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Biografia

Dr. Leão Zagury

Nasceu em Belém no Pará, mas passou a infância em Macapá, na época ainda capital do Território Federal do Amapá.

O primeiro contato com a Medicina se deu através de sua avó paterna, que era diabética e o ensinou a pesquisar glicose na sua própria urina pelo método do reagente de Benedict.A partir daí a cor azul, que significava ausência de glicose na urina, sempre o fascinou. A grande inspiração para a escolha da profissão se deveu ao pai, seu modelo na vida e que desejava ter sido médico. “ Minha motivação é humanística.Costumo brincar dizendo que medicina é fácil, basta ler nos livros. As pessoas é que são interessantes.Eu gosto das pessoas”,afirma.

Em busca de melhores perspectivas, os pais sacrificaram o convívio com o filho, que, ainda muito jovem,transferiu-se para o Rio de Janeiro onde passou a morar com parentes para continuar os estudos.Aí apaixonou-se pelos livros que se tornaram “companheiros inseparáveis”. Enfiava-se em bibliotecas e lia tudo o que fosse possível.Voltava anualmente nas férias a Macapá onde fundou e foi correspondente de um clube de leitura e de colecionadores de selos.A cidade não tinha livrarias e tornou-se o grande fornecedor de livros para o clube.

Entrou para a Faculdade Nacional de Medicina em 1962. Feliz e entusiasmado dedicou-se a inúmeras atividades, desde o inicio do curso.Fez monitoria de Bioquímica e Histologia, onde conheceu o Prof. Bruno Alípio Lobo, que anos depois já em seu leito de morte lhe ofereceria um livro de sua autoria sobre a antiga Faculdade.

Uma coincidência marcou o inicio do seu trabalho nas enfermarias da Santa Casa da Misericórdia do RJ,onde “ começou a aprender a ser médico”, no Serviço de Clinica Médica do Prof. Clementino Fraga Filho, a primeira paciente sob sua responsabilidade era diabética. Conversas com ela abriram-lhe para o jovem as portas para o mundo de dificuldades pelas quais passa uma pessoa com diabetes.

Adulto jovem em 1968, simpatizante dos movimentos que faziam a “opção pelos pobres”, cedo entendeu que “não seria possível modificar o mundo” mas que “não permitiria que o mundo o modificasse” e já que não lhe seria possível tornar melhor a vida de todos, decidiu optar por um segmento crescente da população:os diabéticos brasileiros.Em decisão inédita para a época decidiu dedicar-se ao tratamento dos diabéticos.

Integrou-se ao ambulatório do Instituto de Endocrinologia e Nutrição dos Professores João Gabriel e Isaac Waisman que, de forma pioneira, atendia os pacientes com Diabetes. Associou-se também ao grupo do Prof. Danilo Perestrello, introdutor da medicina psicossomática no Brasil e “audaciosamente” convocou os colegas da Santa Casa para propor nova forma de atendimento aos diabéticos.A reunião foi um sucesso e sua própria proposta de integrar aspectos emocionais no atendimento dos diabéticos tornou-se o norte de sua conduta.

É dessa época, a paixão pelo médico que mais influenciou sua carreira :Maimônides, que viveu na época da Inquisição. Maimônides deixou como legado ao filho, também médico, não só bens materiais, mas principalmente idéias e conselhos médicos, entre os quais “ quando receberes um paciente dedique-lhe 60 minutos;durante 50 ausculte-lhe a alma e em 10, o corpo” e “ aconselhe seus pacientes a comer apenas o suficiente para que suas almas não se desprendam de seus corpos”,o que sem dúvida o remetia à moderna endocrinologia.
Em 1969 partiu com o Projeto Rondon para o Norte do país, na companhia de companheiros que mais tarde viriam a se destacar na medicina brasileira, atendendo às populações ribeirinhas do “baixo Amazonas”,onde elaborou interessante estudo avaliativo das características nutricionais dos habitantes locais. Na viagem atendeu a um caso de cetoacidose diabética na cidade de Amataurá, e, com esforço e vigília permanente conseguiu recuperar o ribeirinho com quem por muitos anos manteve contato por carta e de quem se tornou grande amigo.Na chegada, de volta ao Rio, no antigo aeroporto do Galeão conheceu aquela que seria, “a luz dos seus olhos” e “seu guia na vida” com quem se casou e teve 2 filhos. Nunca mais se separaram, motivo de orgulho para o biografado.

O levantamento nutricional que realizou interessou o grande educador brasileiro Gilson Amado que o entrevistou no programa que mantinha em uma emissora carioca, embrião da atual TV Educativa.

Reintegrado à condição de interno-residente nas enfermarias da Santa Casa concluiu seu curso e lá permaneceu como residente, por sua própria conta, já que na época não havia programas de residência no Rio de Janeiro.Na ocasião enfrentou outro grande desafio: tratar um coma diabético à noite sem dispor sequer de exames laboratoriais utilizando-se apenas das glicosúrias realizava, utilizando o método de Benedict ,com êxito total.

