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  Edição nº 11  








Levou um susto, teve um choque emocional e ficou diabético. O que há de verdade nisso? Será possível desencadear o diabetes apenas por um forte stress ou emoção? Para esclarecer o assunto, fomos ouvir o endocrinologista Ricardo M. R. Meirelles, diretor do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE), do Rio de Janeiro, e com o psicanalista Alexandre Kahtaliam, professor adjunto de Psicologia Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O Dr. Ricardo afirma que um choque emocional não pode, por si só, desencadear o diabetes. "É certo que o portador do diabetes é muito sensível às variações de humor e ansiedade. Quando ele está sob stress, libera cortisol e adrenalina, que são hormônios anti-insulínicos, tornando mais difícil o controle do diabetes. Mas ninguém fica diabético sem que haja uma predisposição genética para isso. Então o choque emocional só pode acarretar um diabetes para quem já tem essa tendência", explica.

Ele acrescenta que não existe diabetes emocional, que só se manifeste durante uma crise. Na realidade, no momento em que o paciente adquire o diabetes, tem que conviver com ele o tempo todo. Um dos grandes desencadeadores é o aumento de peso. "O que acontece é que, quando alguns indivíduos - que não são diabéticos, mas têm essa tendência genética - estão sob tensão, comem mais e engordam. O aumento de peso ainda é uma das grandes causas dessa doença", afirma o Dr. Ricardo Meirelles.

O Dr. Alexandre, por sua vez, diz que nenhuma enfermidade, do ponto de vista de seu aparecimento, é isenta de aspectos emocionais e biográficos que o indivíduo atravessa durante a sua vida. "É isso o que nos ensina a psicossomática: nada no organismo acontece por acaso. Acontece porque há uma série de conjunções nesse sentido. Há elementos do próprio organismo que ajudam a compor uma situação em que a fragilidade acontece. A homeostase (equilíbrio do corpo) diminui e, então, há o aparecimento da doença", afirma.

"É evidente', continua o Dr. Alexandre 'que uma situação emocional mais tensa desencadeia a produção de hormônios e isso altera os níveis glicêmicos, mas altera para todo mundo. Não é específico do diabetes. Outras pessoas podem ter um enfarto ou, pelo mesmo motivo, se tornarem asmáticas", explica.

O componente hereditário, de acordo com Dr. Alexandre, é muito importante para o surgimento do diabetes no paciente. "Não existe o aparecimento de uma doença, no organismo em geral, que não tenha a ver com a biografia da pessoa. Quando fazemos o rastreamento da vida emocional de um indivíduo, vemos que, em determinadas situações, predominam alguns elementos de natureza emocional que são apenas facilitadores de aparecimento de doença, não mais do que isso", diz.

O Peso da Hereditariedade

Apesar da genética indicar a existência de um componente hereditário no diabetes, isso não quer dizer, necessariamente, que o filho de uma pessoa diabética tenha que ser portador da disfunção. "Pode não ocorrer numa geração e ocorrer em outra", afirma Dr. Alexandre. Além disso, acrescenta, "um diabético tipo 2 (que se tornou paciente na idade adulta) pode ter adquirido o diabetes porque, além do fator hereditário, aumentou de peso; passou a ter uma vida mais sedentária e a ingerir alimentos mais calóricos; se aposentou; ou, se for do sexo feminino, entrou na menopausa", comenta.

A falsa idéia de que um choque emocional, por si só, tenha desencadeado o diabetes levou um paciente do Dr. Alexandre a acreditar, da infância até a idade adulta, que ficou diabético em decorrência de um grande susto sofrido aos sete anos de idade.

"Ele estava arrancando flores quando chegou o jardineiro e lhe deu uma bronca. O homem trazia uma tesoura de plantas nas mãos. Apavorado, o menino saiu correndo, achando que o jardineiro iria cortar o seu pênis. Como seus pais não eram diabéticos, tinha certeza de ter adquirido o problema por causa do que aconteceu", conta o Dr. Alexandre. O médico acrescenta que, mais tarde, o pai de seu paciente ficou diabético e, num rastreamento da doença em seus antepassados, foram encontrados outros casos.

Segundo o Dr. Alexandre, a infância é um período muito rico em acontecimentos de natureza emocional. "O desmame; a descoberta da sexualidade e de onde nascem os bebês; a intuição do que é uma relação sexual; a entrada na puberdade; todas essas fases são carregadas de emoções, é um vasto mundo do desenvolvimento psíquico de uma criança", afirma.

É Preciso Bom Senso

O Dr. Alexandre alerta que não se deve ligar a palavra emoção apenas a fatos ruins. "A emoção não é ruim nem boa, apenas expressa aspectos das situações em que é desencadeada". Para exemplificar, conta o caso de uma pessoa que foi internada no CTI de um hospital, com edema agudo de pulmão.

"Era uma matriarca de uma família italiana e foi internada no CTI em situação grave. Se não fosse atendida, oxigenada, poderia falecer. Estava muito estressada com a situação dramática e perguntava se sua família estava lá fora. Percebi que, se visse algum parente, se tranqüilizaria. Em determinado momento, permiti que seu marido entrasse. Ele segurou sua mão, fez um carinho, depois saiu. Logo em seguida, ela já estava respirando bem melhor e saiu do CTI. Foi um caso de choque emocional bom". Por isso, para o Dr. Alexandre aquela placa com os dizeres "Não Perturbe", geralmente vista em hospitais, precisa ser usada com bom senso.

 

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