Dosagem de hemoglobina A1c para o diagnóstico de Diabetes Melito: Algumas ponderações


Dr. Antônio Carlos Pires
Professor Adjunto
Doutor da Disciplina de Endocrinologia da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto-FAMERP

A molécula de hemoglobina é uma proteína de estrutura quaternária encontrada nas hemácias e que tem como função a distribuição de oxigênio nos diferentes tecidos do organismo.

Essa proteína é composta por duas cadeias α com 141 aminoácidos e duas cadeias β com146 aminoácidos ligadas a quatro grupamentos heme, sendo que cada um deles contém um átomo de ferro. A chamada hemoglobina A1c ou hemoglobina glicada é produto de uma modificação pós-traducional, que na realidade, é uma glicação na posição N terminal da valina da cadeia β.

Na prática clínica há inúmeras entidades nosológicas que envolvem a estrutura da hemoglobina, incluindo alterações secundárias a mutações nos genes que expressam o grupamento heme, resultando assim em microcitose e anemia. Também existem as hemoglobinopatias adquiridas, como por exemplo, a carboxihemoglobina que é associada ao hábito de fumar e a carbamilhemoglobina que é observada nos pacientes que evoluem com uremia.

Historicamente, pela primeira vez, em 1958 por meio de cromatografia, Allen e cols. descreveram a hemoglobina A1. Em 1968, Rahbar descreveu a hemoglobina A1c que representa a forma glicada da hemoglobina, como citada anteriormente. Esse processo de glicação ocorre de maneira não enzimática e é diretamente proporcional a concentração de glicose no plasma.

Atualmente, a hemoglobina A1c é largamente utilizada como critério de controle do diabetes melito e também, como marcador de risco de complicações de longo prazo. Do ponto de vista laboratorial, há vários métodos disponíveis para medir a hemoglobina A1c e atualmente, apesar do esforço para padronização da metodologia de dosagem, na prática, ainda há muitas dificuldades na interpretação desses resultados devido aos diferentes métodos aplicados por diferentes laboratórios.

Além disso, alterações estruturais e químicas da molécula da hemoglobina, redução da meia vida das hemácias, como é bem observado nas anemias hemolíticas, em pacientes com insuficiência renal crônica, na ingestão contínua de salicilatos, no alcoolismo crônico e a ingestão inapropriada de vitamina C entre outras condições, podem interferir para mais ou para menos nos resultados da hemoglobina A1c.

E por último, mas não menos importante há dados de literatura que demonstram valores mais elevados de hemoglobina A1c em indivíduos não diabéticos com hipotireoidismo clínico pós-iodo radioativo, em afrodescendentes e também, em pessoas com idade avançada principalmente acima de 70 anos.

Não há ainda explicações fisiopatológicas convincentes para esses achados. Esse ano, a American Diabetes Association acrescentou a dosagem de hemoglobina A1c entre os critérios anteriormente padronizados de diagnóstico de diabetes e para o estado de pré-diabetes (≥ 6,5% e entre 5,7 e 6,4%, respectivamente).

Mas é importante salientar que, com base em dados de literatura, a sensibilidade da hemoglobina A1c quando comparada a glicemia de jejum para o diagnóstico de diabetes melito é próxima 57,0% e para pré-diabetes 47,0% e a especificidade para diabetes e pré-diabetes ao redor de 99,0% e 85,0%, respectivamente.

Na prática clínica, esses dados traduzem o aumento da preocupação quanto à possibilidade de perda ou atraso de diagnóstico de diabetes ou pré-diabetes quando utilizamos isoladamente a medida de hemoglobina A1c.

Em conclusão, com base em análises críticas de literatura há necessidade de mais estudos para que possamos utilizar com segurança a dosagem isolada de hemoglobina A1c para o diagnóstico de diabetes melito ou pré-diabetes, uma vez que, ainda temos muitas dificuldades devido à falta de padronização dos métodos de dosagem, além das variabilidades individuais, das alterações de meia vida das hemácias e outras condições que na prática podem alterar os resultados e, portanto, interferir na epidemiologia e no diagnóstico do diabetes ou pré-diabetes.


Referências:

J Diabetes Sci Tecnol 2009;3(4):656-660.

J Clin Endocrinol Metab 2010;95(12):5203-5206.

J Clin Endocrinol Metab 2010;95(12):5289-5295.

Diabetes Care 2010;33(12):2546-2548.

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