O jornal Lancet publicou um artigo que tenta clarear os resultados conflitantes sobre o risco de desenvolvimento de diabetes mellitus, observado em ensaios clínicos que utilizaram essa classe de medicamento. 
 
Na tentativa de se estabelecer uma relação entre o uso de estatina e desenvolvimento do diabetes os autores realizaram uma meta-análise envolvendo estudos randomisados, controlados publicados e não publicados no Medline, Cochrane e Embase entre  1994 e 2009. 
O artigo é um trabalho dos professores Naveed Satar e David Preiss, da Glasgow Cardiovascular Research Centre, University of Glasgow, Reino Unido.

Para que um estudo fosse incluído, deveria ter mais de 1.000 pacientes, e duração de pelo menos um ano. Foram excluídos os ensaios de pacientes com transplantes de órgãos ou que necessitavam de hemodiálise.

Foram avaliados 13 estudos com um N total de 91.140 participantes, dos quais 4.278  desenvolveram diabetes após uma média de 4 anos. 2226 usavam estatina e 2052 estavam no grupo controle. Isso conferiu um odds ratio de 1,09 com intervalo de confiança de 95%, ou seja, um risco relativo de 9% a mais no desenvolvimento do diabetes para os pacientes que usaram estatina por 4 anos.

Em outras palavras é necessário que 255 pacientes sejam tratados com estatina por 4 anos para se obter um caso extra de diabetes. No entanto, para cada 1 mmol/L (39mg/dl) de redução na concentração do LDL colesterol que as estatinas poderiam causar, os mesmos 255 pacientes poderiam esperar menos cinco eventos coronarianos maiores como a morte por doença cardíaca coronária ou infarto agudo do miocárdio não fatal.

O IMC (índice de massa corpóreo) inicial não influiu na incidência do DM2. Nem tampouco a variação do LDL colesterol. Uma análise de meta-regressão mostrou que nos estudos onde a população era mais velha, a incidência de DM2 com o uso de estatina foi maior.

Os pesquisadores destacam que as descobertas não provam que a terapia com estatina aumenta risco de diabetes através de um mecanismo molecular direto. No entanto, a possibilidade deve ser considerada. Por outro lado, o aumento do risco pode ser de alguma forma ligada ao tratamento com estatina. Embora os autores achem essa possibilidade mais remota, pode ser que o risco aumentado de desenvolver diabetes seja uma descoberta casual.

Os autores recomendam que os pacientes idosos que usarem estatinas tenham uma monitorização mais freqüente quanto ao aparecimento de diabetes e sugerem que os próximos estudos incluam como desfecho secundário a incidência de diabetes.

O estudo conclui que a terapia com estatina é associada a um risco ligeiramente aumentado de desenvolvimento de diabetes, mas o risco é baixo principalmente quando se olha a redução de eventos coronarianos. A prática clínica em pacientes com risco cardiovascular moderado ou alto e/ou doença cardiovascular não deve mudar. No entanto, o risco potencial de desenvolver diabetes deve ser levado em conta se a terapia com estatina é considerada para pacientes com risco cardiovascular baixo ou grupos de pacientes em que o benefício cardiovascular não foi provado.
 
Informações do Autor

Dr. Sérgio Vêncio
Médico endocrinologista
Presidente da SBD-regional Goiás
Research Fellow (Visiting Faculty) na Academisch Ziekenhuis
Free University Hospital, Amsterdan-Holanda