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mais saude mais saude   mais saude mais saude
  Edição nº 20  

 

 

 

 

 

 

 

Um dos grandes obstáculos à alimentação adequada de crianças e adolescentes começa no lanche escolar.
Seja por vergonha ou dificuldade de identificação
diante do grupo com o qual convive, o paciente
jovem acaba resistindo à idéia (por mais sensata
que seja) de que seus hábitos alimentares são
mais saudáveis e, portanto, melhores do que muitos de seus colegas de escola.

 

Além do fator diabetes, crianças e adolescentes também enfrentam o perigo da obesidade. Pesquisa realizada pela ABESO (Associação Brasileira para o Estudos da Obesidade) revela que 80% desse público obeso permanece assim na vida adulta. Mais do que uma simples moda ditada pelos corpos perfeitos, o lanche saudável representa uma mudança de hábito necessária para evitar a obesidade infanto-juvenil, prevenindo também o surgimento do diabetes tipo 2 nos adolescentes.

Mas como convencê-los de que estão no caminho certo sem parecer algo chato ou monótono? Como fazer do lanche um momento agradável, sem fazer o paciente se sentir diferente dos outros colegas? Com tantas modas e tendências vigorando, muitos pacientes, principalmente os jovens, precisam se identificar com o seu grupo social, adotando hábitos e costumes que podem fazer mal a sua saúde.

Atenção aos Modismos

Um bom exemplo disso são as substâncias que os jovens gostam de colocar nos sucos para ganhar massa muscular. Os adolescentes freqüentam academias cada vez mais cedo e, para ficarem “bombados”, fazem uso de albuminato, carboinato ou misturas como amendoim batido com guaraná. É bom alertar, então, que para o paciente diabético essa prática não é boa, já que aumenta o teor de proteína na alimentação, prejudicando a função renal.

Outra dica é em relação ao suco de açaí preparado em lanchonetes. Alguns colégios particulares não oferecem cantina, mas permitem que os alunos façam seus lanches em estabelecimentos próximos à escola. O famoso suco é extremamente calórico (cerca de 550 calorias em um pote de 300g), além de ser preparado com açúcar e xarope de guaraná. Logo, se o paciente quiser experimentar a nova sensação terá que pedir sem açúcar e em quantidade menor, em torno de 100g. Além disso, não acrescentar granola nem tapioca.

Quanto aos sucos clorofilados, não há restrição alguma, pelo contrário, é até recomendado. De preferência com sucos pouco calóricos, como o de melão ou limão. Essa recomendação é fundamental para qualquer tipo de suco natural, já que se ingere muitas porções de fruta ao mesmo tempo. Entretanto, em relação ao suco de laranja pede-se uma atenção especial, já que estão concentradas cerca de 4 porções da fruta, na forma líquida, sendo muito calórico. Sem falar que, na maioria das vezes, as bebidas preparadas em cantina não utilizam água potável.

Os Perigos do Fast-Food

Outra tentação perigosa, tanto para as crianças como para os jovens, é a onda das lanchonetes fast-food. Bob’s e McDonald’s, por exemplo, oferecem atrativos como brinquedos e bonecos, tornando o lanche um momento de diversão. O hábito de se tomar refrigerante em quantidades exageradas passou a ser quase uma lei imposta por esses estabelecimentos, verdadeiros pontos de encontro da garotada. Para a endocrinologista Cláudia Pieper, ir para esses locais é uma forma de o jovem se identificar com o grupo. “Às vezes, ele não está pensando nem na comida, mas como todo mundo vai, ele quer ir também”.

Para a médica, o ideal seria não fazer esse tipo de lanche, já que uma promoção do tipo sanduíche + batata frita + refrigerante tem em torno de 1500 Kcal, o que corresponde a boa parte do que deveria ser ingerido num dia por quem quer manter o seu peso. Mas não se deve levar em consideração apenas a parte nutricional, é preciso pensar na psicológica também. A Dra. Cláudia acha importante haver um equilíbrio entre o que pode ser considerado saudável, mas também agradável para o paciente.

Para isso, ela recomenda o uso do bom senso. Se não dá para evitar os lanches fast-food, escolher as opções mais naturais (sem bacon ou presunto, por exemplo), evitando os sanduíches duplos ou triplos junto com a batata frita. Além da preferência pelos tipos simples (um Mc Hambúrguer possui 296 Kcal/104g), observar as promoções do momento. Se forem de frango ou de peru, melhor. Outra opção pode ser os nuggets com molhos. Ela ainda comenta que, se a vontade de comer batata frita for muito grande, não comprar uma porção inteira, mas “roubar umas batatinhas do colega ao lado” – brinca a médica.

Soluções Criativas

Mas o desafio maior está nas cantinas escolares. Crianças e jovens vivem diariamente esta rotina e têm que se deparar com os salgados e sanduíches gordurosos, além dos biscoitos industrializados. O pior é que muitas cantinas não oferecem opções, dificultando a dieta do paciente diabético. Como reverter esse quadro de hábitos alimentares errados, se a criança e o jovem ficam com a sensação de que só eles comem coisas saudáveis, enquanto a grande maioria opta por alimentos inadequados?

