Fiquei com vontade de escrever sobre este assunto que há muito tempo vem me incomodando.

Trata-se da falta de decoro e de limites que venho observando em diversos (eu diria muitos) colegas não endocrinologistas.Hoje mesmo consultei dois pacientes que exemplificam o que quero dizer.

Um deles, uma senhora diabética obesa que, tendo sido consultada por um cardiologista, este modificou a medicação hipoglicemiante que eu lhe vinha prescrevendo há tempo. Outro é um paciente diabético que apresenta quadro de Síndrome Metabólica típica com IMC de 29 kg/m², tratado por mim há anos, e que tinha alterações graves de enzimas hepáticas (transaminases superiores a 200). O paciente tomava gliptina + metformina + sulfoniluréia e já havia feito inúmeras tentativas (inclusive com medicamentos) para emagrecer.

Diante da possibilidade do paciente estar desenvolvendo um problema hepático grave, talvez necessitando de uma biópsia sugeri ao mesmo que procurasse um hepatologista que ele mesmo escolheu. No retorno o paciente...

Com muita probabilidade você vem respondendo sim a esta pergunta há muitos anos. 

Desde a publicação de Haffner e col (New England Journal of Medicine 1998; 339:229) a afirmação de que o risco de um diabético ter um infarto do miocárdio é igual ao de um indivíduo que já teve um infarto tornou-se um axioma (isto é, uma frase sem contestação). 

Acontece que alguns estudos não concordam com esta afirmação. Recomendo em particular o ultimo de Cano e col (Diabetes Care 2010; 33: 2004) no qual foram seguidos 2.200 pacientes com diabetes sem coronariopatia clínica e 2.150 pacientes não diabéticos que tinham tido infarto.  

Este estudo, realizado na Catalunha, teve uma duração de 10 anos e mostrou que a ocorrência de infarto entre os diabéticos foi muito menor que nos não diabéticos infartados previamente (HQ: 0,54 e 0,28 para homens e mulheres respectivamente). No que  concerne à mortalidade cardiovascular...

Pacientes com diabetes melito e hipertensão arterial terão direito a receber alguns remédios de graça no Brasil. Sem dúvida nenhuma, isto representa um grande avanço na política da saúde do nosso país. Coisa de primeiro mundo!

Mas, ao mesmo tempo a nossa Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) convoca uma consulta publica para, segundo ela, proibir a comercialização de medicamentos contra obesidade que funcionam diminuindo o apetite.

Qual é a conexão entre as 2 notícias?

Simplesmente que o grande fator para hipertensão arterial e diabetes melito é o excesso de peso: mais que 80% dos hipertensos e mais que 90% dos indivíduos com Diabetes do tipo 2 (aquele que em geral aparece na idade adulta e que como regra não necessita de insulina) têm excesso de peso.

A que se deve esta incoerência entre prestigiar os remédios contra as conseqüências (hipertensão e diabetes melito) e condenar os remédios que combatem...

Fale Conosco SBD

Rua Afonso Braz, 579, Salas 72/74 - Vila Nova Conceição, CEP: 04511-0 11 - São Paulo - SP

(11) 3842 4931

secretaria@diabetes.org.br

SBD nas Redes