Maiores desafios e melhores estratégias para mudança de comportamento e sucesso nos autocuidados do diabetes

Dr. Mark Barone

  • Doutor em Fisiologia Humana (ICB/USP)
  • Especialista em Educação em Diabetes (ADJ-IDF-SBD, UNIP e IDC)
  • Autor dos livros “Tenho diabetes tipo 1, e agora?” e “Diabetes: conheça mais e viva melhor”
  • Autor do blog www.tenhodiabetestipo1eagora.blogspot.com

Entrevista com William Polonsky Parte 2

Conforme prometido no mês anterior, eu e meu amigo Ronaldo José Pineda Wieselberg, médico e jovem líder em Diabetes pela ADJ e pela IDF, retornamos com a segunda parte da entrevista ao renomado psicólogo em diabetes, Professor William Polonsky, fundador e presidente do Diabetes Behavioral Institute. Dessa vez ele nos ensina estratégias singulares para facilitar a mudança de comportamento e como lidar com desafios e mitos tão comuns e desagradáveis para quem tem diabetes.

Entrevistadores: Suas orientações têm inspirado muitos grupos e, com isso, facilitado que se atinjam os objetivos de engajamento nos autocuidados. Na sua experiência, é possível influenciar pessoas para mudanças comportamentais em grandes grupos ou apenas em pequenos grupos ou pessoalmente?

William Polonsky: Para mudanças em comunidades ou populações, é preciso mudar a economia comportamental, o meio ambiente, e podemos ver isso em pessoas com diabetes tipo 2. Tendemos a identificar culpa nas pessoas, pensando que é culpa delas: “você é gordo e preguiçoso”, por exemplo. Acredito em dois aspectos que precisam ser identificados e planejados: a) convencê-las a mudar; e b) manter as pessoas em suas mudanças de estilo de vida. É claro que as mudanças como medicação e exercício são eficazes, mas geralmente pulamos a parte de mostrar os benefícios da mudança genuína, que é muito poderosa. E, se as pessoas não conseguem ver os benefícios de mudar, por que se preocupariam com isso agora? Muitos benefícios são de longo prazo, mas queremos ver resultados imediatos. Esse é o maior desafio.

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WP: Eu gosto de comparar com a cessação do tabagismo. Tornamos extremamente inconveniente fumar e, nos EUA, isso funcionou. Há poucos lugares em que fumar é permitido, o preço do cigarro aumentou muito. Mudamos o ambiente. Pequenas mudanças tornam mais fácil para as pessoas que precisam fazer escolhas mais saudáveis. Outro exemplo foi um experimento com as batatas chips que vêm em tubos. É difícil parar de comê-las, não é verdade? Mas, em um estudo, adicionaram uma batata vermelha a cada dez chips regulares. Com isso, as pessoas sabiam quantas batatas estavam comendo. Há muitas outras pequenas mudanças que podem ser feitas, por exemplo: quanto mais colorido é o seu prato ou quanto maior a colher do seu sorvete, mais você come. Nos Estados Unidos há restaurantes "coma tudo o que conseguir", e há um estudo sobre as pessoas nesses restaurantes. Pessoas com obesidade se sentam de frente para o Buffet, enquanto as demais se sentam em qualquer posição. A visão as mantém estimuladas a comer mais.

 

Prof. William Polonsky em palestra na ADJ Diabetes Brasil (foto de Lucas Xavier)

Entrevistadores: No Brasil temos o desafio de convencer pessoas de menor condição a fazer escolhas saudáveis, comprar frutas e verduras, checar a glicose no sangue, enquanto elas lidam com muitas outras preocupações diárias.