Para não fazer a alimentação correta virar um tabu entre eles, tem que se adotar “estratégias de marketing” para reverter a situação. Tornar o lanche agradável e colorido pode ser uma solução. A Dra. Cláudia explica que o organismo tem tendência a se acostumar com a alimentação mais adequada a ele. Nesse sentido, é interesante saber que a cor abóbora desperta o interesse gustativo, o que pode ser aproveitado em forma de pastas à base de cenoura, por exemplo.

Outra medida a ser adotada pode ser uma oferta maior de produtos dietéticos e naturais. Segundo as normas da Organização Mundial de Saúde em relação à abordagem nutricional em Diabetes Mellitus, deve haver refrigerantes, chás e mates dietéticos no colégio. Para a Dra. Cláudia, essa lista poderia se estender ao leite e seus derivados, já que as crianças e jovens estão consumindo-os cada vez menos. Eles têm preferido o café puro ou os achocolatados, o que prejudica o crescimento, no caso do primeiro, e aumenta a glicemia, no segundo.

Adaptações Necessárias

Outro ponto importante é o horário do lanche. Na parte da manhã, ele deve ser menos calórico do que na parte da tarde, já que é próximo à hora do almoço. A endocrinologista alerta que é um erro levar sanduíches com queijo e presunto ou hambúrgeres, que são muito comuns. Ela frisa que, se o paciente não se contentar com apenas uma fruta, pode até levar um sanduíche, desde que o recheio seja leve. São várias as opções: blanquet ou fiambre de peru, queijo minas, pastas à base de legumes e verduras, requeijão e maionese light, molhos...

Em relação aos hambúrgueres das cantinas, realmente devem ser evitados. Primeiro porque são feitos com gordura saturada e, além disso, as carnes utilizadas nesses locais são congeladas, com muita gordura, soja misturada a outros elementos e pouca proteína de carne de boi. Uma solução para saciar a vontade é mais uma vez preferir a versão natural, feita em casa. A carne do hambúrguer pode ser de frango ou de peru, com menos calorias, de preferência grelhada. Para incentivar o consumo de verduras ou legumes, acrescentar alface, tomate e cebola, por exemplo.

Ela dá dicas também de opções light ou diet, que já estão disponíveis em alguns estabelecimentos: sucos de fruta prontos (33Kcal/335ml), barras nutricionais (67 Kcal/25g), biscoitos de fibra, cereal, iogurte (72Kcal/200ml), leite de soja e diet shake. Hoje em dia, a oferta de produtos dietéticos aumentou muito no mercado, facilitando adaptações na dieta do paciente. Um bom exemplo são os biscoitos recheados dietéticos. Eles podem significar um lanche diferente e nem por isso menos gostoso, satisfazendo a vontade da criança de comer doce como as outras. Um detalhe que precisa ser observado é a questão da quantidade. Ela deve ser limitada, não estimulando a criança a comer demais. O mesmo pode ser dito à respeito do pão de queijo: uma vez ou outra, pode ser consumido pelo paciente, desde que com moderação.

Vencendo Obstáculos

Mas ainda não falamos dos dois maiores vilões dos lanches escolares: os salgados e os famosos biscoitinhos. Em relação aos primeiros, a médica não vê problema em a criança ou o adolescente consumí-los de uma a duas vezes por semana. Recomenda que a escolha seja feita de acordo com o tipo de fritura e o recheio. Ela acha que os salgados feitos ao forno sejam mais indicados, sem recheios à base de queijo e presunto.

Ela explica também que os biscoitos são muito calóricos, ainda mais porque a garotada costuma comer o pacote inteiro. A médica deu o exemplo de um que possui 96 Kcal/25g, o que corresponde a 384 calorias no total. Trata-se, portanto, de um lanche matinal hipercalórico, favorecendo o aumento da taxa glicêmica na hora do almoço. Apesar das restrições, Dra. Cláudia acredita que a liberdade dada ao paciente para fazer suas escolhas é fundamental, pois a partir daí ele vai compreender a importância da alimentação correta. Ou seja, aprende a ter liberdade com responsabilidade.

Ela conta que é muito comum as crianças diabéticas trocarem seus lanches na escola com as não diabéticas. É uma espécie de aventura para experimentar as novidades. Só que muitas vezes, essas crianças não têm noção do que é bom ou ruim para elas, fazendo a troca sem contar nada a ninguém. É um perigo para o paciente, interferindo no controle da glicemia. Daí a importância de comunicar aos monitores, professores e funcionários da cantina a condição de paciente diabética da criança.

Enfim, adotar hábitos saudáveis faz bem para qualquer um, principalmente para quem é diabético. Portanto, o esforço dos pais em criar lanches diferentes e variados não é em vão. Trata-se de tentar mudar uma visão errada sobre alimentação, influenciada por tendências impostas há muito tempo. “É importante deixar a criança e o adolescente perceberem que existe a possibilidade de se fazer lanches saudáveis iguais ou até melhores do que os outros”, conclui a endocrinologista.

 

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