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  Edição nº 19  

 

 

Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? A famosa expressão popular pode ser lembrada quando o que está em questão é o profundo relacionamento entre o diabetes e a depressão. É comum os tratamentos das duas patologias se mostrarem interligados
quando o paciente é o mesmo.

 

Mais atribuída a uma complicação do diabetes, a depressão também pode ser fator de risco para o seu desencadeamento, principalmente no caso do tipo 2. Esta foi uma das conclusões da pesquisa, realizada na Universidade de Washington (Estados Unidos), pelo professor de psicologia médica Patrick Lustman e sua equipe. O estudo - publicado em junho de 2001 na revista Diabetes Care, da American Diabetes Association - sugere que o estado depressivo provoca uma alteração hormonal capaz de provocar o diabetes.

De acordo com o Dr. Mareio Versiani, professor titular de psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde também dirige o Programa de Ansiedade e Depressão, existem várias explicações para essa freqüente associação entre as duas patologias.

"Vinte por cento da população em geral apresenta depressão. E os pacientes diabéticos têm ainda maior chance, pois o diabetes mexe com o equilíbrio hormonal (podendo causar um estado depressivo). Em situações de estresse, também há um aumento na secreção de alguns hormônios, principalmente o cortisol, que age contra a insulina e ajuda a manifestar o diabetes", afirma.

Ele acrescenta outro motivo para a estreita ligação entre diabetes e depressão: a obesidade, que acomete muitos pacientes, e que poderia facilitar um quadro de angústia. Outra razão, segundo o Dr. Versiani, estaria ligada ao fato de alguns deles, tanto os do tipo l quanto os do tipo 2, conviverem com a disfunção de forma estressante.

"Mais um fator associado à depressão é a terceira idade - uma das fases de maior pico da doença (a outra é aos 18 anos). E nessa faixa etária também é mais desencadeado o diabetes tipo 2", analisa o Dr. Versiani, que atende muitos pacientes apresentando as duas patologias ao mesmo tempo. Como concluiu a pesquisa da Universidade de Washington, quando o diagnóstico do tipo 2 está acompanhado de um estado depressivo, não é possível saber o que surgiu primeiro.

Tristeza Não é Depressão
Vale frisar que tristeza não é o mesmo que depressão. A primeira é um sentimento; a segunda, uma disfunção orgânica, que pode ser tratada com inibidores de recaptação de serotonina e psicoterapia. Neste caso, o Dr. Versiani informa que deve-se adotar um cuidado especial, já que esses medicamentos engordam (devido aos efeitos colaterais que induzem à vontade de comer doce ou carboidrato), principalmente os chamados tricíclicos.

Para ele, é fundamental que o paciente tenha um bom relacionamento com seu médico, em todos os aspectos, especialmente os psicológicos. O psiquiatra seria um complemento interessante ao tratamento.

Em setembro deste ano, no 25° Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia, realizado em Brasília, houve uma palestra sobre depressão e diabetes, ministrada pelo endocrinologista Antônio Carlos Lerário, membro da diretoria da SBD. Ao iniciar sua exposição, ele disse que iria apresentar "um tema, não muito discutido nas sessões de diabetes, mas muito freqüente nos pacientes diabéticos".

De acordo o Dr. Lerário, é bastante difícil qualificar a depressão, já que não existem marcadores específicos para essa patologia. "O diagnóstico é clínico e há uma gama de apresentações que variam desde ansiedade, passando pela depressão mais leve, até quadros severos. Acredita-se que uma expressão bastante intensa seria a Síndrome do Pânico", explica.

O médico acrescenta que não se sabe, exatamente, os mecanismos íntimos da depressão, mas uma predisposição genética não deve ser descartada. Além disso, problemas como estresse contínuo, frustrações do dia-a-dia e até adversidades (muitas vezes vividas na infância), também levam à ansiedade, que acaba evidenciando-se somente por sintomas psicossomáticos, como cefaléias, tonturas, alterações do sono, entre outros.

A Pressão dos Médicos
Dr. Lerário indicou duas hipóteses que poderiam justificar a depressão nos diabéticos. Uma delas teria a ver com as alterações metabólicas do diabetes, que poderiam levar a esse quadro depressivo. A outra não seria a glicemia propriamente dita, mas as demandas que esses pacientes têm, não apenas pela dificuldade provocada pela disfunção, mas até pela pressão que sofrem dos próprios médicos.

"Existem vários trabalhos na literatura, mostrando o risco que nós, médicos, corremos quando não nos expressamos bem em nossa abordagem terapêutica. Com isso, acabamos pressionando o paciente a fazer um controle muito rigoroso, a ponto de deixarmos que fique extremamente angustiado, quando aumenta a glicemia em valores um pouquinho maiores do que o normal. Isso parece ter alguma influência", reconhece o médico.

O Dr. Lerário citou algumas pesquisas que indicam que, quanto mais o indivíduo fica deprimido, mais chances ele tem de piorar a sua taxa de glicemia no sangue. Por outro lado, também há evidências de que o controle glicêmico melhora o quadro depressivo. "Vários trabalhos na literatura mostram que a maior parte dos pacientes que se trataram com antidepressivos que atuam na recaptação da serotonina, quando melhoram também trazem benefícios para o seu diabetes", comentou.

Segundo o endocrinologista, as pesquisas também mostraram que, à medida em que o indivíduo tem mais complicações e, além disso, consciência delas, fica mais fácil tornar-se deprimido. Por isso, o Dr. Lerário acredita que se o paciente diabético com depressão receber um suporte psicológico, melhorará seu quadro clínico. "Esse suporte psicossocial é uma idéia que deveria ser padronizada", conclui.

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