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  Edição nº 20  

 

 

 

 

 

 

 

Não é só a chamada propaganda boca a boca. Freqüentemente são veiculadas na mídia informações nem sempre verdadeiras, do ponto de vista científico, sobre como cuidar e até mesmo “curar” o diabetes. Pata de vaca, alcachofra, carqueja, cebola e até cafezinho aparecem como soluções milagrosas, que enchem de perguntas os consultórios dos endocrinologistas.

“Tenho 40 anos e sou diabético tipo 1 desde os 26. Assisti ao filme O Quarto do Pânico, em que uma menina media sua glicemia através de um relógio de pulso. Vocês o conhecem ou é apenas ficção?” A pergunta, feita por um usuário deste site, soma-se a várias outras indagações sobre o que há de mito e verdade na terapêutica do diabetes.

Nesta Edição:

No caso do tal relógio, não é ficção, existe de verdade: é o Glucowatch, fabricado pela Cygnus Inc. Vendido apenas nos EUA, com receita médica, toca um alarme quando detecta uma leitura anormal. O aparelho mede a glicemia através da pele, e não pelo sangue.

O Glucowatch foi aprovado com restrições pela Food and Drug Administration (FDA), órgão que controla remédios e alimentos nos EUA. Por nem sempre registrar leituras corretas, o aparelho é indicado para complementar e não substituir os testes tradicionais. Mas, infelizmente, não funciona 100% no Brasil, já que, quando as medições são realizadas com a pele suada (freqüente em nosso clima), o risco de erro aumenta.

Plantas: Sim ou Não?

É preciso tomar cuidado com as informações, nem sempre verdadeiras, sobre plantas e ervas e aconselhar-se com seu endocrinologista. Embora seja público e notório que muitas têm poderes medicinais, elas apresentam princípios ativos que podem acarretar ações diferentes no organismo.

Entre as mais citadas estão: pata de vaca (erva utilizada em forma de chá), alcachofra, carqueja e sálvia. E mesmo que muitos afirmem diminuir suas taxas de glicemia no sangue com algumas dessas plantas, há controvérsias sobre a eficácia e a melhor forma de utilização das mesmas.

Segundo o Dr. José Egídio de Oliveira, presidente da SBD, ervas como a pata de vaca e a carqueja já foram pesquisadas cientificamente. A conclusão foi a de que elas não prejudicam, mas também não ajudam na terapêutica do diabetes. Além disso, ele lembra que algumas plantas podem ser inócuas ao organismo, enquanto outras acarretam até risco.

O presidente da SBD frisa que seria interessante que uma delas apresentasse efeito benéfico no paciente, pois poderia baixar o custo do tratamento: “Não estamos fechados a isso. Mas, simplesmente, ainda não temos notícias de nenhuma planta que tenha efeito realmente eficaz em termos de controlar a glicemia no diabético. E se ela reduzir o açúcar no sangue, é preciso verificar, ainda, se não prejudicará outro órgão, como o fígado, por exemplo”, pondera.

O médico comenta que muitos pacientes chegam ao seu consultório convencidos a utilizarem um determinado chá. Ele verifica o produto e, se é um dos que não fazem mal, recomenda: “Pode usar o chá, mas não deixe de tomar seus remédios e seguir sua dieta”.

Estudo sobre o Café

No dia 8 de novembro de 2002, o site do jornal Folha de São Paulo publicou reportagem sobre um estudo preliminar do Instituto Nacional de Saúde Pública da Holanda, mostrando que os que tomam café têm menos risco de desenvolver diabetes tipo 2. Mais de 17 mil indivíduos foram analisados pelos pesquisadores holandeses. Os que bebiam sete ou mais xícaras de café, por dia, reduziram em 50% a chance de desenvolver o diabetes em comparação aos que ingeriam duas xícaras ou menos.

“ Essa história ainda não tem fundamento científico comprovado’ explica o presidente da SBD. ‘Não sei se na Holanda as pessoas tomam muito café. Mas vamos usar como exemplo o Brasil, onde o consumo é alto e a população, enorme. Muitos ingerem café, outros tantos não. É difícil relacionar determinada doença ao hábito, ou não, de tomar uma certa bebida. Existem outras variáveis envolvidas, como obesidade, genética e fatores ambientais”.

Batata Yacón

Há mais de dois anos, a batata yacón vem sendo citada na imprensa como capaz de diminuir os níveis de açúcar no sangue. Ela também foi mencionada na revista Pense Leve, edição de agosto de 2002, que destacou, ainda, mais dois alimentos “na mira” de pesquisadores no tratamento do diabetes: os frutos do mar e a canela.

De acordo com a revista, a batata yacón apresenta teor de frutose em 60% de sua composição e poderia auxiliar a diminuição do açúcar no sangue, embora ainda não se saiba como. Quanto aos frutos do mar, a explicação foi a de que alguns deles, como o camarão, contêm dois minerais - o cromo e o zinco - cujas taxas costumam ser baixas nos pacientes diabéticos.

Já a canela, segundo a revista, foi analisada por cientistas do governo norte-americano, que encontraram nessa especiaria substâncias auxiliadoras na prevenção do diabetes tipo 2. “Nada disso foi comprovado pela ciência. São estudos preliminares, que merecem uma análise mais profunda para esclarecer, realmente, a possibilidade de efeitos satisfatórios”, afirma o Dr. Egídio, acrescentando que, embora alguns pacientes diabéticos tenham menos cromo, menos zinco, a suplementação desses elementos não melhora o quadro do diabetes.

