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O Chá de Folhas de Insulina e o Diabetes


Dr. Rodrigo O. Moreira
Doutorado em Endocrinologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ);
Médico Colaborador do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE) do Rio de Janeiro

Essa foi difícil. A Insulina é uma das substâncias mais importantes dentro da Endocrinologia e, ainda hoje, tentamos entender todas as suas funções no corpo humano. A cada dia, são publicados artigos demonstrando novos mecanismos para explicar sua ação, novos efeitos em diferentes órgãos do corpo humano e estudos sobre seu uso para o tratamento de diversos tipos de diabetes. Como poderíamos então encontrar esta substância tão complexa em uma simples folha de planta? Mais do que isso, será que esta Folha de Insulina realmente apresenta a mesma insulina que encontramos no corpo humano?

Para podermos responder estas perguntas, preciso primeiro que todos entendam bem o que é a Insulina. A Insulina é o hormônio produzido pelo pâncreas humano que é responsável pela regulação dos níveis de glicose do corpo. De uma forma geral, ela ajuda a transportar a glicose do sangue para dentro das células do corpo, onde a glicose é utilizada como fonte de energia. Em situações onde existe um aumento de glicose no sangue (como o que acontece logo após comemos), existe também um aumento da insulina. Quando estamos em jejum, os níveis de insulina ficam mais baixos para prevenir a queda dos níveis de glicose no sangue. Dentre os inúmeros medicamentos utilizados para tratar o Diabetes Mellitus tipo 2, alguns estimulam a liberação de insulina pelo pâncreas, levando a uma queda dos níveis de glicose. Em pacientes com Diabetes tipo1, por outro lado, existe uma destruição das células que produzem insulina e o paciente precisa fazer uso da insulina injetável.

A descoberta da insulina como forma de tratamento do Diabetes é uma das grandes descobertas da medicina do Século 20. Ela foi descoberta em 1922 em Toronto (Canadá) por um grupo de pesquisadores. Nos últimos 70 anos, ela vem sendo constantemente aperfeiçoada, com melhora na sua qualidade, nos dispositivos de utilização e até em sua eficácia. Um dos grandes desafios, entretanto, é referente a forma de utilização da insulina. Embora amplamente pesquisado, a insulina ainda precisa ser utilizada sob a forma injetável, através de injeções subcutâneas. Ainda não foi possível uma insulina que pudesse ser ingerida por via oral (comprimido) e a insulina inalável ainda apresenta limitações, principalmente relacionadas a segurança. Se temos tanta dificuldade assim com a insulina, qual seria o efeito do Chá de Folhas de Insulina sobre os níveis de glicose? Será que estamos falando da mesma insulina?

O nome científico da Insulina Vegetal é Cissus sicyoides L, uma trepadeira também conhecida como anil trepador, uva brava ou cipó-pucá. O nome Insulina Vegetal veio exatamente devido ao seu grande uso pela população para tratamento do Diabetes. As folhas também são empregadas para o tratamento de reumatismo, abscessos e como ativadora da circulação sanguínea. Desta forma, esclarecemos um primeiro conceito importante: a Insulina Vegetal não tem qualquer relação com a Insulina produzida pelas células pancreáticas; esse nome foi dado pela própria população devido ao seu uso disseminado no tratamento do Diabetes.

Agora precisamos determinar se este conhecimento popular é respaldado por conhecimento científico. Isto é, precisamos ver se realmente existem estudos avaliando os efeitos desta planta nos níveis de glicose. E é interessante que, não só estes estudos existem como, em sua grande maioria, foram publicados por grupos de pesquisa do Brasil.

