Antonio Carlos Pires
Professor Adjunto Doutor da Disciplina de Endocrinologia e Metabologia da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto.
Os valores circulantes de vitamina D variam individulamente, principalmente devido às diferenças na exposição aos raios solares e da cor de pele. Estudos clínicos realizados em países nórdicos demonstram claramente diferenças sazonais nos valores circulantes de vitamina D. Durante o inverno a deficiência de vitamina D foi constatada em 73% da população e no verão em 29%. Além de a ingesta alimentar, fisiologicamente a vitamina D é sintetizada na pele a partir do composto 7-dehidrocolesterol que pelo efeito estimulatório dos raios solares (radiações ultravioletas) se transforma em vitamina D3 que quando liberada na circulação se liga às proteínas circulantes que a transportam até o fígado para a formação de 25-hidroxicolecalciferol (25OHD3) que é biologicamente inativa. Nos rins, controlado pelo PTH e pelos valores séricos de cálcio e fósforo, é hidroxilada em 1,25(OH)2D3 que ao ligar-se aos seus receptores específicos localizados principalmente na musculatura lisa dos vasos sanguíneos, nas células endoteliais, celulas β pancreáticas, nas células imunológicas, particularmente nas células apresentadoras de antígenos e nas células T ativadas. Essas últimas células contém 1α-hidroxilase e são controladas por sinais imunológicos para secretar a forma ativa da vitamina D, ou seja, a 1,25(OH)2D3. Mas a principal forma de vitamina D circulante é a 25(OH)D3 que na prática, a sua dosagem é utilizada para avaliar a reserva de vitamina D no organismo. Embora não exista consenso em relação aos seus valores circulantes normais podemos definir um indivíduo com deficiência de 25(OH)D3 quando apresentar valores menores do que 20ng/dL. Com esse ponto de corte estima-se que um bilhão de pessoas tem deficiência de vitamina D em todo o mundo. Atualmente, há um crescente interesse em demonstrar ou entender melhor o papel da vitamina D na etiopatogenia de diabetes mellitus, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares. Ultimamente, tem sido relatado aumento da incidência de deficiência de vitamina D em diabetes mellitus tipo 1 e 2. Além disso, em diabetes tipo 1 a deficiência é mais prevalente em portadores de microalbuminúria do que em normoalbuminúricos. Estudos em modelos animais associam a deficiência de vitamina D com a redução da secreção de insilina pelas células β. Outros modelos experimentais de deficiência grave de vitamina D também demonstraram risco aumentado de diabetes mellitus e em modelos de prevenção primária de diabetes mellitus com altas doses de vitamina D observou-se redução de risco de diabetes. Especula-se que em humanos a hipovitaminose D durante o período gestacional poderia ativar o sistema imune dos fetos, como foi demonstrada pela detecção de anticorpos antiilhotas já no primeiro ano de vida. Com base nesses achados de literatura, alguns pesquisadores advogam a suplementação de altas doses de vitamina D com o objetivo de redução de risco de diabetes mellitus. Como prevenção de diabetes tipo 1, podemos atuar em fases extremamente precoces em crianças com alto risco genético de desenvolver o diabetes com o propósito de suprimir a ativação autoimune, o qual é chamada de fase de prevenção primária. Vários ensaios clínicos foram realizados, mas sem resultados convincentes. Outra possibilidade de intervenção seria em situações que já houve a ativação autoimune, caracterizada pela presença de um ou mais anticorpos circulantes, mas ainda com normoglicemia. Infelizmente, nenhum estudo realizado mostrou resultados satisfatórios. A outra possibildade, denominada de intervenção terciária é a tentativa de preservação de função das células β nos indivíduos com diabetes manifesto. No passado se usou a ciclosporina com resultados satisfatórios, mas esse procedimento foi interrompido devido aos efeitos colaterais, principalmente a nefrotoxicidade. Atualmente, várias pesquisas com anticorpos monoclonais estão em andamento na tentativa de reduzir a ativação de células T. Recentemente foi publicado por Gabbay e colaboradores, do Centro de Diabetes da Escola Paulista de Medicina, um interessante ensaio clínico prospectivo, duplo cego, aleatorizado e controlado com placebo, de intervenção terciária em 38 pacientes com diabetes mellitus tipo 1 recém-diagnosticados, com anticorpos anti-GAD e IA-2 positivos e células β ainda com função residual determinada por meio de dosagem de peptídeo-C de jejum com ponto de corte maior ou igual 0,6ng/mL durante 18 meses. Entre as avaliações realizadas, o resultado mais importante foi à redução de progressão de falência das células β no grupo que recebeu a suplementação de vitamina D, avaliada por meio de dosagens de peptídeo-C de jejum (≤ 0,1ng/dL). A incidência cumulativa de progressão de falência de células β observada foi de 18,7% no grupo de vitamina D, enquanto no grupo placebo foi de 62,5% (p=,01) e ainda, por meio de peptídeo-C estimulado foi de 6,2% e 37,5% (p=,047), respectivamente no final do estudo. Em conclusão, diante dos achados de estudos experimentais e os resultados obtidos nesse ensaio clínico, os autores sugerem a suplementação de vitamina D combinada a insulinoterapia com o objetivo de reduzir a progressão de falência imunológica das células β. Em minha opinião e de acordo com o ponto de vista prático, esse tipo de intervenção deve ser visto com mais ênfase pelo fato de que a suplementação com vitamina D é segura se compararmos com outras formas de prevenção. Portanto, é evidente que esse ensaio tráz resultados importantes e gera grandes expectativas, mas obviamente é necessário mais estudos com amostras maiores para que tenhamos mais evidências para a prática diária.
Effect of Cholecalciferol as Adjunctive Therapy With Insulin on Protective Immunologic Profile and Decline of Residual-Cell Function in New-Onset Type 1 Diabetes Mellitus
Mônica A. L. Gabbay, MD, PhD; Maria N. Sato, MD, PhD; Claudia Finazzo, MS(Biomed); Alberto J. S. Duarte, MD, PhD; Sergio A. Dib, MD, PhD
ARCH PEDIATR ADOLESC MED/VOL 166 (NO. 7), JULY 2012
Veja também o Editorial da mesma Revista sobre o artigo
Vitamin D3 Supplementation to Preserve Pancreatic -Cell Function in Newly
Diagnosed Type 1 Diabetic Patients
ARCH PEDIATR ADOLESC MED/VOL 166 (NO. 7), JULY 2012




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