A endocrinologia é realmente uma especialidade maravilhosa. O óbvio não impera e os conceitos se acumulam e se transformam em uma velocidade espantosa. O que parecia óbvio e fácil de ser provado cai por terra ao se abrirem os resultados dos estudos. Controle estrito do diabetes = menos mortalidade cardiovascular(CV). Mais ou menos! Depende do referencial adotado.

Estivesse vivo e talvez Einstein se empolgaria com a Endocrinologia. Tudo é relativo, pois como explica sua teoria mais famosa, dois referenciais diferentes oferecem visões perfeitamente plausíveis, ainda que diferentes, de um mesmo efeito.

O Look AHEAD foi positivo e negativo ao mesmo tempo. Qualquer investigação científica séria é positiva em sua origem, mesmo que os resultados não sejam tão animadores. Mas é frustrante observar que uma perda de peso importante e sustentada é difícil de se obter sem medicação. Mesmo se atingindo uma perda de 5% do peso corporal, considerada por muitos como a “boa forma metabólica” o estudo não mostrou diminuição de mortalidade CV.

A mensagem principal é que dieta, exercício e perda de peso leve podem prevenir diabetes, mas uma vez que o DM2 esteja instalado, essa terapia sozinha não consegue prevenir doenças CV e morte.

O paradoxo da obesidade mostra uma curva em “U” com aumento da mortalidade nos extremos e uma certa proteção cardiovascular para o sobrepeso.

Ferrannini e cols mostraram recentemente que “Entre os pacientes com DM2 e co-morbidade cardiovascular, pacientes com sobrepeso e obesos tiveram uma taxa de mortalidade mais baixa em comparação com pacientes com peso normal. A perda de peso, mas não o ganho de peso foi associada a um aumento da mortalidade e morbidade. Pode haver um paradoxo da obesidade em pacientes com diabetes tipo 2 e risco cardiovascular.”

Seria uma ação protetora dos hormônios produzidos pela gordura subcutânea? O que realmente importa é o controle da hipertensão e dos lípides? Por enquanto podemos especular a vontade, mas são “unanswered questions”

A cirurgia bariátrica e metabólica atuando em vários mecanismos diferentes tem dados que comprovam a diminuição de mortalidade nesses pacientes e poderia ser uma opção para pacientes específicos.

Concordo com o Amélio, é nosso dever nos comprometermos com nossos pacientes no sentido de tentar sempre o melhor. Perder peso, fazer exercício, comer melhor e mais saudável devem ser o norte a ser seguido. Mas os resultados do Look AHEAD mostram que só isso pode não ser suficiente e uma intervenção medicamentosa ou cirúrgica é o que realmente vai prevenir o aumento das doenças CV em uma população cada vez mais obesa.

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Informações do Autor

Dr. Sérgio Vêncio
Médico endocrinologista
Presidente da SBD-regional Goiás
Research Fellow (Visiting Faculty) na Academisch Ziekenhuis
Free University Hospital, Amsterdan-Holanda