Mon05212012

Last update12:00:00



Agora sim, tudo faz sentido

  • PDF

Agora sim, tudo faz sentidoComo a vida tem a capacidade de mudar num piscar de olhos! Talvez este seja um dos principais motivos da beleza dela, principalmente se você não a complica e busca se cuidar sem precisar de atuações emocionais.

A minha vida mudou. A mudança foi iniciada em um domingo na cidade de Brasília. Domingo em Brasília é sui generis, pois a cidade fica vazia, haja vista, que os políticos e todos que os seguem costumam realizar suas pontes aéreas a partir da quinta-feira anterior. Eita cidade invocada! Pois bem, a mudança veio num domingo e mais especificamente no final da noite. A sensação de cidade fastama era mais pujante. Eu estava no meu apartamento trabalhando nas minhas pesquisas costumeiras que têm costume de entrar madrugada adentro quando a Heveline me chama com uma tonalidade de voz ansiosa. Ela corre ao computador e diz “acho que entrei em trabalho de parto, pois estou sangrando”. De começo, pensei que era ansiedade, mas quando vi o sangramento ao qual ela se referia, eu que não tive dúvida e pensei: “entrou mesmo e o Leozinho chegará 1 semana antes do planejado”. Tomei as rédeas da situação e liguei para o obstetra, concomitantemente, ao início das cólicas provenientes das contrações. Como bom obstetra, a postura resolutiva e operacional apareceu logo no primeiro contato. Ele sem arrodeios falou “ela entrou sim em trabalho de parto e em 30 minutos encontro vocês na maternidade”.

Pensei numa expressão muito usada no meu amado Ceará que simboliza uma tentativa de lidar com a ansiedade – “valei-me meu Padre Cícero”. Este obstetra só pode ter nascido prematuramente. Ele não deu tempo nem para que eu digerisse aquilo tudo. Olhei para a Heveline que estava chorando de ansiedade e sorri dizendo “vamos lá o nosso grande momento chegou”. Aí que ela chorou mais. Neste momento, compreendi que estávamos sozinhos, pois a quase totalidade da família reside em Fortaleza e muitos somente chegariam ao decorrer da semana em função da data provável do parto. Não tem problema, liguei para um amigo/irmão que já está incorporado à família – o Claudião MacGyver. Em outro texto descreverei com mais calma o porquê do apelido. Falei da situação e perguntei se ele poderia ir conosco à maternidade.

Enquanto isto, eu fiquei organizando a lista de objetos para levar ao hospital. Deus do Céu, como era um bocado de coisas! Nunca imaginei que para nascer quase precisasse levar um guarda-roupa! Se você acha que o obstetra foi rápido, você não imagina o Claudião. Quando estava arrumando os últimos tópicos da lista de utensílios para sair, a campainha tocou. Apesar de ser quase 22h de um domingo seco em Brasília, ele entrou sorridente e com uma solicitude de dar inveja.

Juntamos as tralhas e partimos. Nunca havia imaginado que esta seria a viagem mais revigorante da minha vida. Tudo foi mágico! Cada passo seguiu da forma como deve ser. Sem nenhuma intercorrências. Conseguimos lidar, inclusive, com a nossa ansiedade embora fôssemos somente nós três naquele instante. Sintonia mágica. Harmonia sublime. Felicidade transcendental.

Enfim, o Leozinho apareceu com cara de poucos amigos. Também pudera. Sair daquele local acolhedor para este “mundão” tão amargo em muitos momentos. Sair do amor pleno do ventre e ter que incorporar habilidades sociais gradativas para lidar com tantas facetas da vida no mínimo dolorosas. No entanto, não tinha mais jeito. Ele não cabia mais lá. Ele queria sair e dar o ar da sua graça. Ele veio com muita saúde e com um choro de liberdade.

Nossa vontade era correr, pular, dar cambalhotas. Claro que não podíamos, pois a Heveline estava transitoriamente anestesiada da cintura para baixo e eu parecia uma cabide com tantas coisas que tinha que levar tais como: máquina digital, documentos de pré-natal e parte do guarda-roupa citado anteriormente. Não tinha problema, pois tínhamos a oportunidade de fazer piruetas com os nossos pensamentos dando saltos mortais nos nossos sonhos. Já não nos cabíamos e nem notamos a gafe da enfermeira que perguntou “posso levar no vitrô e mostrar aos familiares?”

Na verdade não poderia levá-lo a lugar nenhum até por que queríamos ele pertinho da gente. Filho é isto – alguém diferente que você nunca cansa de está perto, ou melhor, que de preferência você queria sempre está perto. Sei que isto é impossível, pois as “asas” crescem e eles costumam voar alto e muitas vezes para bem longe. Todavia, no fundo é isto mesmo. O desejo é de pertinência eterna.

Naquele instante, minha vida mudou. Entendi o sentido de existir. Sintome uma pessoa melhor. Consigo viver mais plenamente. Tento entender mais profundamente cada um. Procuro compreender as limitações das pessoas. Busco cada vez mais uma paz que, às vezes, é difícil de ser alcançada neste modelo de vida que teimamos em executar. A vida mudou. Encaixo-me compreendendo que o ato de humanismo é um princípio de equilíbrio. A possibilidade de bondade deve prevalecer independente de credo, cor, riqueza ou orientações políticas, culturais e sociais. Será que Renato Russo ao dizer “... é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, estava movido por paternidade. Talvez sim. A paternidade opera neste sentido. Hoje me sinto um homem melhor, um psiquiatra e terapeuta mais sensível, um profissional mais desencanado e que consegue direcionar sua energia para aquilo que realmente vale à pena. Enfim, percebo-me um ser humano mais pleno. Isto é maravilhoso, pois o Leozinho me forneceu isto sem pedir nada em troca. Sem falar uma palavra. Sem cobrar nada. Simplesmente, ele me doou tudo isto com o seu sorriso, o seu choro e a sua presença. Portanto, sou muito grato. Obrigado filhão! Você mudou tudo e as portas do sentido da vida
escancararam-se na minha frente. Uma vez li uma bela composição de Charles Chaplin que dizia: “A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso,
cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.”

Na verdade, nossos filhos têm a capacidade de puxar as cortinas nos colocando frente a frente com a vida. E o melhor mostrando a forma mais gostosa de viver. Aproveitem para hoje no final do dia beijar seus filhos e agradecê-los por este ato tão puro e sem interesse algum de abrir as cortinas da sua vida.

Dr. Régis Eric Maia Barros
Médico Psiquiatra
psiquiatria@regisbarros.com.br



Conectando Pessoas - Comunicação e Marketing