De que forma a sua genética pode influenciar a resposta a suplementação com cafeína anidra ?

Dr. Roberto Zagury

  • Endocrinologista do LPH - Laboratório de Performance Humana

A suplementação com cafeína anidra em doses variando de 3 a 6 mg/kg administradas 1 h pré-treino aeróbio tem benefícios ergogênicos comprovados em uma séries de estudos clínicos, razão pela qual é recomendada formalmente por todas as principais sociedades relacionadas a nutrição esportiva no mundo (ex: ISSN – International Society of Sports Nutrition; AIS – Australian Institute of Sports; ACSM – American College of Sports Medicine e a SBMEE - Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte).

No entanto, os diversos estudos que respaldam esta indicação relatam sempre os resultados médios em termos de ganho de performance. Sempre há, em todos estes trabalhos, alguns indivíduos não respondedores e outros com resposta acima da média. Nesse sentido tem se tentado identificar preditores de boa e má resposta a suplementação com cafeína anidra. Um destes preditores, clínico e de fácil implementação, é ser ou não consumidor frequente de cafeína na dieta. Os bebedores mais assíduos de café tendem a ter uma resposta menos expressiva enquanto que pessoas que não tem este hábito tendem a apresentar uma resposta mais expressiva. Fenômeno este conhecido como “habituação”. O que significa dizer, em outras palavras, que diante de um consumo regular da substância em questão, doses cada vez maiores são necessárias para se obter um mesmo efeito estimulatório. É justamente por isso, que em algumas diretrizes há sugestão, por exemplo, para se fazer uma dieta pobre em cafeína por cerca de 5-10 dias antes de uma prova chave, a fim de se maximizar o efeito ergogênico da suplementação.

De uns tempos para cá, vem surgindo, na pratica de consultório, uma série de testes genéticos, realizados por laboratórios clínicos, que, em teoria, poderiam avaliar, entre outras coisas, se você tem ou não algum polimorfismo que confere maior ou menor resistência aos efeitos da cafeína. Com base nisso seria possível (mais uma vez, em tese) prever o efeito da suplementação com cafeína anidra e com isso guiar a escolha da dose ou mesmo se a cafeína deve ou não ser usada em um determinado praticante de atividade física. Ainda com pouco respaldo científico e com um preço bastante elevado, tal exame acabou não caindo nas graças dos médicos. Não “pegou” por assim dizer. No entanto, no início deste ano, na conceituada revista Medicine & Science in Sports and Exercise, o grupo da Universidade de Toronto, liderado por Nancy Guest, publicou um interessante trabalho no qual joga um pouco de luz sobre esta questão (1). Iremos discutir este trabalho na nossa coluna deste mês, mas desde já gostaria de frisar que, na nossa opinião, ainda é cedo para solicitar, de rotina, este exame na prática de consultório. Mais estudos são necessários replicando os resultados vistos no estudo de Guest et al.  

           

Desenho do estudo

Foram avaliados 101 atletas do sexo masculino, oriundos das mais diversas modalidades: exercício tipo endurance (ex: maratonistas, triatletas, ciclistas e praticantes de ski cross-country), atividades de potência (ex: boxe, vôlei e levantamento de peso) e esportes mistos (ex: basquete, futebol, rugby e natação). Tais indivíduos foram randomizados para suplementação com cafeína anidra (dose de 2 ou 4 mg/kg) ou placebo e depois foram submetidos um “time trial” de 10 Km em cicloergômetro (prova contra relógio). Os sujeitos de pesquisa foram avaliados também quanto a presença ou ausência do polimorfismo rs762551 no gene CYP1A2 e classificados em: 1) metabolizadores rápidos da cafeína (genótipo AA); 2) metabolizadores lentos heterozigotos (genótipo AC) e 3) metabolizadores lentos homozigotos (genótipo CC).

 

Por que avaliar polimorfismos neste gene ? Qual o racional por trás deste estudo ?

Noventa e cinco por cento da cafeína ingerida é metabolizada via CYP1A2, um complexo enzimático responsável pela demetilação da cafeína formando seus metabólitos primários (a paraxantina, a teofilina e a teobromina). SNPs (single nucleotide polymorfisms) no gene que codifica a CYP1A2 podem alterar a nível de atividade de tal enzima e consequentemente a capacidade que os diferentes indivíduos suplementados com cafeina anidra tem de responder com melhora de desempenho. Os chamados metabolizadores lentos, aqueles com dupla cópia do SNP (genótipo CC) teriam, em tese, menor chance de responder a suplementação, enquanto que os metabolizados rápidos (aqueles com genótipo AA – ou seja, sem nenhuma cópia do SNP) teriam, em tese, maior chance de boa resposta a cafeína. No entanto, tal racional carecia, até então de comprovação clínica. Ou seja, faltava um estudo feito usando um parâmetro usado no dia-a-dia (tal como uma prova contra relógio) que mostrasse que isso de fato pode ser usado a favor dos praticantes de atividade física. É por isso que estamos aqui hoje discutindo este importante trabalho !

 

Resultados

De fato, o que se esperava se comprovou neste estudo: quando se analisa o grupo como um todo (sem se levar em conta o genótipo do praticante) a suplementação com cafeína anidra na dose mais elevada (de 4 mg/kg) produziu uma melhora de desempenho da ordem de 3%. No entanto, ao se avaliar em separado metabolizadores lentos versus metabolizadores rápidos constata-se o seguinte:

- Indivíduos com genótipo AA (metabolizadores rápidos) apresentaram melhora de desempenho da ordem de 4,8% com a dose de 2 mg/kg e de 6,8% com a dose de 4 mg/kg (ou seja, acima do efeito médio do suplemento) (p=0,0005 e p<0,0001 respectivamente)

- Pacientes com genótipo AC (heterozigotos) não experimentaram nenhum benefício ergogênico tampouco malefício quando do uso da cafeína anidra

- Metabolizadores lentos (genótipo CC) evoluíram com piora do desempenho ! Sim ! Apresentaram efeito ergolítico com aumento do tempo na prova contra relógio de 13,7% quando do uso da dose de 4 mg/kg (p=0,04) (Figura 1)

 

  

 

Figura 1 – Diferentes resultados da suplementação com cafeína anidra

de acordo com a dose utilizada assim como com o genótipo CYP1A2

Reproduzida de Guest N e cols (1)

 

Sendo assim, podemos concluir que a cafeína anidra segue sendo um suplemento alimentar eficaz, no entanto, seu impacto pode variar na dependência do genótipo CYP1A2 de cada usuário. Acreditamos que, muito em breve, poderemos, com o auxílio de testes genéticos não invasivos (obtidos por exemplo através de amostras de saliva), individualizar a prescrição dos diferentes suplementos alimentares. A chamada “precision medicine” está cada vez mais perto da realidade dos consultórios de endocrinologia e cada vez mais respaldada em estudos clínicos bem conduzidos como este que discutimos na coluna deste mês. Por outro lado, segue ainda sendo um exame muito caro e pouco disponível. E lembramos ainda que há que se replicar os resultados deste trabalho em outros estudos semelhantes e em praticantes de atividade física que não sejam atletas.

 

Abs e bons treinos !

 

Referências Bibliográficas

 

  • Guest N, Corey P, Vescovi J et al. Caffeine, CYP1A2 genotype and endurance performance in athletes. Med Sci Sports Exerc 2018;50(8):1570-8

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