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Brasil Volta a Produzir Cristais de Insulina

 

Pablo de Moraes
Redação Online da SBD

Com o anúncio feito recentemente pelo Governo Federal sobre a produção de cristais de insulina, o Brasil voltará a ter uma empresa nacional privada voltada para a fabricação da base do medicamento para tratamento do diabetes. As farmacêuticas Biomm e União Química, em parceria, já anunciaram que a produção deve começar em três anos.

A Biomm, empresa herdeira de patentes da Biobrás para a fabricação do princípio ativo, vai transferir à União Química a tecnologia de produção dos cristais de insulina. O acordo estabelece o pagamento de Royalties e só aconteceu após o vencimento do prazo de vedação de cinco anos, que impedia os ex-controladores da Biobrás de atuarem no mercado, após a venda para a Novo Nordisk.

Para o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, a medida vai diminuir os gastos do diabético que usa insulina, devido ao barateamento do produto. “Voltarmos a produzir cristais de insulina é importante porque são poucos os países que detém essa tecnologia de ponta de engenharia genética”, comemora.

A União Química espera produzir 800kg do produto, podendo chegar a 1,5 tonelada por ano. Segundo a empresa, a quantidade produzida nesse primeiro momento deve ser suficiente para abastecer o mercado interno, fornecendo não só para o governo, mas também para o setor privado.

Biobrás x Biomm

A Biobrás foi fundada em 1971 por Marcos Luiz dos Mares Guia, irmão do ex-ministro Walfrido dos Mares Guia, hoje à frente da Biomm. Marcos se formou em Medicina pela UFMG, mas nunca exerceu a profissão de médico por estar mais interessado em bioquímica. Em meados da década de 1960, Mares Guia fez doutorado nos Estados Unidos e, ao retornar ao Brasil, montou um laboratório na Escola de Medicina, passando a se dedicar na pesquisa da produção de enzimas.

Em 1971, foi estruturada a empresa piloto, mas a construção, financiada pela Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), só começou três anos depois. Em 1975, a Biobrás foi instalada em Montes Claros, no Norte de Minas, e, no ano seguinte, já produzia enzimas em escala industrial.

O viés empreendedor do projeto era dado por Guilherme Emerich, hoje também diretor da Biomm, e por Walfrido. Ambos investiram em alternativas para redução de custos e transformaram a empresa em multinacional. Fizeram uma associação com uma companhia norte-americana, a Eli Lilly que, até então, abastecia o mercado nacional de insulina, e entraram no mercado.

A Biobrás entrou de forma agressiva no mercado internacional, mas enfrentou uma crise inesperada: a falta de matéria-prima (pâncreas). Como saída, a Biobrás recorreu à pesquisa e produção de insulina sintética. Da coleta de pâncreas, a empresa passou a extrair a glândula e, mais tarde, em 1990, começou a produzir insulina sintética, viabilizada, entre outros fatores, por uma parceria firmada com a Universidade de Brasília.

Em 2000, a Biobrás recebeu a primeira patente internacional de insulina, uma das quatro existentes no mundo. Mas houve uma cisão nos ativos da empresa. As patentes e os cientistas ficaram com a Biomm e a parte estrutural foi vendida para a Novo Nordisk.

Insulina Sintética

A insulina sintética começou a ser produzida no Brasil após a parceria entre a Biobrás e a Universidade de Brasília. Os pesquisadores modificaram geneticamente a bactéria Escherichia coli, comum na flora intestinal humana, para torná-la capaz de sintetizar o hormônio.

O processo permite fabricar insulina em apenas 30 dias, um terço do tempo necessário para obtê-la pelo método tradicional. Somente quatro empresas no mundo, incluindo a Biobrás, têm tecnologia de produção industrial de insulina recombinante. Patenteada em 2000 nos Estados Unidos, a técnica consiste em introduzir na bactéria o gene da pró-insulina humana, precursor da insulina ativa, de forma que esta passe a produzir o hormônio em grandes quantidades.

A etapa seguinte do processo é a produção da insulina em escala industrial, em que o precursor é fermentado, processado e purificado para a obtenção da insulina recombinante ativa. Ao final dessas etapas, o produto está adequado para o consumo e sem alterações sensíveis para o usuário.

Dúvidas

Depois do anúncio da criação da fábrica, muitas dúvidas estão na cabeça dos pacientes: A construção da fábrica terá impacto no acesso à medicação? Vai garantir a redução do preço do medicamento? O Brasil poderá atender melhor o paciente? Que tipo de insulina será produzida? Humanizada? Análoga?

Quem pode responder?
 
Fontes
  • Empresas Tecnológicas. Estudos de casos: Bematech, Biobrás e Optoeletrônica. (Gesner Oliveira, Frederico Araújo Turolla, Marco Poplawski Ribeiro, Sergio Goldbaum).
  • Agência de Inovação da Unicamp

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