Seria tão difícil assim abandonar o vício de bebidas açucaradas?


Dr. Augusto Pimazoni Netto
Coordenador do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do Hospital do Rim – Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP
E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Vamos começar este debate com um relato pessoal: eu e meus dois filhos fomos viciados em refrigerantes açucarados desde criancinhas. Eu consegui facilmente substituir os refrigerantes tradicionais pela versão diet ou zero, principalmente depois que essas bebidas passaram a ser adoçadas com aspartame. Meu filho mais velho, com um moderado excesso de peso, mesmo após uma cirurgia metabólica, também conseguiu vencer o vício das bebidas açucaradas, substituindo-as pelas versões dietéticas. Mas, meu filho mais novo, antes esbelto, agora, aos 40 e poucos anos, apresenta uma respeitável “barriguinha saliente”, apesar de não ser um glutão. O seu “pecado” é outro: ele é viciado e não consegue abandonar o vício de somente ingerir refrigerantes açucarados. E não há argumentos médicos que o convençam sobre a necessidade de redefinir suas escolhas no sentido de aderir aos refrigerantes dietéticos.

É verdade que existem alguns artigos mostrando que os refrigerantes dietéticos também apresentam eventuais efeitos colaterais e nocivos à saúde, mas essa característica não é uma unanimidade. Um recente artigo publicado em abril de 2014, no Diabetes Care, traz algumas estatísticas altamente preocupantes em relação ao uso regular de refrigerantes açucarados. Segundo essa fonte, cerca de 75% de todos os alimentos e bebidas contém açúcar adicionado sob várias formas.

O consumo de refrigerantes açucarados aumentou cinco vezes desde 1950, somente nos Estados Unidos. Meta-análises sugerem que o consumo de bebidas açucaradas está relacionado com o risco de diabetes, com a síndrome metabólica e com a doença cardiovascular. Mais ainda, o consumo de cerca de 500 mL de bebidas açucaradas por dia, durante seis meses, induziu características de síndrome metabólica e de fígado gorduroso na maioria dos usuários. Estudos clínicos randomizados em crianças e adultos, com duração de 6 meses a 2 anos de seguimento, demonstraram que a redução na ingestão de refrigerantes efetivamente reduziu o ganho de peso. O consumo de bebidas calóricas continua a aumentar e desempenha um papel importante na epidemia de obesidade, síndrome metabólica e fígado gorduroso.

Várias estratégias têm sido propostas ou implementadas para tentar controlar o crescimento contínuo do consumo de refrigerantes açucarados mas, aparentemente, sem sucesso. E qual seria o grande atrativo que torna as pessoas viciadas em bebidas açucaradas? A propaganda desenfreada pelos vários meios de comunicação é, sem dúvida, um dos principais vilões. Mas, não é só isso. A própria natureza tem lá a sua culpa exatamente por tornar os açúcares e a gordura os campeões da preferência popular, em função de sua incrível capacidade de tornar esses nutrientes bastante apetitosos, principalmente por parte daqueles que já enfrentam o problema de sobrepeso ou de obesidade franca.

Seria tão difícil assim abandonar o vício de bebidas açucaradas? 

Fonte:

Bray GA e Popkin BM. Dietary Sugar and Bocy Weight: Have We Reached a Crisis in the Epidemic of Obesity and Diabetes? Diabetes Care 2014.37(4):950-956. DOI: 10.2337/dc13-2085. 

VOLTAR