A influência da mídia no tratamento do excesso de colesterol

Dr. Fernando Valente

  • Professor da Disciplina de Endocrinologia da Faculdade de Medicina do ABC
  • Editor dos Podcasts da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)
  • Coordenador dos Ativos de Comunicação da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)
  • Especialista em Endocrinologia e Metabologia pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

Hoje, 08 de agosto, é o dia nacional de combate ao colesterol, um dos grandes fatores de risco para infarto e AVC. É fundamental ter um estilo de vida saudável, claro, mas às vezes não é o bastante, pois a maior parte do nosso colesterol é produzido pelo fígado. Daí a necessidade de, eventualmente, ir além da alimentação saudável e atividade física e recomendar o uso contínuo de medicamentos para tratar esse perigo silencioso que pode ser detectado facilmente por exames laboratoriais. A questão é que a mídia muitas vezes não ajuda (assim como alguns profissionais da saúde).

Vejamos uma publicação ilustrativa, um estudo com quase 700 mil dinamarqueses com 40 anos ou mais que iniciaram estatina para reduzir o colesterol entre 1995 e 2010 e foram seguidos até o fim de 2011. O grupo de indivíduos que descontinuou o tratamento teve 26% mais casos de infarto e 18% mais morte por doença cardiovascular quando comparado ao que continuou a terapêutica. Dentre os fatores ligados à interrupção do medicamento, despontam as notícias negativas sobre estatinas na mídia. O estudo encontrou um aumento de 9% na chance de descontinuação do remédio para cada notícia negativa.

 

Impacto da descontinuação precoce de estatinas versus uso continuado na incidência de infarto e morte cardiovascular (Referência 1)

 

 

De tempos em tempos, somos surpreendidos por manchetes/profissionais que pregam contra as evidências das diretrizes médicas. Às vezes, um mesmo jornal alterna publicações negativas e positivas para “prender” o leitor.

 

Exemplos de notícias negativas e positivas sobre estatinas em um mesmo jornal britânico (Referência 3)

 

Frente a esses dados, um dos autores (que não tem conflito de interesses) dá 3 conselhos: 1) independente do que façamos como profissionais de saúde, notícias negativas (e positivas) sobre estatinas vão continuar sendo publicadas na mídia, pois o número de pessoas que tomam esses medicamentos é muito grande; 2) como médicos que acreditam na medicina baseada em evidências, devemos continuar nos baseando na literatura revisada por médicos, e não na mídia leiga; 3) ao invés de ficarmos frustrados com as notícias negativas, cada um de nós deve regularmente fazer com que os jornalistas relatem notícias novas e positivas sobre as estatinas (nesse mesmo estudo, o risco de descontinuação do tratamento diminuiu em 8% para cada boa notícia).

Estatinas, como todo medicamento, têm potenciais efeitos colaterais. Mas, nos casos de maior risco cardiovascular, seu benefício é enorme - a redução de 40 mg/dL de LDL pode diminuir em até 20% a mortalidade cardiovascular. O impacto da suspensão do tratamento para esses pacientes pode ter consequências catastróficas.

 

Referências

1. Eur Heart J. 2016 Mar 14;37(11):908-916

2. Eur Heart J. 2018 Feb 1;39(5):335-336

3. Eur Heart J. 2018 Feb 1;39(5):337-338

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