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Liliane Pio

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Obrigada pela oportunidade de enfim contar a minha história, estou realmente disposta na intenção de ajudar pessoas que talvez passem agora pelo mesmo que passei.

Fiquei diabética com 5 anos de idade, naquele momento não pude entender tamanha mobilização da minha família, cochichos no corredor do hospital, conversas adultas demais pra minha cabecinha. Sabia que tinha algo de errado, mas não era nada mal ganhar tantos presentes. Lembro-me de voltar pra casa e de minha mãe perguntar: ela pode comer essa banana? Bem, e por aí vai. Numa cidade de interior, meus pais com o orçamento limitadíssimo, buscaram todas as informações disponíveis naquela época. Foram livros, cursos e a custosa consulta ao Dr. Antônio, renomado médico de Belo Horizonte. Afinal o perigo era eminente, já que a vovó fazia diálise e uma tia já estava bem debilitada começando a ter complicações renais. E não é que as coisas foram dando certo? Eu ia pra escola e levava na lancheira uma fruta, suco natural e algum biscoito ou bolo diet que minha mãe fazia. Não tinha problemas nessa época com relação à aceitação, só queria brincar. Não havia muitos diets gostosos disponíveis no mercado, então eu dava meu jeito. Vivia me aventurando na cozinha, sonhava com uma festa de aniversário dietética e só comia um “docinho” escondido no natal ou coisa assim.

O tempo foi passando, perdi minha avó e minha tia. Chegou a adolescência e não sei como mas de alguma forma já me sentia predestinada a viver e principalmente morrer como elas. Várias dúvidas na cabeça, coração a mil, não sei porque isso foi acontecer justamente comigo, quer saber? Por que me privo das coisas? Vou comer o que tiver vontade e olha, tinha vontade de comer muitas coisas. Superava bem a hiperglicemia e não demorou muito pra começar a desenvolver uma compulsão alimentar e ter problemas com a balança. Com 18 anos pesava uns 58 quilos com 1,70m e já me sentia feia e gorda. Mas continuei a comer descontroladamente e daí até os 20, 21 foram incansáveis tentativas frustradas de dietas, seguidas de crises de bulimia, não importava o que acontecesse, precisava estar bonita perante o espelho e principalmente pesar os tão sonhados 52 quilos, peso que tive com 13 anos de idade. Nessa época minha vida era realmente uma loucura, não tinha nenhuma estabilidade emocional. Dentro de casa meu pai alcoólatra e depressivo, e um namorado mega ciumento e problemático me encurralavam dentro das minhas próprias limitações. Onde eu seria livre?

O problema só foi piorando, comer era o problema e a solução pra tudo! Até que descobri que a glicose alta me fazia emagrecer.. ah! com baixa auto estima, falta de amor próprio e obsessão por magreza, essa era a solução pros meus problemas. Em contra partida estava me matando pra fazer faculdade e conseguir um bom emprego, pra que eu pudesse caminhar com minhas próprias pernas e melhorar de vida. Sempre exigi nada menos que o maior sucesso profissional que pudesse ter, pra que eu pudesse me destacar, ser bem sucedida e obter uma boa qualidade de vida. Era totalmente consciente de tudo que fazia, que teria complicações e que tudo que fazia seria “cobrado” mais tarde pela vida. Mas e daí? Esse era mesmo meu destino, já era fato literalmente consumado na família. Minha prescrição médica era de 30U de insulina NPH de manhã e de 10U à noite, fui parando de usá-la aos poucos, primeiro a noturna depois a diurna, diminuindo a dose até que chegasse a totalidade, contudo não conseguia ficar mais que 3 dias sem aplicar. Acordava 5 ou 6 vezes por noite sentindo a maior sede do mundo, água não era suficiente, precisava de litros de sucos e principalmente refrigerantes, bebia muito mas a sede era insaciável, consequentemente acordava também com cólicas por estar com a bexiga imensamente cheia. Durante os dias apesar do desconforto, o prazer de comer prevalecia, comia absolutamente tudo que sequer passasse por minha cabeça ou meus olhos, sem contentamento, controle ou educação diante de qualquer oportunidade. Descobri a fórmula mágica tão sonhada! Sem insulina, quanto mais comia, mais emagrecia!! Consegui então um emprego melhor, me dedicava muito mas tinha uma vida dupla onde tentava esconder este comportamento. Sofria de diabulimia. A loucura por comida (geralmente doces) era tamanha que escondia nas gavetas, dava aquelas saidinhas pra visitar a padaria ao lado e pedia comida até pelo disque moto. Nessa época já me via como uma pessoa doente que precisava de ajuda. Tentei um auxílio psicológico que até funcionou por um tempo, mas sentia que o problema estava mais enraizado e apesar de encontrar algumas respostas, não conseguia mudar. O auxílio médico também foi de grande valor, o Dr. Tiago Alvarenga foi um dos maiores colaboradores, além da parte clínica ele me incentivava positivamente quanto a minha imagem, já sabendo que grande parte da solução estava ligada a auto-estima.