WP: Em populações mais pobres, temos dados mostrando que elas já estão mentalmente exaustas por terem de tomar decisões para a sobrevivência diária. Depois do diagnóstico é como ter que criar um espaço extra para pensar sobre o diabetes, que em geral não mata ninguém no curto prazo. Com isso, torna-se difícil ver a consequência de ignorar o diabetes até que seja tarde demais. O desafio é tornar algo invisível visível. Algo que identificamos é o fenômeno do “click”. Notamos que há sempre algo responsável por mudar uma chave, dar o “click”, para que as pessoas se engajem nos autocuidados de seu diabetes. Então, pensamos em encontrar uma centena de pessoas com diabetes que realmente tivessem passado muito tempo, anos e anos, sem ligar para os autocuidados e agora estão engajadas, cuidando-se. Perguntamos “o que mudou?”,” qual é a fórmula mágica?”, para tentarmos encontrar padrões. Nosso medo era que o "click" para todos fosse "eu desenvolvi complicações terríveis, e agora o diabetes é real". Contudo, isso se mostrou verdade para algo em torno de 18% das pessoas. Nós nunca publicamos esses resultados. A maioria dos “clicks” foi social, interpessoal. Alguns deles disseram: "eu conheci um médico que realmente cuida de mim, ele me trata como uma pessoa, não como um número". Uma pessoa que acompanhei ficou tão surpresa quando seu novo médico ligou para saber como ela estava, se tinha ficado com alguma dúvida depois da consulta, que, percebendo que ele se importava, decidiu se engajar e seguir suas orientações.

Entrevistadores: Isso é uma ótima informação, porque trabalhamos muito com agentes comunitários de saúde no Brasil, e eles são muito bons nesse tipo de interação e apoio.

WP: Sim, há muita sabedoria em ação nesses profissionais. Existem histórias incríveis. Uma das minhas favoritas é a respeito de um rapaz com diabetes tipo 1. Ele tinha cerca de quinze anos, e sempre ignorou seu diabetes. Ele odiava seu diabetes, odiava sua mãe, ele era como muitos garotos de 15 anos. Sempre pensou que nunca deixaria o diabetes controlar sua vida, queria "mostrar ao diabetes quem mandava". Um dia ele estava com seus amigos e eles estavam tendo aquela discussão típica de meninos sobre carros, pensando em algum dia ter um carro, e qual carro gostariam. Eles estavam discutindo sobre transmissão automática ou manual, e então… ele “clicou”. “Oh!, eu tenho um pâncreas de transmissão manual!” Isso mudou tudo. Outra dica é que as pessoas geralmente “clicam” quando ajudam outras pessoas com sua mesma condição ou situação.

Entrevistadores: Para concluir, conte-nos sobre sua contribuição para que pessoas com diabetes lidem com seus maiores desafios.

WP: Bem, eu não tenho diabetes, mas trabalho com psicologia em diabetes há 30 anos e sempre pergunto às pessoas com diabetes: “você pode me dizer uma ou duas coisas sobre diabetes que te deixam louco?” E nunca conheci ninguém que tenha dito “nada, tudo perfeito!” Precisaremos separar diabetes tipo 1 e tipo 2 para esta resposta. No caso do diabetes tipo 1, o que incomoda mais é o “problema 24/7”. Ou melhor, não há férias, os autocuidados são 24 horas, 7 dias por semana. A segunda reclamação mais comum é que “apesar dos esforços, o diabetes não coopera sempre”. Mesmo fazendo a coisa certa, a glicose no sangue pode, sem explicação, subir às nuvens. Mas há também algo que leva tanto as pessoas com diabetes tipo 1 quanto as com tipo 2 à loucura: todos os comentários estúpidos e irritantes que são feitos sobre o diabetes. O que fazemos, em vez de “dar um soco” no/a desinformado/a - independentemente do quão idiota foi o comentário - é dizer "ah, você não sabe as regras sobre como se comportar." E, então, entregamos o Cartão de Etiqueta em Diabetes. A ideia é contornar a situação de forma bem-humorada e facilitar a conversa com seus colegas de trabalho, amigos, pais ou companheiro/a. É como dizer, “apesar de você estar querendo ajudar, isso é realmente irritante e há formas melhores". Os resultados do uso desse cartão têm sido muito positivos. Temos também uma versão específica para os adolescentes. A propósito, uma coisa que os adolescentes pedem aos pais, antes de uma conversa com outras pessoas, é: “você pode esperar pelo menos 60 segundos antes de dizer que eu tenho diabetes?” É um complemento a estratégia dos “policiais do diabetes”, quando os pais monitoram cada aspecto dos cuidados com o diabetes de seus filhos, bastante explorado nos cartões, por ser tão irritante. Sempre sugiro aos pais que procurem conhecer as opiniões dos/as seus/uas filhos/as e a todos que usem artifícios, como os cartões, para educar de forma descontraída quem não tem diabetes.

Entrevistadores: Muito obrigado por nos ceder essa entrevista.

WP: Eu que agradeço por esta noite maravilhosa conversando com vocês!

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