Eficácia x efetividade das alterações positivas no estilo de vida para o controle do diabetes


Dr. Augusto Pimazoni Netto
Coordenador do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do Hospital do Rim – Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP
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Tecnicamente, existe uma diferença conceitual importante entre eficácia e efetividade. O termo eficácia refere-se aos resultados positivos de uma determinada intervenção ou de um determinado tratamento, em condições operacionais controladas como, por exemplo, no decorrer de um estudo clínico. Por outro lado, o termo efetividade representa a obtenção de resultados positivos de uma intervenção ou tratamento mas em condições não controladas de vida real, na prática clínica diária. Do ponto de vista prático, o que importa é a efetividade. Numa condição de estudo clínico, por exemplo, a aderência do paciente é exigida para que ele continue participando da pesquisa e, por isso, o próprio paciente sente-se motivado a aderir às recomendações e aos tratamentos ministrados. Entretanto, é importante ressaltar que um determinado tratamento pode demonstrar eficácia em condições controladas, mas não demonstrar efetividade na vida real, muitas vezes por falta de adesão ou de motivação do paciente.

Talvez o exemplo mais expressivo dessa diferença entre os dois conceitos seja exatamente a adoção de estilos de vida mais saudáveis, como atividade física e dieta equilibrada, para o controle do diabetes e do excesso de peso. Esta é uma intervenção de eficácia absolutamente comprovada mas que, geralmente, apresenta problemas sérios de efetividade. Na coluna Editor’s Choice do British Medical Journal (BMJ), o Dr. Trish Groves publicou um desafiante comentário intitulado “New Ideas Please” , onde faz uma abordagem inteligente sobre as dificuldades de implantação de estratégias de modificações positivas no estilo de vida para o tratamento da obesidade e do diabetes. Nesse texto, o Dr. Groves afirma que esse tipo de intervenção permanece, até agora, como a intervenção potencialmente mais efetiva (o certo seria “mais eficaz”) e, ao mesmo tempo, de mais difícil implantação, ressaltando a urgente necessidade de melhores evidências e de novas idéias para que essa intervenção tenha efetividade.

Em resposta ao Dr. Grove,  enviei um comentário ao BMJ, sob o título de “The Whale Paradox”  (O Paradoxo da Baleia), publicado na edição eletrônica do BMJ de 9 de dezembro último. Nesse comentário, manifestei minha concordância quanto às dificuldades de transformação de intervenções eficazes em intervenções efetivas. E, através do Paradoxo da Baleia, expressei minhas desconfianças em relação à procedência de boa parte dos conceitos sobre dietética: como explicar a extrema adiposidade da baleia, se esse animal consome uma dieta altamente saudável (constituída principalmente de peixes), pratica atividade física durante as 24 horas do dia, nadando o tempo todo e, de quebra, vive uma vida tranqüila, sem estresse? No mesmo raciocínio, poderíamos citar também o Paradoxo do Elefante, um animal obeso, mas que se alimenta preponderantemente de vegetais. Alguém tem alguma explicação para esses paradoxos? Seria muito saudável um debate aberto sobre o potencial de efetividade das modificações positivas do estilo de vida.

Com base em minha própria experiência, costumo dizer que, quando se vê um gordo correndo na rua, das duas uma: ou foi assalto ou ele está em sua primeira semana de atividades físicas...

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