O Jambolão e o Diabetes


Dr. Rodrigo O. Moreira
Doutorado em Endocrinologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ);
Médico Colaborador do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE) do Rio de Janeiro

Há aproximadamente 2 meses recebi um e-mail de uma das leitoras de minha coluna me perguntando se eu conhecia alguma coisa sobre o Jambolão. Devido a uma série de afazeres, não a respondi naquela época e decidi aproveitar o final do carnaval para fazer uma busca mais detalhada sobre o assunto e tentar ver o que temos de evidência sobre este fruto.

O Jambolão é conhecido por uma grande variedade de nomes: jalão, kambol, jambú, azeitona-do-nordeste, ameixa roxa, murta, baga de freira, guapê, jambuí, azeitona-da-terra entre outros. Entretanto, seu nome científico é Syzygium cumini, uma planta pertencente à família Mirtaceae. Em relação ao seu fruto, eles são do tipo baga (extremamente parecidos com as azeitonas). Sua coloração, inicialmente branca, torna-se vermelha e posteriormente preta, quando maduras.

Sua semente fica envolvida por uma polpa carnosa e comestível, doce, mas adstringente, sendo agradável ao paladar. No Brasil, o fruto é geralmente consumido in natura, porém esta fruta pode ser processada na forma de compotas, licores, vinhos, vinagre, geléias, tortas, doces, entre outras.

As propriedades medicinais do Jambolão não são atribuídas apenas ao seu fruto. Existem relatos de inúmeras propriedades atribuídas também ao seu caule e as suas folhas. Dentre estas propriedades, destacam-se ações antiinflamatórias e carcinogênicas (caule) e antibacteriana, antiviral, antifúngica e antialérgica (folhas).

Logicamente, estas propriedades são extremamente controversas. Quanto aos efeitos sobre os níveis de glicose, encontramos relatos de que tanto o caule, o fruto e as folhas teriam ações sobre o metabolismo da glicose. Mais interessante ainda, parecem que alguns relatos destas ações têm mais de 100 anos, antes mesmo da descoberta da insulina. Mas o que realmente temos de evidência científica?

É interessante observar que vários artigos científicos sobre o Jambolão foram escritos e publicados por grupos brasileiros. Um dos principais grupos é o de Claudio Coimbra Teixeira, do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e seus artigos foram publicados em algumas importantes revistas científicas (ver Referências Bibliográficas).

Existe uma série de estudos, com resultados bem controversos, em modelos experimentais (ratos e camundongos) sobre os efeitos do Jambolão. Vou comentar alguns deles aqui. Além do grupo de Porto Alegre, um dos estudos foi publicado por um grupo da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais. Neste estudo, os autores demonstraram que, após 7 dias de tratamento de ratos com um extrato da  Syzygium cuminy, houve uma redução nos níveis de glicose dos animais.

Os autores especulam que este efeito não seria por um efeito direto sobre a glicose, mas um efeito sobre a diminuição no peso e na ingestão alimentar dos ratos. Outro estudo, publicado por um grupo de pesquisadores da Índia, também demonstrou um redução dos níveis da glicose de camundongos com algumas frações do Syzygium cuminy, mas também considerou este achado um efeito indireto da quantidade de fibras presente no preparado utilizado.

Mais recentemente, um estudo publicado por um grupo de pesquisadores do Centro de Ciências da Saúde da Universidade de Santa Maria demonstrou que o extrato do Jambolão foi capaz de reduzir a glicemia em um modelo animal e inclusive sugeriu um mecanismo para isso. Estes são apenas alguns dos estudos que realmente demonstram os efeitos benéficos do Jambolão sobre a glicose. Vale ressaltar, entretanto, que são sempre modelos animais. 

Existem apenas alguns estudos em humanos. O primeiro estudo, publicado em 2000, avaliou os efeitos do Chá de Folhas do Jambolão em indivíduos sadios e não conseguiu demonstrar qualquer efeito sobre níveis de glicose. Em um segundo estudo, os autores compararam três tipos diferentes de tratamento em paciente com diabetes tipo 2: placebo, glibenclamida (um conhecido medicamento para o tratamento do Diabetes) e o chá de folhas de Syzygium cumini.

Após 28 dias de tratamento, os autores demonstraram que, enquanto que a glibenclamida promoveu uma redução significativa sobre os níveis de glicose, o Chá de folhas de Jambolão se comportou exatamente como o placebo; isto é, sem qualquer efeito clínico significativo sobre os níveis de glicose.

Finalmente, um terceiro estudo, agora com 27 pacientes, também não demonstrou qualquer efeito do Jambolão sobre a glicose de pacientes diabéticos. Estes achados demonstram que, embora tenhamos uma série de efeitos benéficos demonstrados em modelos animais, os resultados em humanos não parecem tão promissores.

Se os efeitos do Jambolão sobre a glicose são controversos, os mecanismos envolvidos são mais ainda. Citei algumas das teorias nos parágrafos acima, mas, quando revemos a literatura, diversos mecanismos são propostos por diferentes autores, sem nenhum consenso específico. Os possíveis mecanismos de ação já foram propostos: inibição da alimentação e perda de peso, inibição da absorção de glicose, inibição de uma enzima responsável pelo metabolismo da glicose, inibição da enzima amilase, etc...

Em resumo, os efeitos do Jambolão no tratamento do Diabetes ainda não foram completamente elucidados. Embora existam relatos (alguns deles bem antigos) da eficácia desta planta (do caule ao fruto), além de diversos resultados animadores em estudos com modelos animais, os resultados em humanos são desapontadores.

Além disso, os mecanismos de ação permanecem indeterminados. Como outros produtos “Na boca do Povo”, o Jambolão não deve ser utilizado de maneira isolada no tratamento do Diabetes. É importante ressaltar que os estudos em animais não permitem que os efeitos colaterais da medicação sejam estudados (embora os estudos em humanos sugiram que existam alguns efeitos gastrointestinais) e que estes efeitos precisam ser bem determinados em humanos para que sejam pesados os riscos e os benefícios da medicação.

Vamos esperar que nos próximos anos sejam publicados novos estudos, principalmente por todos os pesquisadores brasileiros que lidam com esta linha de pesquisa, para que o efeito do Jambolão sobre a glicose possa ser completamente elucidado.

Referências Bibliográficas

Vizzoto M & Fetter MR. Jambolão: Um poderoso Oxidante. Download em 09 de Fevereiro de 2011 de:

Teixeira CC e cols. Absence of antihyperglycemic effect of jambolan in experimental and clinical models. J Ethnopharmacol. 2000;71(1-2):343-7.

Oliveira AC e cols. Effect of the extracts and fractions of Baccharis trimera and Syzygium cumini on glycaemia of diabetic and non-diabetic mice.  J Ethnopharmacol. 2005;102(3):465-9.

Teixeira CC e cols. The effect of Syzygium cumini (L.) skeels on post-prandial blood glucose levels in non-diabetic rats and rats with streptozotocin-induced diabetes mellitus. J Ethnopharmacol. 1997;56(3):209-13

Pandey M e cols. Hypoglycaemic effect of defatted seeds and water soluble fibre from the seeds of Syzygium cumini (Linn.) skeels in alloxan diabetic rats. Indian J Exp Biol. 2002;40(10):1178-82.

Teixeira CC e cols. The efficacy of folk medicines in the management of type 2 diabetes mellitus: results of a randomized controlled trial of Syzygium cumini (L.) Skeels. J Clin Pharm Ther. 2006;31(1):1-5

Bopp A e cols. Syzygium cumini inhibits adenosine deaminase activity and reduces glucose levels in hyperglycemic patients. Fundam Clin Pharmacol. 2009;23(4):501-7.

Helmstädter A. Syzygium cumini (L.) SKEELS (Myrtaceae) against diabetes--125 years of research. Pharmazie. 2008;63(2):91-101.

Teixeira CC e cols. The efficacy of herbal medicines in clinical models: the case of jambolan. J Ethnopharmacol. 2006;108(1):16-9.

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