Com o rápido crescimento da prevalência mundial de doenças crônicas, como obesidade, diabetes e câncer, surge uma necessidade urgente de se desenvolver estratégias para sua prevenção. Sabemos que a intervenção mais eficaz conhecida até o momento para aliviar essas condições deletérias é aliar a alimentação adequada à atividade física. A redução da ingestão de calorias entre 30% - 50%  pode atrasar o aparecimento de doenças associadas ao envelhecimento, melhorar a resistência ao estresse e desacelerar o declínio funcional. Apesar da restrição calórica desencadear efeitos metabólicos em seres humanos, tais como a redução da taxa metabólica, melhorando a sensibilidade à insulina e reduzindo fatores de risco cardiovascular, a adesão ao tratamento a uma dieta onde se come menos nem sempre é possível.

Além da quantidade de calorias da dieta, a qualidade nutricional dos alimentos também deve ser avaliada para um envelhecimento saudável. Uma dieta à base de carboidratos refinados, açúcares e gorduras saturadas e pobre em antioxidantes naturais e fibras, presentes nas frutas e hortaliças, pode produzir inflamação, gerando aumento de radicais livres e desequilíbrio entre citocinas inflamatórias e anti-inflamatórias. Já uma alimentação rica em carboidratos integrais, fibras, ácidos graxos monoinsaturados e reduzida em ácidos graxos saturados, com diminuição na relação do consumo de ácidos graxos ômega 6: ômega 3, além da ingestão moderada de vinho tinto, como na dieta mediterrânea, está associada com uma redução dos marcadores de inflamação vascular e resistência à insulina.

Há aproximadamente 20 anos o consumo de vinho tinto foi descoberto como a explicação do chamado paradoxo francês. Apesar de terem as mesmas taxas de colesterol que os americanos, a taxa de mortalidade dos franceses em doenças cardiovasculares corresponde a 1/3 da mesma taxa observada nos Estados Unidos. O hábito francês de desfrutar o vinho às refeições pode contribuir para a redução da agregação plaquetária, aumentando o HDLc e prevenindo a obstrução das artérias. Isso pode ser explicado em parte pela presença de um composto fenólico presente no vinho, o resveratrol. Conhecido há muito tempo na terapêutica medicinal oriental, é utilizado pelos chineses e japoneses para o tratamento da aterosclerose, doenças inflamatórias e alérgicas. Suas características polifenólicas permitem explicar suas atividades antiagregação plaquetária, anti-oxidante e redutora de triglicerídeos.

Entre suas principais fontes alimentares, estão as uvas, onde o resveratrol está presente principalmente nas cascas (5-10 mg resveratrol/100g); o vinho tinto (1,5-3 mg resveratrol/L) e também algumas frutas vermelhas (3µg resveratrol/100g) e oleaginosas, como o amendoim (150µg resveratrol/100g) (Béliveou & Gringas., 1997).

Estudos em invertebrados, mamíferos e em cultura em tecidos sugerem que o resveratrol poderia, até certo ponto, imitar alguns efeitos benéficos de dieta com restrição de calorias, procedimento que induz ao prolongamento da vida. A esse respeito, sirtuinas SIRT1 são consideradas um importante alvo molecular. O resveratrol, um composto de polifenóis naturais, foi identificado como o mais potente ativador de SIRT1.Recentemente, no entanto, foi demonstrado que o resveratrol  pode não ativar a SIRT1 diretamente, mas sim exercer seus efeitos sobre SIRT1 através da ativação da AMPK, enzima celular ativada por exercicio físico. A prescrição de dieta e exercícios físicos para indivíduos portadores de DM2 está intimamente relacionada com a ativação da AMPK, a qual parece ser responsável por muitos efeitos benéficos no tratamento e na prevenção da doença . Essa enzima é um sensibilizador do balanço energético celular, sendo ativada pelo aumento da razão AMP/ATP. Uma vez ativada, a AMPK atua inibindo a síntese de ácidos graxos, inativa a glicerol-fosfato-acil transferase (GPAT) e a HMGCoA redutase, enzimas-chaves na síntese de triglicérides e de colesterol, respectivamente. SIRT1 desempenha um papel na regulação da saúde por mediar os efeitos em situações de stress metabólico, tais como obesidade induzida por dieta com elevado teor de gordura. SIRT1 é uma enzima que desacetila proteínas que contribuem para a regulação celular. Confere proteção contra o envelhecimento associado a doenças metabólicas, como a intolerância à glicose e câncer. À luz crescente do número de pacientes que sofrem de doenças metabólicas,  existe uma demanda por agentes seletivos e mais potentes ativadores da AMPK e compostos que ativem a SIRT1, pois podem oferecer  proteção contra o aparecimento de danos metabólicos e promover envelhecimento saudável. O artigo a seguir investigou a suplementação de resveratrol como mimético da restrição calórica.

