ORIGIN: Glargina e Câncer


Dr. Alexandre Hohl
Diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)
Professor de Endocrinologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Nem a insulina glargina nem a suplementação de ômega 3 reduziu o risco de eventos cardiovasculares neste estudo de mais de 6 anos com esta população. Houve uma redução significativa da conversão da GJA / TGD em DM no grupo que utilizou insulina glargina:  HR = 0,72 (0,58- 0,91) P=0,006. A aderência e o seguimento foram considerados altos. A mediana da dose de insulina glargina foi 28 (19-39) U/dia em pessoas com 70 Kg.

Em 2009, cinco relatórios que abordam uma possível associação entre a insulina glargina e câncer foram liberados. Cada estudo chegou a conclusões diferentes: um demonstrou não haver relação entre a insulina glargina e câncer; dois sugeriram uma relação com o câncer de mama apenas quando a insulina glargina foi usada, mas não se fosse combinada com outras drogas, e outro estudo sugeriu que havia uma associação com altas, mas não baixas doses de insulina glargina. Estes resultados diferentes não vieram de ensaios clínicos randomizados, como o ORIGIN. Em vez disso, foram derivados de análises curtas de informações disponibilizadas às autoridades de saúde durante um período de três anos. Um quinto relatório de um ensaio randomizado de cinco anos já não mostrou qualquer relação entre a insulina glargina e câncer.

Relatos de câncer foram coletados e analisados ao longo do estudo ORIGIN. Nesta análise, a glargina foi considerada neutra em relação ao câncer, comparada com o tratamento convencional: HR = 1,00 (0,88 – 1,13). A análise de morte por câncer também foi neutra em relação ao uso de glargina: HR = 0,94 (0,77-1,15).

Quando foi feita a análise pelos principais tipos de tumores (pulmão, mama, colo, próstata, pele e outros), manteve-se à neutralidade em relação ao tratamento com insulina glargina.

 

HR (95% CI)

    P

Glargina

 N(%)                Taxa 

Convencional

 N(%)                Taxa
Morte por Câncer

 0,94 (0,77-1,15)

  0,52 

 189 (3,0)            0,51 

 201 (3,2)            0,54

Qualquer Câncer

1,00 (0,88-1,13)

  0,97  

 476 (7,6)            1,32

 477 (7,6)            1,32

Pulmão

1,21 (0,87-1,67)

  0,27

 80 (1,3)              0,22

 66 (1,1)              0,18

Colo

1,09 (0,79-1,51)

  0,61

 76 (1,2)              0,21

 70 (1,1)              0,19

Mama

1,01 (0,60-1,71)

  0,95

 28 (0,4)              0,08

 28 (0,4)              0,08

Próstata

0,94 (0,70-1,26)

  0,70

 88 (2,1)              0,36

 89 (2,2)              0,38

Melanoma

0,88 (0,44-1,75)

  0,71

 15 (0,2)              0,04

 17 (0,3)              0,05

Outros

0,95 (0,80-1,14)

  0,59

 233 (3,7)            0,64

 245 (3,9)            0,67

Pele (outro)

1,02 (078-1,33)

  0,88

 110 (1,8)            0,30

 108 (1,7)            0,29

Na apresentação do ORIGIN em Philadelphia no ADA 2012, os resultados de neutralidade para o câncer foram motivo de aplausos e euforia da plateia. Entretanto, a observação de câncer não era o endpoint primário neste trabalho. Sabendo da história natural dos tumores, um follow-up de 6 anos não é o suficiente para tirar conclusões definitivas sobre o assunto. Outro ponto importante é a dose de insulina (0,4 U/kg de peso - mediana em pacientes com 70 kg). Se todos os pacientes fossem diabéticos, esta dose seria mais alta e a exposição seria outra. Apesar disso, estes resultados preliminares são indicativos importantes da não associação do uso de glargina e câncer. Os resultados futuros desta análise irão ajudar a determinar se a insulina glargina ou o ômega 3 (ou ambos) podem prevenir ou promover o câncer.

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