Para começarmos nossa discussão, vamos avaliar primeiro os estudos em modelos animais. O primeiro estudo que encontrei foi publicado em 2001 pelo pesquisador Flávio Beltrame da Universidade Estadual de Maringá. Neste estudo, a utilização de um extrato de Cissus sicyoides L não promoveu melhoras dos níveis de glicose de ratos com diabetes induzido por medicação. Pelo contrário, ele até mesmo levou a uma piora da glicemia. Repetindo as palavras dos autores “os dados, ao contrário do conhecimento popular, não revelaram propriedades antidiabéticas da Cissus sicyoides L”. Existem, entretanto, estudos em animais que apontam para o outro lado. O segundo estudo foi publicado em 2003 por um grupo de pesquisadores de Araraquara. Os autores demonstraram que, em ratos com diabetes, o extrato da “Insulina Vegetal” levou a uma redução dos níveis da glicose. Os mesmos resultados foram encontrados em um estudo de 2004. A pesquisadora Glauce Viana, do Ceará, demonstrou que a utilização de um extrato de Cissus sicyoides L por 07 dias em ratos com diabetes levou a uma diminuição em torno de 25% nos níveis de glicose e também nos níveis de triglicérides. Por outro lado, houve também um pequeno aumento nos níveis das enzimas hepáticas. Estes benefícios sobre os níveis de glicose também foram demonstrados por um grupo de pesquisadores do Japão. Estes efeitos deletérios sobre as enzimas hepáticas não puderam ser explicado pelos autores. Parece, então, que temos algumas evidências bem interessantes em modelos animais de que o Extrato da “Insulina Vegetal” pode realmente levar a uma redução dos níveis de glicose. Mas e quanto a estudos em humanos? Existem estes estudos? O que eles mostram?

Os estudos em humanos são bem mais escassos que os estudos em animais. O único estudo que encontrei foi realizado em 2008 por uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba. Como todos podem ver, isso tudo é muito recente. Os autores trataram 14 indivíduos com Intolerância a Glicose (o chamado “Pré-Diabetes”) e 12 indivíduos com diabetes com o Chá da “Insulina Vegetal” por um período de 07 dias. Os autores observaram que, em pacientes com pré-diabetes, houve uma pequena melhora da glicose 02 horas após a ingestão de glicose. Nos pacientes com Diabetes, nenhum efeito sobre a glicemia ou sobre os níveis de insulina foram observados. A principal conclusão dos autores é que são necessários mais estudos para que os reais efeitos da “Insulina Vegetal” no tratamento do diabetes possam ser realmente conhecidos. Vale a pena observar que estudo avaliou apenas pacientes por uma semana. Não consegui encontrar nenhum outro artigo além deste. Uma pena!!

Em resumo, ainda existe muito que aprender sobre a Cissus sicyoides L, o famoso “Chá de Insulina”. O que sabemos hoje é que, embora ele tenha este nome, não tem nada a ver com a insulina que o corpo produz ou que tomamos para o tratamento do diabetes. Parece que esta folha pode realmente ter efeitos benéficos sobre a glicose, mas ainda não conseguimos realmente demonstrar este efeito em humanos. Além disso, também não temos um possível mecanismo para estes efeitos e nem mesmo conhecimento de todos os efeitos colaterais. O que posso dizer aqui é que ele não deve ser utilizado para o tratamento do DM até que mais pesquisas sejam feitas, demonstrando tanto sua eficácia quanto seus possíveis efeitos colaterais.

Referências

  • Mori T, Nishikawa Y, Takata Y, Kashuichi N, Ishihara N: Effect of insulina leaf extraction on development of diabetes- Comparison between normal, streptozotocin-induced diabetic rats and hereditary diabetic mice. J Japanese Soc Nutr Food Sci 2001, 54:197-203.
  • Pepato MT, Baviera AM, Vendramini RC, Perez MPMS, Kettelhut IC, Brunetti IL: Cissus sicyoides (princess vine) in the long-term treatment of streptozotocin-diabetic rats. Biotechnol Appl Biochem 2003, 37:15-20.
  • Beltrame FL, Sartoretto JL, Bazotte RB, Cuman RN, Cortez DAG: Estudo fitoquímico e avaliação do potencial antidiabético do Cissus sicyoides L (Vitaceae). Quimica Nova 2001, 24:783-785.
  • Viana GS, Medeiros AC, Lacerda AM, Leal LK, Vale TG, Matos FJ. Hypoglycemic and anti-lipemic effects of the aqueous extract from Cissus sicyoides. BMC Pharmacol. 2004;8:4:9
  • Santos HB, Modesto-Filho, J e cols. Avaliação do efeito hipoglicemiante de Cissus sicyoides em estudos clínicos fase II. Revista Brasileira de Farmacognosia. 2008;18(1): 70-76

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