Cuidados com os pés: o que o enfermeiro deve orientar e a pessoa com diabetes precisa saber?

Enfª Drª Sherida Karanini Paz de Oliveira - Professora Adjunta do Curso de Enfermagem e do Programa de Pós-Graduação em Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Doutora e Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal do Ceará. Enfermeira Estomaterapeuta pela UECE. Educadora em Diabetes pela SBD/IDF/ADJ. Líder do Grupo de Estudos Segurança, Tecnologia e Cuidados Clínicos (SETECC) da UECE. Atua principalmente nas áreas de promoção da saúde a pessoas com diabetes, tecnologias de saúde e segurança do paciente.

O pé diabético configura-se como uma das complicações mais frequentes da Diabetes Mellitus (DM) e suas consequências podem impactar, sobremaneira, a vida da pessoa. O autocuidado com os pés aliado ao exame periódico dos pés favorece a identificação precoce de alterações e o tratamento oportuno, se necessário, de modo a prevenir complicações do pé diabético.

A identificação precoce dos fatores combinados ao desenvolvimento de lesões nos membros inferiores de pessoas com diabetes favorece a atuação antecipada e planejada dos profissionais de saúde, sobretudo na implementação de medidas para o alongamento do aparecimento dessas úlceras. O controle metabólico, a educação em diabetes, a avaliação frequente e eficaz dos pés, a higiene e hidratação dos pés são exemplos dessas medidas (POLICARPO et al., 2014).

Na consulta de enfermagem (CE), deverá ser efetuada inspeção do pé e avaliação da pele e sensibilidade por meio de testes simples e de baixo custo. É necessário, também, estimular comportamentos de autocuidado e promover educação em diabetes, especialmente, em relação aos cuidados simples com os pés, como: inspeção dos calçados, corte adequado das unhas, higiene e secagem dos dedos, hidratação, dentre outras.

A prática do autocuidado pelas pessoas com diabetes é aspecto fundamental das ações de prevenção do pé diabético. Ao avaliar o autocuidado, é mister atentar para o conhecimento do paciente sobre sua condição de saúde; o conhecimento, a habilidade e a atitude acerca dos cuidados com os pés; o suporte social e familiar no cuidado com os pés. É papel do enfermeiro orientar, sensibilizar e estimular as pessoas quanto às mudanças de comportamentos necessárias com vistas à prática do autocuidado.

São consenso na literatura como comportamentos de autocuidado, a limpeza diária dos pés e secagem adequada, especialmente entre os dedos; a utilização de hidrantes para evitar o ressecamento da pele; uso de calcados adequados, confortáveis e firmes nos pés; corte de unhas de forma reta; avaliação diária dos pés; verificar temperatura da água do banho e evitar escalda pés; como medidas de prevenção de lesões e complicações do pé diabético (ANDRADE et al., 2010, PINILLA et al., 2011, CUBAS et al., 2013, OLIVEIRA et al., 2016, CARLESSO; GONÇALVES; MORESCHI JÚNIOR, 2017).

A inspeção diária dos pés deve ser estimulada e orientada uma vez que esse exame diário identifica precocemente lesões e alterações despercebidas devido à neuropatia. Se o indivíduo com DM não realiza essa ação, muitas vezes só nota um problema, quando algo grave já está instalado, o que pode levar a complicações mais sérias, como a amputação.

O corte das unhas de forma inadequada (arredondada) favorece o surgimento de lesões nos cantos dos dedos, geradas por encravamento ou machucados devido ao uso de objeto cortante. Essas alterações associadas à infecção e ao retardo na cicatrização poderá ter como consequência lesões mais sérias e a amputação.

O hábito de andar descalço e utilizar meias com sapatos fechados constitui-se um fator de risco para o desenvolvimento de ulceração, logo, merece ser avaliado e orientado a fim de evitar alterações e lesões na pele.

Segundo o International Working Group on the Diabetic Foot - IWGDF (2015), os sapatos protegem o pé dos traumas, das temperaturas excessivas e de contaminação. Os pacientes com sensibilidade protetora preservada podem escolher seus próprios calçados disponíveis no comércio. Já os pacientes com neuropatia e/ou isquemia exigem maiores cuidados.

O Ministério da Saúde (2013) aponta que o calçado ideal para pessoas com diabetes opta pelo conforto e limitação das áreas de pressão. Indica-se o sapato de cano alto, couro macio que admita a transpiração do pé, alargamento da lateral para acomodar as deformidades e caso tenha salto, aconselha-se estilo Anabela.

A seleção de calçados para pessoas com DM é considerada uma prescrição. O Departamento de Pé Diabético da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) elaborou um conjunto de normas técnicas, segundo conceitos mínimos para a emissão do Selo SBD de Calçado Adequado. Esse selo é um progresso para disseminar entre os profissionais da saúde e os usuários, critérios técnicos para indicar calçados adequados, com base na atividade e no risco de ulceração (SBD, 2015).

