Muito antes de assumir a editoria do site da SBD, nosso grande amigo Reginaldo Albuquerque dava mostras de sua criatividade e de sua inquietude científica quando começou a editar os “Portulanos”, uma espécie de newsletter eletrônica na qual Reginaldo propunha o debate de temas polêmicos em diabetes, muito antes da entronização dessa técnica como uma das modalidades mais eficientes de incorporação de conhecimento médico.

Cada edição dos Portulanos se transformava num sucesso de público e de crítica muito maior que a edição anterior. Os Portulanos sempre contavam com a participação dos nomes mais expressivos da diabetologia brasileira e, sem sombra de dúvidas, pode ser considerado como um dos maiores sucessos editoriais da mídia eletrônica dos últimos tempos.

Participei dos Portulanos em várias oportunidades e, em uma delas, coloquei para discussão uma questão relativa à minha própria condição de portador de diabetes, instigando o debate em cima de um caso clínico real, cujo título de abertura era “medicina baseada em mim mesmo”, numa nítida provocação ao conceito de medicina baseada em evidência que, naquela época, começava a despontar no Brasil.

Agora, vários anos depois, volto a apresentar um caso de “medicina baseada em mim mesmo” ao trazer para discussão uma manifestação inesperada na evolução de minha condição de portador de diabetes. Resumindo, meu diabetes foi diagnosticado há cerca de 15 anos, na ausência de qualquer sinal ou sintoma sugestivo.

Sempre tive um controle glicêmico adequado, com níveis de A1C variando de 6,5% a 7,0%, apenas com tratamento oral e “dietético” (informação contestada por meus amigos mais chegados). Concomitantemente, também apresento hipertensão arterial “medianamente controlada” (140/90 mmHg), aumento de triglicérides, com níveis normais de colesterol e outras frações.

Não apresento manifestações nem história clínica sugestivas de comprometimento cardiovascular. Meu tratamento farmacológico inclui vildagliptina, metformina, valsartana, hidroclorotiazida, alopurinol, levotiroxina e aspirina (100 mg/dia). Meu último hemograma, realizado há cerca de 6 meses, foi inteiramente normal.

Agora o fato novo: há cerca de dois meses, apresentei três episódios de sangramento pela narina esquerda, ocorridos numa mesma semana, de baixa para média intensidade e controlados apenas com compressão nasal. Esses três episódios ocorreram numa mesma semana, sempre pela manhã, um pouco antes do despertar, sem nenhum sintoma prévio e sem nenhuma outra manifestação concomitante que pudesse explicar essa manifestação.

Uma avaliação otorrinolaringológica, incluindo rinoscopia anterior e posterior, não evidenciou qualquer anormalidade da mucosa nasal, não conseguindo identificar qualquer ponto suspeito como origem do sangramento. Não conseguindo encontrar causa definida para essa manifestação, o colega recomendou um teste terapêutico com duas gramas de vitamina C durante 7 dias, com um tratamento de manutenção com 500 mg/dia de vitamina C.

Evidentemente, suspendi o tratamento com aspirina. Os episódios de sangramento nasal desapareceram e, depois de um mês, voltei a tomar minha dose diária de 100 mg de aspirina, sem que houvesse recidiva do sangramento nasal. Outras intervenções diagnósticas não foram conduzidas frente à resposta positiva ao teste terapêutico com vitamina C.

Qual teria sido a causa desse sintoma? Deficiência de vitamina C? Quem conhece um pouco meus hábitos alimentares, jamais concordaria com essa etiologia. Seria o sangramento o resultado da ingestão crônica de 100 mg/dia de aspirina? Parece que não, pois faço esse tratamento há vários anos sem nenhum problema. Seria, então, devido a eventuais crises hipertensivas?

Não parece ser o caso pois nos momentos exatos dos três episódios, minha pressão arterial estava na casa dos 140/90 mmHg. Poderia ser uma manifestação de distúrbios de coagulação? Muito embora não tenham sidos realizados testes diagnósticos para distúrbios de coagulação, esta hipótese parece bastante improvável frente à evolução benigna do caso.

E então, qual seria o seu diagnóstico? Ou, pelo menos, qual seria a causa mais provável para essa inesperada manifestação? O sangramento nasal poderia estar relacionado a efeitos colaterais pelos medicamentos utilizados? Ou você acredita que seria possível a existência efetiva de deficiência de vitamina C num indivíduo hígido e bem alimentado?

Vamos recordar os velhos tempos dos Portulanos. Convido a todos vocês para participarem deste debate, manifestando sua opinião e propondo outros casos clínicos interessantes que requeiram um amplo debate de ideias sobre desfechos muitas vezes inexplicáveis de uma evolução clínica.

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Informações do Autor

Dr. Augusto Pimazoni-Netto
Coordenador do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do Hospital do Rim e Hipertensão da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP
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