Aplicabilidade clínica da hemoglobina glicada na evolução de pacientes com hiperglicemia hospitalar

 

Dra. Beatriz Bonamichi

Sabe-se que o diabetes tipo 2 (DM2) está presente em aproximadamente 10% de todas as causas de hospitalizações, e que uma porcentagem significativa dos pacientes com DM2 apresentam-se sem diagnóstico prévio no momento da internação hospitalar. A hiperglicemia pode provocar efeitos deletérios no organismo como o processo inflamatório1,2.

Por isso, realizamos um estudo no Hospital Samaritano que avaliou a hemoglobina glicada (HbA1c) como diagnóstico e ferramenta preditiva na evolução clínica dos pacientes com e sem diagnóstico de DM2, avaliados durante o período de internação e sua relação com possíveis complicações3.

Foram avaliados 100 pacientes durante o período de um ano e verificados através do Núcleo Multidisciplinar de Atendimento ao Paciente Diabético do Hospital Samaritano( NUMAD) valores institucionais do protocolo de HbA1c em pacientes com hiperglicemia. A idade média dos pacientes foi de 63 anos, sendo que 75% evidenciaram diagnóstico prévio de DM2. Dos 25 pacientes com hiperglicemia, mas sem diagnóstico de DM2, 14 foram posteriormente diagnosticados com a doença e mantidos com tratamento medicamentoso domiciliar. Pacientes sem diagnóstico prévio de DM2 evidenciaram HbA1c entre 5,8% e 7,5%, com tempo médio de internação de 9 dias. Pacientes com DM2 que evoluíram com complicações, evidenciaram HbA1c entre 7,3% e 12,4% e corresponderam a 20% do estudo, com hospitalização de 34 dias. Os pacientes com DM2 sem complicações evidenciaram HbA1c entre 5,9% e 11,5% com tempo de internação de 11 dias. As complicações evidenciadas foram infecções pulmonares (50%), choque séptico (15%), infecção da pele (15%), infecção do trato urinário (10%) e insuficiência renal (10%)3. Com isso, esse estudo demonstrou que o aumento de HbA1c foi importante e significativo para o aumento das complicações hospitalares, independente da patologia associada ao paciente. Os efeitos deletérios da hiperglicemia afetam a imunidade e cicatrização, aumentam o estresse, pioram a disfunção endotelial, aumentam as citocinas pró-inflamatórias e os fatores pró-trombóticos, aumentam a mitogênese, proporcionam alterações hidroeletrolíticas, proporcionando assim o aumento dessas complicações4. Apesar do NICE-SUGAR, caracterizado como um importante estudo multicêntrico, multinacional, controlado e randomizado que avaliou o efeito rigoroso do controle glicêmico em pacientes hospitalizados ter evidenciado mortalidade significativamente maior no grupo de tratamento intensivo, ainda há controversas em relação ao tema de análise da glicemia como prognóstico intra-hospitalar5.  Com isso, é importante ressaltar que Umpierrez et al. avaliou a relação do algoritmo de pacientes com DM2 na alta hospitalar, evidenciando que a análise da HbA1c durante a internação é benéfica na adaptação dos regimes de tratamento no momento da alta hospitalar6. Em nosso estudo, a HbA1c evidenciou importância significativa em relação aos pacientes hospitalizados, demonstrando que também pode ser usada como ferramenta de prognóstico independente da patologia aguda do paciente3.

Nosso estudo demonstrou a importância da HbA1c como aliada ao ambiente hospitalar. Essa ferramenta se evidenciou como um marcador de prognóstico e um importante preditor em pacientes internados com hiperglicemia3.

 

Referencias:

  1. CDC-Diabetes Public Health Resource: Disponível: http://www.cdc.gov/diabetes/ statistcs/index.htm (acessado em janeiro de 2018)
  2. Kosiborod M, Inzucchi SE, Krumholz HM, Xiao L, Jones PG, et al. (2008) Glucometrics in patients hospitalized with acute myocardial infarction: defining the optimal outcomes-based measure of risk. Circulation117: 1018-1027.
  3. Bonamichi BDSF, Salles JEN, Ferraz C, Cury AN, Sargaço RA. Clinical applicability of glycated hemoglobin in the evolution of patients with hospital hyperglycemia. Integr Mol Med, 2015 doi: 10.15761/IMM.1000149 Volume 2(4): 248-250
  4. Clement S, Braitwaite SS, Magee MF, Ahmaam A, Smith EP, et al. (2004) Management of diabetes and hyperglycemia in hospitals. Diabetes care 27: 553-91.
  5. NICE-SUGAR Study Investigators (2009) Intensive versus conventional glucose control in critically ill patients. N Engl J Med 360:1283-97.
  6. Umpierrez GE, Isaacs SD, Bazargan N, You X, Thaler LM, et al. (2002) Hiperglicemia: an independent marker of in- hospital mortality in patients with undiagnosed diabetes. J Clin Endocrinol Metab 87: 978-982.

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