No trabalho as coisas foram se complicando por que não conseguia esconder tantos sintomas de uma constante ceto-acidose e desidratação, além do rendimento que não atendia primeiramente às minhas próprias expectativas e as da diretoria. Eu já não tinha mais resistência física e eram constantes as internações no hospital, inclusive no CTI. Até que um dia depois de uma destas internações comecei a sentir coisas diferentes do habitual, principalmente muitas dores nas pernas. Foi diagnosticada neuropatia diabética, depois veio a retinopatia diabética e um grande comprometimento da visão. A depressão então veio acompanhar. Devido a uma fase tão difícil, já não conseguia comer como antes, fiquei meio lenta, confusa e carente então, a aplicação da insulina voltou a ser feita como deveria, perdi peso por causa da alimentação reduzida devido a remédios, dores, sofrimento, enfim era o meu sonho de emagrecer mais ainda, até chegar aos 49 quilos. Não conseguia enxergar nenhuma luz no fim do túnel, era ambígua a sensação de me olhar no espelho, via uma pessoa doente, mas finalmente magra! No entanto a depressão me corroía, tinha medo de tudo: das agulhas, das sombras, da chuva... e como disse: me sentia predestinada a passar por tudo aquilo. Afastei-me do trabalho e para, de fato, não aceitar minha auto condenação, depois de muito me opor, decidi lutar, uma decisão simples. A decisão foi simples, mas a luta, não foi fácil, foram várias tentativas, e toda vez que eu fraquejava e chorava, gritava ou simplesmente sofria em silêncio eu me lembrava de que a certeza não era do que estava por vir, nem de que eu não cairia, mas de que eu sempre me levantaria depois de um tombo! Busquei uma força que eu não sabia de onde vinha, mas sabia que existia. Os primeiros meses foram muito difíceis, como ficava o dia todo em casa comecei a me sentir na obrigação de praticar atividade física, já que eu voltava a me alimentar e consequentemente ganhar peso (o que era absolutamente saudável). Que bom! Já conseguia pensar assim. Fui melhorando os meus treinos e digo: A prática da atividade física mudou a minha vida, não é clichê, precisava da dieta pra frequentar a academia e da frequência na academia pra conseguir fazer a dieta, uma via de mão dupla. Estou com 28 anos, a neuropatia está estabilizada, não sinto mais dores nas pernas, mas infelizmente perdi bastante capacidade visual. Já faz um ano que estou treinando, hoje não consigo deixar de ir um dia sequer a academia. Ainda não estou com meu peso desejado, porque engordei um pouco depois que voltei a usar a insulina, mas não desanimo. Minha glicohemoglobina caiu de 17,5 pra 8,4. Não que não hajam recaídas, mas quando elas acontecem e tem acontecido cada vez menos, minha reação é de fazer tudo pra corrigir usando a insulina correta, e não usar isto como pretexto pra me lançar na desolação. Sei (como sempre soube) que este é o caminho certo, mas não adianta só saber, porque se você só espera o que a vida lhe traz, você acaba sendo um resultado da vida, a diferença é quando você reage e promove alterações nesse resultado! Todos nós diabéticos, vivemos um desafio novo a cada dia. Acredite nas suas possibilidades e construa seu próprio futuro! Obs: Eu e meu preparador físico Fernando Dias, estamos pesquisando sobre melhora do condicionamento físico do diabético, estamos disponíveis para esclarecer questões. Tenho tentado atingir metas de perda de gordura, as dificuldades encontradas são bravamente enfrentadas por nós. Alterações de insulina, uso de isotônicos e modificações na intensidade dos exercícios já foram bastante testadas, juntamente com meu endocrinologista Dr. Tiago Alvarenga Fagundes. Gostaria de ser auxiliada por um centro de pesquisa, ou profissionais experientes no assunto já que meu objetivo transpõe o da utilização da atividade física somente para controle da glicemia, gostaria de aperfeiçoar meus treinos e ser efetivamente uma esportista.

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