Ser Diabético equivale a ter tido um infarto prévio?


Dr. Alfredo Halpern
Professor livre-docente da faculdade de medicina da Universidade de São Paulo.
Chefe do grupo de obesidade e síndrome metabólica do serviço de endocrinologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Com muita probabilidade você vem respondendo sim a esta pergunta há muitos anos. 

Desde a publicação de Haffner e col (New England Journal of Medicine 1998; 339:229) a afirmação de que o risco de um diabético ter um infarto do miocárdio é igual ao de um indivíduo que já teve um infarto tornou-se um axioma (isto é, uma frase sem contestação). 

Acontece que alguns estudos não concordam com esta afirmação. Recomendo em particular o ultimo de Cano e col (Diabetes Care 2010; 33: 2004) no qual foram seguidos 2.200 pacientes com diabetes sem coronariopatia clínica e 2.150 pacientes não diabéticos que tinham tido infarto.  

Este estudo, realizado na Catalunha, teve uma duração de 10 anos e mostrou que a ocorrência de infarto entre os diabéticos foi muito menor que nos não diabéticos infartados previamente (HQ: 0,54 e 0,28 para homens e mulheres respectivamente). No que  concerne à mortalidade cardiovascular os valores de HQ foram de 0,26 e 0,16 para homens e mulheres, respectivamente. 

Sei que haverá uma série de considerações em relação a este estudo, entre elas a de que talvez a população estudada (da região do Mediterrâneo, com menor risco cardiovascular que outras populações) não reproduza o que acontece com outras, mas os resultados são muito expressivos para serem desprezados. 

De qualquer maneira, creio que considerar qualquer diabético como um indivíduo de alto risco cardiovascular é útil no sentido de fazermos uma medicina de prevenção, mas há que saber diferenciar o paciente com o qual estamos lidando.Só para dar um exemplo, a utilização de aspirina para prevenção de infarto do miocárdio deve ser avaliada de acordo com o risco do indivíduo. 

Apenas como exemplo: um indivíduo com 50 anos com diabetes recém-descoberto num check-up tem um risco bem menor que um indivíduo com a mesma idade, mesmo peso e mesmo controle de pressão arterial e dislipidemia com diabetes há mais de 10 anos.

Este é apenas um exemplo entre vários outros para discutirmos a diferença entre 2 indivíduos com diabetes (aliás, no artigo de Cano e col, indivíduos com DM há mais de 8 anos apresentavam risco semelhante aos pacientes com acidente coronariano prévio). 

De qualquer maneira, conceitos sólidos vêm sendo questionados nos últimos anos: nem sempre controle glicêmico rígido é o mais adequado, nem sempre a pressão arterial deve ser a mais baixa possível, nem sempre uma medicação anti-diabética previne complicações, e daí por diante. 

Não é minha intenção negar que qualquer paciente diabético deve ser cuidado da melhor maneira possível, mas esta melhor maneira possível nem sempre é aquela estabelecida por conceitos que viram axiomas, os quais podem não ser exatos. Como sempre, e sem querer ser repetitivo, o bom senso clínico deve prevalecer.

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