A Falta de decoro de muitos médicos (A invasão sobre a Endocrinologia)


Dr. Alfredo Halpern
Professor livre-docente da faculdade de medicina da Universidade de São Paulo.
Chefe do grupo de obesidade e síndrome metabólica do serviço de endocrinologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Fiquei com vontade de escrever sobre este assunto que há muito tempo vem me incomodando.

Trata-se da falta de decoro e de limites que venho observando em diversos (eu diria muitos) colegas não endocrinologistas.Hoje mesmo consultei dois pacientes que exemplificam o que quero dizer.

Um deles, uma senhora diabética obesa que, tendo sido consultada por um cardiologista, este modificou a medicação hipoglicemiante que eu lhe vinha prescrevendo há tempo. Outro é um paciente diabético que apresenta quadro de Síndrome Metabólica típica com IMC de 29 kg/m², tratado por mim há anos, e que tinha alterações graves de enzimas hepáticas (transaminases superiores a 200). O paciente tomava gliptina + metformina + sulfoniluréia e já havia feito inúmeras tentativas (inclusive com medicamentos) para emagrecer.

Diante da possibilidade do paciente estar desenvolvendo um problema hepático grave, talvez necessitando de uma biópsia sugeri ao mesmo que procurasse um hepatologista que ele mesmo escolheu. No retorno o paciente me relatou que o hepatologista a princípio descartou quadro grave e associou as alterações do fígado ao espectro metabólico do mesmo, possivelmente agravado por medicamentos. Até aí, tudo OK.

O mesmo médico trocou a sulfoniluréia que o paciente vinha tomando por uma glitazona. Até aí, cientificamente defensável, mas acho que o colega deveria se comunicar comigo para sugerir a mudança na prescrição, mas vá lá...A coisa não parou por aí. O hepatologista foi mais adiante: trocou a insulina ultra-rápida que eventualmente o paciente tomava, criticou seu controle glicêmico e, aconselhando-o a emagrecer (conselho que há anos venho lhe dando, inclusive ministrando remédios), receitou-lhe SIBUTRAMINA feita por farmácia de manipulação (na dose de 20 MG).

Detalhes:

1) O hepatologista é um médico muito conceituado e trabalha num hospital de 1ª linha em São Paulo.  
2) O paciente tinha sido submetido à colocação de um “stent’ há cerca de 4 meses. 
3) A farmácia de manipulação foi indicada e enfatizada pelo médico. 
4) O colega sabia que o paciente vinha sendo tratado por mim.

A razão pela qual escrevo este texto é que fatos assim se tornam cada vez mais corriqueiros; médicos de outras especialidades se intrometem com nossos pacientes com uma naturalidade impressionante. Ginecologistas pedem ultrassom de tireóide, pedem punção de nódulos, tratam de hipotireoidismo, etc, cardiologistas tratam dos diabéticos, e assim por diante.

Agora, como vemos hepatologistas (gastroenterologistas), não só tratam de nossos pacientes como nos desautorizam perante eles. E, tudo isto, com uma desfaçatez incrível. 

Clinico há mais de 40 anos, venho vendo de tudo na prática de medicina, testemunho condutas médias desastrosas, mas o fenômeno de interferência em nossa especialidade está se tornando cada vez mais óbvio.

Solução? Não vejo nenhuma à vista. 

Resta-me apenas manifestar minha indignação perante o ato destes colegas que provavelmente não aprenderam o que é o senso de ética e de dignidade médica. Quanto aos pacientes, a frase que eu digo é: ”Diga ao Dr Fulano que cuide do que lhe cabe, na sua especialidade, e deixe que eu cuido da parte para a qual sou especializado”. Se eles fazem ou não, não sei, mas pelo menos expresso meu sentimento.

Gostaria que os colegas que acessem este site colocassem sua opinião a respeito. 

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