A arte de criar medidas inócuas para combater problemas importantes


Dr. Augusto Pimazoni Netto
Coordenador do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do Hospital do Rim – Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP
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Quanto maior for o problema, maior é o número de medidas inócuas criadas como pseudo soluções. E quanto maior o número de pseudo soluções, menor é o número de propostas e estratégias realmente criativas e eficazes para a solução dos problemas. A obesidade é uma perigosa epidemia que vem avançando em todo o mundo a passos largos e mostra-se resistente às várias tentativas para o seu controle efetivo.

Em setembro de 2012, a Comissão de Saúde da Prefeitura de Nova Iorque determinou a proibição da venda de frascos de refrigerantes açucarados com mais de 16 onças (cerca de 480 ml), com a nobre motivação de auxiliar no combate à obesidade, muito embora tal estratégia representasse apenas uma gota d’água no oceano de fatores que geram e que nutrem generosamente a epidemia de obesidade. Sem dúvida, o excesso de consumo de refrigerantes açucarados é um problema sério, mas talvez seja mais crítico nos Estados Unidos. Certa vez, presenciei um motorista de taxi em San Antônio, no Texas, que se alimentava apenas de hamburgueres e frango frito, aliviando a sede com uma generosa garrafa de 2 litros de refrigerante açucarado. Ele carregava em seu veículo um estoque desses saudáveis produtos.

Em março deste ano, a Corte Suprema do Estado de Nova Iorque anulou essa decisão ao interpretar essa medida como uma flagrante violação das liberdades individuais. Considerou, ainda, que estabelecer limites a apenas um pequeno detalhe desse comportamento nutricional inadequado, em face de todas as outras escolhas alimentares nada saudáveis que fazemos todos os dias, dificilmente teria a força necessária para impactar essa situação tão adversa. Outro argumento importante a favor da inocuidade dessa medida é o simples fato de que, se alguém quiser tomar 2 litros de refrigerante açucarado, basta comprar 4 garrafinhas de 500 ml, se as garrafas de maior conteúdo fossem eventualmente banidas do mercado. 

Esse exemplo de ineficácia estratégica pode ser comparado ao que acontece com nossa estrutura política: a tão sonhada democracia de verdade jamais terá condições de se viabilizar enquanto nós, brasileiros, formos obrigados a votar, a ouvir a famigerada Hora do Brasil, a suportar o irritante horário político gratuito, a assistir nos canais pagos de tv as “primorosas” obras do cinema nacional, enfim, a aceitar toda uma avalanche de imposições totalmente descabidas para os dias de hoje, numa verdadeira reedição do “Festival de Besteiras que Assola o País”, o outrora famoso FEBEAPA, do saudoso Stanislau Ponte Preta. Tudo isso, “em nome da democracia”!!!

Nos Estados Unidos, com todos os seus problemas históricos e os mais recentes, a Corte Suprema do Estado de Nova Iorque ainda se dedica a tratar de assunto aparentemente tão banal como o volume da garrafa de refrigerantes açucarados, com dois argumentos absolutamente fundamentais: a proteção das liberdades individuais e a evidente ineficácia estratégica dessa proposta esdrúxula. No Brasil, infelizmente, a gente “brinca de democracia”, aceitando imposições absurdas dos governos que se sucedem,   enquanto a classe política se esbalda na nossa passividade e na nossa resignação. Pelo menos acho que ninguém vai tirar nosso direito de discutir o importante tema do volume dos refrigerantes açucarados...

Fonte: Fairchild, AL. Half Empty or Half Full? New York’s Soda Rule in Historical Perspective. New England Journal of Medicine, 04 de abril de 2013.

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