo de subjetivo, de aceitação e auto-afirmação, que faz toda a diferença no tratamento. O sucesso é discreto. É o fator humano que harmoniza a aridez das dosagens com o delicado da vida e traz à tona o sorriso.
Ao final da semana, a cerimônia de encerramento traz os espetáculos de teatro e dança, desenvolvidos pelos acampantes e monitores ao longo da temporada e os destaques são chamados ao palco. Eles recebem homenagens por terem chamado atenção pelo interesse manifesto em nutrição, no diabetes, o quarto mais limpo, o destaque cultural etc.
Emoção pura, lição pra todos. As crianças elevadas à condição de sábios e nós todos ali, pequeninos, chorando com os sorrisos de um momento mágico, de uma alegria inesquecível, proporcionada pelo diabetes.
Nas palavras de Matsuo Bashô:
"No meio da montanha,
sorrindo,
uma violeta."
Estivemos dentro da flor!

Veja a cobertura do acampamento.