Amante da paz foi sua a sugestão de homenagear o Dr.Martin Luther King,patrono de sua turma na formatura em 1968.Época difícil e conturbada, o discurso do orador foi proibido pelos órgãos de segurança, na cerimônia de colação de grau..

Apresentou alguns trabalhos em Congressos, sobre “Diálise Peritonial e Lupus Eritematoso Sistêmico” orientado pelo amigo e professor José Ângelo Papy incluindo sempre aspectos emocionais ligados a doenças orgânicas,

Recebeu convites para trabalhar em várias faculdades de medicina. Um deles partiu do fundador da SBD e da SBEM Prof. Procópio do Valle que o convidou para liderar o Ambulatório de Diabetes na recém-fundada Faculdade Gama Filho.Alegando não ter conhecimentos suficientes declinou do convite ao que o prof. Procópio retrucou:“Mais importante que o conhecimento é o homem e a ética”, o convite foi então aceito.

Anos mais tarde, ao defender sua tese de mestrado, convidou-o a fazer parte da banca com a seguinte frase: “Um dia o senhor acreditou no homem, agora julgue sua competência”.
Em 1971 em plena “lua de mel” receber um comunicado de que o prof. Francisco Arduino desejava que viesse trabalhar no Serviço de Diabetes do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia, recém-fundado.Para tanto teria que submeter-se a concurso público cujas inscrições terminavam em poucos dias a viagem foi interrompida . Tornou-se médico do IEDE onde permaneceu por 32 anos.

O IEDE constituiu capítulo fundamental em sua vida.Foi ali que iniciou a carreira de professor tendo se especializado em Diabetologia e Endocrinologia pela PUC do RJ e em Nutrologia pela Escola Central de Nutrição do Rio de Janeiro.
Antevendo a importância da Educação e do trabalho multiprofissional no tratamento do Diabetes, iniciou o que seria sua grande paixão e contribuição.Em realização pioneira organizou juntamente com uma enfermeira e uma educadora o primeiro curso regular para pacientes ambulatoriais.A direção do hospital só permitiu que as aulas fossem ministradas fora do horário de trabalho, já que à época, a educação de diabéticos não era considerada parte integrante do tratamento.

O resultado desse trabalho foi inscrito como tema livre no Congresso de Endocrinologia de BH em 1972.Entendendo a importância do assunto a organização do congresso através dos Drs.José Diogo Martins e Antonio Rodrigues convidou-o a apresentá-lo em um simpósio, para que o assunto fosse melhor discutido.A apresentação provocou grande entusiasmo mas também muita celeuma, tendo ouvido de um eminente médico presente a afirmativa: “ O colega está criando caso, ao médico cabe receitar e ao paciente obedecer”.A observação serviu apenas para que percebesse o quanto a medicina estava distante da concepção da importância da educação como elemento do tratamento do Diabetes, aumentando o desejo de seguir em frente.Entendia que sem transferir conhecimentos aos pacientes, nunca se conseguiria a necessária adesão.Jamais se cansou de difundir essa necessidade.

Mestre em Endocrinologia pela PUC do RJ em 1981,seu orientador foi o Prof. Francisco Arduino no trabalho “Contribuição ao estudo da secreção de insulina”.

Foi Chefe de Enfermaria de Clinica Médica do Hospital Gaffree e Guinle, Coordenador de alunos da Faculdade de Medicina UNIRIO, Professor Assistente de Clinica Médica da Universidade Gama Filho, responsável pelo Centro de Diabetes e pelo Setor de Nutrição nesta mesma Universidade.Como professor de Pós-graduação em Endocrinologia da PUC-RJ ascendeu de Auxiliar de Ensino até o atual nível de Prof.Associado. Como médico do IEDE foi Presidente do Centro de Estudos, Chefe de Ambulatório e de Enfermarias,Chefe do Serviço de Diabetes.Entre suas realizações à frente do Serviço de Diabetes estão o Simpósio Anual comemorativo do Dia do Diabético (que chamou-“Diabéticos,gente mais doce”), a criação da Unidades do Pé Diabético, e da Unidade de Educação,uma Coordenadoria Científica, além da reformulação do atendimento ambulatorial.Em sua gestão o IEDE foi o serviço brasileiro que mais trabalhos apresentou no 17th International Diabetes Federation Congresso - realizado na cidade do México em 2000.

A titulo de incentivo à educação e atualização permanentes de sua equipe,costumava expor pensamentos desafiadores como “É preciso aprender a valorizar o paciente e a tratá-lo corretamente.As decisões médicas precisam não só ser tecnicamente corretas, mas também éticas”.Foi por várias gestões membro da Diretoria da Associação Carioca de Diabéticos.Como secretário, enfrentou uma séria crise na distribuição de insulina no país.Além de aconselhar aos diabéticos pelo radio a como “economizar insulina” até o restabelecimento do fornecimento, permaneceu de plantão por vários dias na sede da associação à disposição para auxiliá-los e orientá-los nas dificuldades.