Calorie Restriction-like Effects of 30 Days of Resveratrol Supplementation on Energy Metabolism and Metabolic Profile in Obese Humans  Timmers, S. et al, Cell Metabolism 14, 612–622, 2011

No estudo, participaram onze indivíduos obesos saudáveis do sexo masculino sem história familiar de diabetes ou de qualquer outro distúrbio endócrino. Os sujeitos participaram em dois ensaios experimentais : (1) placebo e (2) com suplementação de resveratrol (150 mg/dia) em estudo randomizado, cruzado e duplo-cego durante  4 semanas.

O uso de resveratrol reduziu significativamente a taxa metabólica durante o sono e de repouso.No músculo, o resveratrol ativou a AMPK, aumentou SIRT1 e os níveis de PGC-1a proteína,  aumentando a  atividade da citrato sintase do sem alteração no conteúdo mitocondrial  e melhorou a respiração mitocondrial do músculo sobre um substrato derivado de ácido graxo.

Além disso, o resveratrol elevou níveis elevados de lipídios intramiocelular  e diminuiu o teor lipídico intra-hepático, de glicose circulante, triglicerídeos, da alanina-aminotransferase  e de marcadores de inflamação. A pressão arterial sistólica caiu e o índice HOMA melhorou após a suplementação com resveratrol. No estado pós-prandial, a lipólise do tecido adiposo e ácidos graxos plasmáticos e glicerol diminuíram.

Como conclusão, os autores relataram que a suplementação por 30 dias de resveratrol induziu alterações metabólicas em humanos obesos saudáveis, o que parece refletir sobre os mesmos efeitos observados com a restrição calórica. Embora a dosagem de 150 mg de resveratrol por dia seja cerca de 133 a  266 vezes menor em comparação com as altas doses de 200-400 mg/ kg /dia utilizados para camundongos, níveis plasmáticos de resveratrol nessa intervenção humana (231 ng / ml , em média, durante os 30 dias) foram mais elevados do que aqueles obtidos em ratinhos (10-120 ng / ml). Estas diferenças podem ser devido às distintas taxas metabólicas de resveratrol de humanos e camundongos.

Apesar de ter sido bem tolerado na concentração testada, estudos futuros com maior amostragem deverão investigar os efeitos a longo prazo e de dose-resposta da suplementação de resveratrol, a fim de se apurar a dosagem segura, sem o aparecimento de efeitos adversos.

Leia mais:

Cool B, Zinker B, Chiou W, Kifle L, Cao N, Perham M, et al. Identification and characterization of a small molecule AMPK activator that treats key components of type 2 diabetes and the metabolic syndrome. Cell Metab. 2006;3:403-16.  

Esposito K, Pontillo A, Di Palo C, et al. Effect of weight loss and lifestyle changes on vascular inflammatory markers in obese women a randomized trial. JAMA. 2003;289(14):1799-1804.

Frankel, E N.; waterhouse, a. L.; kinsella, J. E. Inhibition of human LDL oxidation by resveratrol. Lancet v.341, p.1103-4, 1993.

Fryer LG, Parbu-Patel A, Carling D. The anti-diabetic drugs rosiglitazone and metformin stimulate AMP-activated protein kinase through distinct signaling pathways. J Biol Chem. 2002;277:25226-32.   

Kitabchi AE, Temprosa M, Knowler WC, Kahn SE, Fowler SE, Haffner SM, et al. The Diabetes Prevention Program Research Group. Role of insulin secretion and sensitivity in the evolution of type 2 diabetes in the diabetes prevention program: effects of lifestyle intervention and metformin. Diabetes. 2005;54:2404-14.

Informações do Autor

Nutricionista Funcional
Nutricionista do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes