Peptídeo-C, de inútil a Pop Star


Dr. Mark Barone
Doutor em Fisiologia Humana (ICB/USP)
Especialista em Educação em Diabetes (ADJ-IDF-SBD, UNIP e IDC)
Autor dos livros “Tenho diabetes tipo 1, e agora?” e “Diabetes: conheça mais e viva melhor”
e do blog www.tenhodiabetestipo1eagora.blogspot.com

Nas últimas décadas, evidências têm se acumulado de que o peptídeo-C, diferente do que se pensava, tem sim efeito fisiológico. No presente artigo serão discutidos os dados compilados em uma recém-publicada revisão sobre o tema.1 Como não poderia deixar de ser, os autores da revisão começam o texto com informações sobre a descoberta dessa molécula, em 1967, e dão prosseguimento revelando resultados de estudos que não identificaram inicialmente que ela tinha ação biológica. Sabendo-se, então, que o peptídeo-C faz parte da molécula de pró-insulina, que, ao ser clivada, dá origem a esse peptídeo e à insulina, ambos armazenados e secretados juntos nas células-beta pancreáticas, entendeu-se que seria apenas um resíduo resultante da formação da insulina.

Com isso, a dosagem de peptídeo-C consagrou-se como forma indireta para detectar e quantificar a produção de insulina. Conforme observado em pesquisa, no próprio site da SBD pelo termo “peptídeo-C“, a maioria dos autores citam essa molécula como marcadora de sucesso ou insucesso em tratamentos que visam reestabelecer a secreção de insulina.2 Além dos estudos de reposição, pesquisas com indivíduos com diabetes de longa duração (como os medalhistas da Joslin, com mais de 50 anos de diabetes tipo 1), muitos dos quais ainda com secreção detectável de peptídeo-C, motivaram os estudos sobre o tema.

Na revisão, os autores apresentam os caminhos pelos quais esse peptídeo elícita suas ações biológicas, resultando em consequências positivas, como coadjuvante no controle do diabetes para a prevenção de complicações. Destacam-se seus papeis como anti-inflamatório, mediando a inibição da NF-κβ, além da expressão e concentração de uma série de citocinas, quimiocinas e peptídeos pró-inflamatórios; antioxidante, reduzindo a formação de espécies reativas de oxigênio; anti-apoptótico, inibindo a caspase 3 e estimulando a proteína Bcl-2; na melhoria do fluxo sanguíneo em diferentes tecidos, como resultado da ativação e indução da expressão do eNOS; e na correção da bomba Na+/K+ também em diferentes tecidos. Algumas das consequências disso são: efeitos citoprotetores sobre células vasculares e neuroprotetores, interferência na formação de lesão aterosclerótica, prevenção e reversão parcial do déficit na condução nervosa, melhora da sensibilidade periférica e da disfunção erétil, redução da hiperfiltração glomerular e da excreção de albumina, prevenção de vazamento na retina de animais com diabetes induzido, entre outras.

Ao mesmo tempo, é bastante evidente que se um dia o peptídeo-C passar a fazer parte do tratamento do diabetes, especialmente do tipo 1, será de forma complementar ao tratamento com insulina, alimentação saudável e exercício físico. Portanto, as consequências reconhecidamente positivas do tratamento atual não poderão ser substituídas, mas talvez ampliadas. Além disso, os autores deixam claro que os efeitos do peptídeo-C não se intensificam com aumento progressivo da dose, sendo máximos ao se atingir a concentração fisiológica, quando acontece a saturação dos receptores. Sugerem, ainda, mais estudos para se entender os mecanismos e efeitos sobre diferentes tecidos e, especialmente, os resultados nos casos de complicações em estágios mais avançados.

  1. Wahren, John; Larsson, Charlotte. C-peptide: new findings and therapeutic possibilities. Diabetes Research and Clinical Practice 2015;107:309-19.

  2. Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Busca sobre “peptídeo-C”. Disponível em: www.diabetes.org.br/component/search/?searchword=pept%C3%ADdeo-C&ordering=newest&searchphrase=all&limit=20 Acesso em: 22 Maio 2015.

 

 

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