Participou da organização do I Encontro de Educação em Diabetes e das primeiras Colônias de Férias para Crianças Diabéticas no Brasil.
Implantou na Secretaria Municipal de Saúde do Município do RJ, juntamente com o Prof. Adolfo Milech o “Programa de Prevenção e Controle do Diabetes”.

Lançou o livro “Diabetes sem Medo” em 1984 no 5º Congresso Brasileiro de Diabetes, obra pioneira destinada a pacientes diabéticos e familiares.Foi editor do Livro “Orientações básicas para o Diabético” publicado pelo Ministério da Saúde e distribuído gratuitamente a cerca de 60.000 pessoas e do “Manual de Educação em Diabetes do IEDE. Co-Autor do “Manual de Tratamento do Diabetes Mellitus” publicado pela SBD, “Educação em Diabetes” publicado pela UFES e “Endocrinologia do Envelhecimento” Adm.Cultural Ltda.

Entre os títulos com que foi agraciado pela sua atuação junto aos diabéticos e produção científica, conta-se o de Miembro Honorário Extranjero ( Sociedade Argentina de Diabetes) e Membro Honorário da Câmara Técnica de Endocrinologia ( CRM RJ). Medalha Pedro Ernesto (Câmara Municipal do RJ), Votos de Congratulações, de Louvor e Menção Honrosa ( Assembléia Legislativa do Estado da Guanabara), Diploma de Reconhecimento ( Rotary Club do RJ) Honra ao mérito da Associação (Lions Clubes Internacional).Cidadão do Estado do RJ (Assembléia Legislativa do RJ) tornando-se cidadão do Estado que já adotara de coração.

Participou ativamente de todos os congressos de Diabetes realizados no pais até hoje, na maior parte das vezes, como membro da Comissão Organizadora ou da Comissão Científica. Proferiu dezenas de conferências em Congressos, sempre abordando os diferentes aspectos do Diabetes e suas complicações.Membro de bancas examinadoras de teses de Mestrado, orientador de dissertações de mestrado.Membro de Conselhos de Jornais e revistas científicas.Primeiro médico a receber o prêmio Francisco Arduino durante o XXII Congresso Brasileiro de Diabetes em reconhecimento a relevantes e longos anos de trabalho em prol do diabético e como pioneiro no desenvolvimento de Programas de Educação para diabéticos.

Seu mais recente trabalho em Educação de Diabéticos foi classificado em 2001 entre os 5 primeiros no Prêmio Aventis de Educacíon em Diabetes da ALAD com o projeto “Educação é Saúde” concorrendo com 52 projetos provenientes de 14 países da América Latina.
Publicou inúmeros trabalhos de pesquisa em diferentes revistas nacionais e estrangeiras.

Participou como investigador principal em vários trials internacionais e apresentou 85 trabalhos em congressos nacionais e internacionais.

Membro das seguintes sociedades:Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia da qual já foi Vice-Presidente nacional,da American Diabetes Association,da ABESO ,da Sociedade de Medicina e Cirurgia como membro do Conselho Superior e um dos fundadores e atual Presidente (mandato de 2004/2005) da Sociedade Brasileira de Diabetes tendo participado de 16 diretorias em diferentes cargos. Membro do Conselho Científico da Revista Diabetes e Metabolismo, do Corpo Editorial da publicação Hadassah, do Conselho consultivo da Federação Nacional das Associações de Diabéticos. Recebeu os seguintes prêmios de cunho cultural: Primeiro lugar em Entalhe em Madeira com o trabalho “Linchamento”, Menção Honrosa pelo entalhe em madeira” Desalento” na Exposição de Artes no Salão do Médico em 1980.

Gosta de contar que já tratou inúmeras hipoglicemias, em circunstâncias as mais diversas: casamentos, batizados, porta de hospitais etc, mas que sem dúvida, a mais incrível e inusitada, foi a de um beija flor!

Certa vez ,ao descer ao play ground de edifício onde mora, encontrou o filho de 8 anos e outras crianças observando um beija-flor, preso no salão de festas, com dificuldades de voar.Após alguns minutos caiu no chão.Chamado pelas crianças aflitas examinou as asas e o corpo do pequeno “paciente” não identificando qualquer lesão. Preocupado, levou a linda avezinha para casa, solicitando ajuda à esposa, que preparou um copo de água com açúcar. Na varanda, que defronta um final de Mata Atlântica sobrevivente em Copacabana, o bico da ave foi introduzido no liquido e aos poucos, os movimentos começaram a voltar ao corpo inerte. Minutos depois refeito levantou vôo, dirigindo-se restabelecido a mata, no que foi imediatamente acompanhado por outros dois colibris que pareciam a tudo ter assistido.

O beija-flor é o símbolo da Federação Internacional de Diabetes, por ter o mais perfeito metabolismo entre os seres vivos, utilizando-se apenas de glicose para a manutenção da perfeita homeostase...

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