Técnica inédita confirma o papel potencial da microbiota intestinal nos distúrbios glicêmicos e no metabolismo lipídico em obesos.

Não se assuste. É isso mesmo que você leu acima: pacientes obesos e com pré-diabetes melhoram a sensibilidade à insulina depois de transplante fecal com material obtido de doadores magros e saudáveis.

Estudos animais já haviam confirmado uma associação entre a obesidade e a microbiota intestinal: animais que receberam bactérias de fezes de camundongos obesos apresentaram um aumento significativamente maior da gordura corpórea total do que aqueles colonizados com a microbiota de camundongos magros.

Esse estudo promoveu grande interesse e intenso debate sobre sua aplicabilidade prática depois de sua apresentação no recente Congresso Europeu de Diabetes, realizado na semana passada, em Estocolmo. Foi um estudo piloto, randomizado e controlado, avaliando o efeito do transplante de fezes para o controle de disfunções metabólicas importantes no homem.

Foram incluídos 18 pacientes do sexo masculino com obesidade e síndrome metabólica que não estavam sendo medicados para essas condições e que não tinham utilizado antibióticos durante os últimos 3 meses. Todos os pacientes passaram por uma biópsia jejunal e por uma lavagem intestinal para eliminar sua própria floral intestinal nativa. Eles foram então randomizados para receber transplante alogênico de fezes de um doador magro ou então transplante autólogo.

O material fecal transplantado foi analisado quanto à presença de parasitas e da bactéria Clostridium difficile e a testes sanguíneos que confirmaram a ausência de várias infecções, incluindo HIV. Os excrementos eram coletados das fezes eliminadas pela manhã e introduzidos nos pacientes através de um tubo duodenal.

Os pesquisadores não encontraram alterações no peso entre os dois grupos após 6 semanas. Apesar disso, houve melhoras consideráveis na sensibilidade à insulina, depois de 6 semanas, no grupo que recebeu fezes de doadores magros em comparação com os pacientes que recebeu transplante autólogo de fezes.

Os níveis de triglicérides foram significativamente reduzidos no grupo tratado, mas retornaram ao normal após 12 semanas.  Não houve alterações na dieta e no nível de atividade física dos pacientes que pudesse explicar a melhora na sensibilidade à insulina.

Embora essa abordagem inovadora tenha seus méritos indiscutíveis, sua aplicabilidade tanto em novos estudos clínicos como na realidade da prática clínica diária é altamente improvável. Você seria capaz de recomendar esse procedimento a um de seus pacientes?

Fonte: Vrieze A. et al. “Metabolic effects of transplanting gut microbiota from lean donors to subjects with metabolic syndrome”. European Association for the Study of Diabetes – EASD 2010; Abstract 90.

VOLTAR

Informações do Autor

Dr. Augusto Pimazoni-Netto
Coordenador do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do Hospital do Rim e Hipertensão da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP
E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.