O Mel

Em maio de 2002 da revista Veja apresentou reportagem em que um advogado paulista afirmou curar o diabetes com derivados de mel de abelha. O repórter da mesma matéria também ouviu o endocrinologista Adolfo Milech, delegado da SBD no Rio de Janeiro, que declarou: “Dar mel para diabético pode matar!”. O Dr. Egídio também descarta completamente a utilização do mel no tratamento desses pacientes: “Isso é um absurdo”, diz.

Ainda com relação à cura, o site da BBC Brasil colocou no ar, em maio de 2002, matéria sobre um novo medicamento capaz de controlar o avanço do diabetes e, ainda, dispensar as injeções de insulina nos pacientes tipo 1.

O site citou um artigo, publicado no New England Journal of Medicine, em que pesquisadores norte-americanos afirmavam que o estudo pode levar à cura os que estejam em fase inicial de diabetes tipo 1. A explicação: a droga em questão suprime a atuação de alguns anticorpos destruidores das células que liberam insulina, fazendo com que o organismo possa produzir um pouco do hormônio.

De acordo com o Dr. Egídio, hoje em dia já é possível prevenir o diabetes tipo 1 com determinadas drogas imunossupressoras (que bloqueiam o mecanismo de rejeição do organismo ao medicamento). O problema é o custo-benefício: o custo, por ser alto, não favorece seu emprego clínico; quanto aos efeitos colaterais, em comparação à utilização da insulina, são muito maiores. Logo, os benefícios são menores.

“ Essa pesquisa deve estar ligada a uma nova droga imunosupressora. Com o passar dos anos, vão se descobrindo medicamentos que tenham menos efeitos colaterais, com ação mais seletiva contra os anticorpos na prevenção do diabetes”, ressalta.

Luzes Acesas

Um mês depois, no dia 30 de junho de 2002, o site da BBC Brasil também publicou reportagem sobre uma pesquisa da Universidade de Cardiff, na Grã-Bretanha, sugerindo que pessoas com diabetes devem dormir com as luzes do quarto acesas.

Para os cientistas, a medida pode evitar a retinopatia (complicação do diabetes, que ataca a visão), já que ela ocorre quando minúsculos vasos sangüíneos na parte de trás dos olhos explodem ou são bloqueados. A retina seria lesada por ausência de oxigenação e o problema aumentaria durante a noite, quando os olhos necessitam de mais oxigênio para enxergar em ambientes escuros.

De acordo com os pesquisadores, que avaliaram sete pacientes diabéticos tipo 2, a claridade pode passar pela pálpebra, fazendo com que os olhos adaptem-se melhor à luz e reduzam o consumo de oxigênio da retina.

Sobre esse estudo, o Dr. Egídio opina que, teoricamente, ele faz sentido, já que a claridade promove vaso-dilatação. Mas alerta que a pesquisa está no início.

Veneno de Escorpião

A peçonha de um temido animal é outra novidade no terreno das perspectivas de cura do diabetes. A reportagem de janeiro deste ano, da revista Veja, também informou que uma equipe de cientistas brasileiros e italianos - coordenada pela bioquímica Mari Sogayar, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo - descobriu que o veneno do escorpião tem o poder de multiplicar as ilhotas de Langerhans.

O Dr. Egídio tem conhecimento deste estudo e afirma ser muito otimista com relação à descoberta da cura do diabetes, já que existe uma série de linhas de pesquisa nesse caminho. “O próprio implante de célula beta já tem resultados promissores: a maioria dos pacientes que fizeram a cirurgia, há três anos, tem conseguido manter o controle sem usar insulina. O mesmo podemos dizer sobre muitos dos que fizeram transplante duplo de pâncreas e rim”.

E não apenas na cura, mas também na prevenção do diabetes tipo 2, estudos recentes demonstram que 58% dos indivíduos com alto risco de desenvolver a disfunção conseguem afastá-la, a tempo, ao mudarem seus hábitos alimentares e passarem a praticar atividade física moderada. "Bastam 30 minutos de caminhadas, durante cinco dias por semana, e uma dieta adequada com baixo teor de gordura", informa o Dr. Egídio.

Para os que não podem, não conseguem ou não querem mudar os hábitos, apesar dessa mudança ser a mais indicada, já existem medicamentos para a prevenção do diabetes tipo 2: a metformina, a acarbose e as glitazonas.

Mensagem aos Pacientes

"Acho que todas as pessoas que têm uma afecção crônica, como o diabetes, devem pensar na cura. Pois quanto mais conhecimento adquirirem sobre o assunto, conseguirão melhor nível de tratamento, atingindo maior controle da disfunção. Assim, afastarão as possibilidades de complicações, viverão mais tempo, com melhor qualidade de vida e estarão mais preparados para quando a cura chegar", declara o presidente da SBD.

O Dr. Egídio assinala que, hoje em dia, as notícias sobre diabetes são muito freqüentes, uma vez que a mídia constatou tratar-se de um problema de saúde pública, acometendo um grande número de pessoas, que representam uma massa de leitores. "Mas é preciso que o paciente saiba identificar as reportagens realmente seguras, com fundo científico, e recorrer ao seu diabetólogo, endocrinologista, à equipe de saúde que o acompanha e até mesmo às associações de diabéticos para esclarecê-lo sobre o tema em questão", conclui.

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