Ômega-3 surpreende com resultados robustos em pacientes com doença cardiovascular e hipertrigliceridemia

Dr. Marcello Bertoluci

  • Professor Associado do Departamento de Medicina Interna da Faculdade de Medicina/ UFRGS
  • Coordenador do Departamento Cardiovascular da SBD
  • Presidente da SBD-RS

No dia 10 de novembro em Chicago, o congresso da American Heart Association (AHA) causou grande impacto com os resultados surpreendentes do estudo REDUCE-IT, que comparou o uso de ômega-3 contra placebo em pacientes com hipertrigliceridemia em prevenção primária e secundária, na vigência de estatina.

O REDUCE-IT foi um ensaio clínico, duplo-cego, multicêntrico que randomizou 8.179 pacientes com níveis de triglicérides entre 135 e 499mg/dL, com doença cardiovascular estabelecida (70%) ou diabetes associado a fatores de risco, para receber o ômega-3 (icosapent ethyl 2g, 2x ao dia) ou placebo, durante 4,9 anos.  O icosapent ethyl, um éster de EPA (ácido eicosapentanóico), é bem mais puro e estável do que o próprio EPA reduziu em 25% o desfecho composto primário [morte cardiovascular, infarto não-fatal, AVC não-fatal, revascularização coronária ou angina estável] (HR:0,75 IC95% 0,68-0,83 p<0,001 -Figura A). Isto correspondeu a uma redução de risco absoluto de 4,8% e a um NNT de 21. O desfecho secundário, um composto de: [ morte cardiovascular, infarto não-fatal ou AVC não-fatal (3-P MACE)], foi reduzido em 26% em relação ao placebo (HR: 0,74; 95% IC 0,65-0,83; P<0.001).

Em relação aos lípides, houve uma redução de 18% nos triglicérides e um pequeno aumento de 3% no LDL-c, sendo que os níveis absolutos de LDL-c se mantiveram ao redor de 74mg/dL,  6% mais elevado do que no grupo placebo. Quanto aos efeitos adversos, houve um maior percentual de pacientes internados por fibrilação e flutter atrial no grupo icosapent ethyl (3,1% vs. 2,1% p=0,004). Houve também uma tendência para aumento de sangramentos no grupo intervenção em relação ao placebo (2,7% vs. 2,1% p=0,06).

 

 

Os resultados surpreenderam primeiro porque, em uma recente metanálise de ensaios clinicos randomizados com ômega-3 em pacientes recebendo estatinas, não houve nenhum benefício do uso do ômega-3. No presente estudo, portanto, uma redução robusta de 4,8% de risco absoluto era totalmente inesperada. Além disso, o benefício ocorreu em um perfil de pacientes cuja mediana de LDL-c era de apenas 74mg/dL, porém houve uma alta taxa de eventos. Em relação aos efeitos adversos, os autores consideraram baixas as taxas de hospitalização por fibrilação atrial e de flutter, apesar de serem maiores no grupo que usou OMEGA-3. Da mesma forma, o número de sangramentos foi aceitável. Os autores reiteram que, apesar disto, não houve aumento na taxa de suspensão de uso do ômega-3.

Os autores não têm uma explicação definida para a diferença encontrada entre os resultados obtidos no REDUCE IT em relação aos estudos anteriores, mas consideram que a forma purificada de EPA e as maiores doses utilizadas no estudo REDUCE-IT possam ter sido fatores importantes. É possível que, entretanto, além da redução dos triglicérides, o efeito anti-trombótico tenha sido o fator mais importante, já que a revascularização coronariana foi o componente de maior impacto do desfecho primário.

O estudo REDUCE IT vem resgatar os ômega-3 que ressurgem como  opção além das estatinas em pacientes com doença cardiovascular e hipertrigliceridemia - um benefício que parece ser extensivo a pacientes com diabetes.

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