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Toda situação nova causa uma certa ansiedade. É necessário um período de adaptação para aprender a lidar com fatos inesperados, ou até mesmo indesejados. Entre as pessoas com diabetes é muito comum, quando recebem o diagnóstico, passarem por uma crise. É o que os médicos chamam de “revolta inicial do paciente com diabetes”.
Essa revolta ocorre porque, para muitos, ter diabetes ainda tem uma conotação de ser doente, ou seja, ter limitações para o resto da vida. Geralmente o paciente se vê cercado de crendices e desinformação, o que pode levar, desnecessariamente, a uma situação de estresse. Alguns a vêem, erroneamente, como uma espécie de punição.
Segundo os especialistas, esse momento inicial difícil transparece em várias atitudes de negação: alguns que tomam remédio não levam a receita para a consulta, outros esquecem de fazer os exames e há, ainda, os que perdem os resultados. Eles afirmam que é freqüente o paciente não querer fazer o exame, por ter a consciência de que a sua taxa de glicemia está alta. Algumas vezes, ele resolve testar: pára de tomar a insulina para saber como vai se sentir. É comum também o paciente faltar constantemente às consultas. Nesse caso, os médicos costumam ligar para o paciente, tentando chamá-lo de volta para o tratamento
Segundo o endocrinologista Rogério F.Oliveira, a crise sempre existe, porém em gradações diferentes. O adulto dissimula a sua revolta, tentando enganar não só ao médico, mas a ele próprio. Já na criança e no adolescente ela é vista mais claramente, já que eles não têm tantos mecanismos de defesa para camuflarem o que sentem. Além disso, certa dose de rebeldia é comum a todos os adolescentes, tenham eles diabetes ou não.
Para tentar conter essa revolta, a informação é fundamental. O paciente tem que se conscientizar de que, bem controlado, pode levar uma vida absolutamente normal. Ele precisa perceber que só haverá limitação de suas habilidades e capacidades caso não se trate. O Dr. Rogério afirma que o médico deve esclarecer que esse controle dá a oportunidade de uma vida mais sadia, do ponto de vista alimentar e da atividade física; de torná-lo capaz de fazer tudo o que ele quer; e que é muito melhor se controlar bem do que pagar um tributo alto, com complicações.
É possível se sentir com muita saúde tomando certos cuidados, como parar de fumar, só beber moderadamente, tomar remédios e cuidar do peso. O tratamento deve ser incorporado ao seu dia a dia. Quanto mais simplificar, melhor. A medição da glicemia e a aplicação da insulina têm que passar a fazer parte do cotidiano, assim como o ato de se barbear ou tomar banho. Quando se consegue encarar o diabetes dessa forma, a fase de revolta provavelmente já está superada.
A família também tem um papel importantíssimo na aceitação da doença pelo paciente. Quando ela aceita o fato e passa a conviver bem com isso, o processo é muito mais fácil. Ele deve ser tratado com carinho, sem ameaças. Aderindo ao tratamento, a família ajuda a diminuir a revolta. Os familiares podem dar apoio, por exemplo, mudando seus hábitos alimentares. Se o paciente tem que comer verduras e legumes, será ótimo se toda a família adquirir esse hábito. Além de mais saudável para todos, vai evitar aquele sentimento característico de solidão e exclusão.
Situações como a separação dos pais, a morte de um parente próximo, ou até mesmo uma mudança de casa podem ser um mecanismo ambiental de deflagração do diabetes, quando a pessoa já tem predisposição. Nesses casos, os pais costumam se sentir culpados, tornando-se muito difícil para eles aceitar a doença do filho.
O Dr. Rogério F. de Oliveira afirma que, no caso do diabetes tipo I, as crianças não entendem muito bem o que está acontecendo com elas. No momento do diagnóstico, não sabem o que é exatamente diabetes e os riscos que ele pode trazer. Sendo assim, é comum que a revolta parta dos pais. São eles que precisam se informar e ter o cuidado de não tratar este filho diferente dos demais.
Os médicos costumam indicar aos pacientes novatos que entrem em contato, mesmo que seja por telefone, com dois ou três pacientes controlados, mais ou menos da mesma idade. Essa troca de experiências sempre rende bons frutos.
As associações de pacientes com diabetes são os lugares apropriados para esse intercâmbio. Eles conversam e ouvem depoimentos de médicos, de pacientes bem controlados e dos que tiveram complicações. A freqüência às associações é recomendada inclusive para os pais, já que eles também estão aprendendo a conviver com a nova realidade.
Esses encontros servem para que o paciente veja que há outras pessoas, na mesma situação, que já venceram essa etapa, fazendo com que se sinta reconfortado. Além das associações, há uma grande troca de informações também nas colônias de férias, bom suporte para crianças e adolescentes. Quando essa convivência não é eficaz o suficiente para amenizar a revolta, ou quando a fase se prolonga por muito tempo, pode ser indicado um acompanhamento psicológico.
É fundamental superar essa fase de revolta o mais rápido possível e aprender a conviver com a nova realidade. Negar o diabetes só trará problemas. Ao contrário, a sua aceitação e controle possibilitará uma melhor qualidade de vida, para que a pessoa possa fazer tudo o que gosta.