Os critérios globais mínimos, dentre outros, são: peso menor que 400 g (máximo: 480 g); parte anterior (frente) ampla, com largura e altura suficientes para acomodar os dedos; solado não flexível com redução de impacto e antiderrapante e espessura mínima de 20 mm; ausência de costuras e/ou dobras internas; colarinho almofadado; lingueta prolongada; palmilha removível; abertura e fechamento com calce regulável; numeração de um ponto ou meio ponto e ao menos duas larguras; salto 2 cm; rigidez no médio pé e fixação no calcanhar (SBD, 2015).

É necessária, ainda, a inspeção do calçado internamente antes de calçá-lo, já que qualquer objeto, ainda que pequeno, presente no interior do sapato pode não ser sentido pela pessoa com DM devido a neuropatia e causar lesão devido à perda da sensibilidade.

Diversos estudos evidenciam o pouco conhecimento de pessoas com diabetes acerca dos cuidados com os pés e as falhas nas orientações oferecidas pela equipe de saúde, especialmente pelos enfermeiros (ANDRADE et al., 2010, POLICARPO et al., 2014, CUBAS et al., 2013, OLIVEIRA et al., 2016). Em contrapartida, também existe uma disposição do indivíduo para o autocuidado (POLICARPO et al., 2014).

Assim, reforça-se a necessidade dos serviços e equipes de saúde estabelecerem e otimizarem estratégias de educação em diabetes com vistas a reforçarem as orientações e sensibilizarem as pessoas com diabetes para um maior empoderamento em relação ao seu autocuidado. Além de maior investimento em estratégias de educação em saúde, atendimentos preventivos e programados, uma vez que a prevenção tem menor custo para o governo, para a sociedade e, especialmente, para o individuo.

É importante que a pessoa com diabetes conheça e entenda os riscos do pé diabético e que ele pode evitá-lo realizando o autocuidado. E isso requer do enfermeiro, além do repasse de informações, um treinamento contínuo para o desenvolvimento de habilidades e atitudes positivas relacionadas ao tratamento.

Diabetes é uma condição crônica que requer uma rotina de autocuidado por toda a vida, além de acompanhamento, cuidados e orientações sistematizadas e recorrentes, independente do tempo de diagnóstico e outros fatores. A educação em diabetes é a principal ferramenta para a garantia do autocuidado da pessoa com DM, tendo o enfermeiro um importante papel na promoção da saúde desses indivíduos, visto que é tido como genuíno educador em saúde.


REFERÊNCIAS

ANDRADE, N.H.S.; MENDES, K.D. S.; FARIA, E.T.G.; MARTINS, T.A.; SANTOS, M.A.; TEIXEIRA, C.R.S.; ZANETTI, M.A. Pacientes com diabetes mellitus: cuidados e prevenção do pé diabético em atenção primária à saúde. Rev. enferm. UERJ, v. 18, n.4, p.: 616-621, 2010.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica.
Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: diabetes mellitus / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – Brasília: Ministério da Saúde, 2013.

CARLESSO, G.P.; GONÇALVES, M.H.B.; MORESCHI JÚNIOR, D. Avaliação do conhecimento de pacientes diabéticos sobre medidas preventivas do pé diabético em Maringá (PR). J Vasc Bras., v.16, n.2, p.: 113-118.

CUBAS MR, DOS SANTOS OM, RETZLAFF EMA, TELMA HLC, DE ANDRADE IPS, MOSER ADL, et al. Pé diabético: orientações e conhecimento sobre cuidados preventivos. Fisioter Mov., v.26, n.3, p.: 647-655, 2013.

DIRETRIZES, Sociedade Brasileira de Diabetes (2015-2016) / Adolfo Milech...[et. al.]; organização José Egidio Paulo de Oliveira, Sérgio Vencio - São Paulo: A.C. Farmacêutica, 2016.

IDF, INTERNATIONAL CONSENSUS ON THE DIABETIC FOOT. [S.l], 2015. 1 DVD.

OLIVEIRA PS; BEZERRA EP; DE ANDRADE LL; et al. Practice nurse family health strategy in the prevention of diabetic foot. Care Online., v.8, n.3, p.: 4841-4849, 2016.

PINILLA, A.E.; SÁNCHEZ, A.L.; MEJÍA, A.; BARRERA, M.P. Actividades de prevención del pie diabético en pacientes de consulta externa de primer nível. Rev. salud pública., v. 13, n. 2, p.: 262-273, 2011.

POLICARPO NS, MOURA JRA, MELO JÚNIOR EB, ALMEIDA PC, MACÊDO SF, SILVA ARV. Conhecimento, atitudes e práticas de medidas preventivas sobre pé diabético. Rev Gaúcha Enferm., v. 35, n. 3, p.: :36-42, 2014.

SANTOS, I.C.R.V.; CARVALHO, E.F.; SOUZA, W.V.; ALBUQUERQUE, E.C. Fatores associados a amputações por pé diabético. J Vasc Bras., v. 14, n. 1, p.: 37-45, 2015.

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