Look AHEAD...e não desista!


Dr. Amélio Godoy
Endocrinologista
Chefe do Serviço de Metabologia do IEDE-PUC-RJ

O estudo Look AHEAD (Action for Health in Diabetes) é um dos mais importantes ensaios clínicos já levados a cabo no campo da diabetologia e quiçá em obesidade. Apesar de, como discutido pelo Dr. Pimazoni, ter sido interrompido por não mostrar benefícios no objetivo principal, qual seja, a redução de eventos cardiovasculares, o resultado traz boas notícias. A primeira é que foi interrompido não por mostrar riscos, como aconteceu com outros estudos como o ACCORD. Outras boas notícias referem-se a fatos como a melhora da pressão arterial, dos lipídeos, da apneia do sono, do uso de antidepressivos e até a remissão do diabetes e a redução nas doses e no uso de medicamentos em alguns pacientes. Então porque não foi possível obter a tão sonhada redução de eventos cardiovasculares?

Algumas razões podem ser sugeridas, mas as reais razões podem levar tempo para serem respondidas. Vejamos algumas: apesar de uma perda de peso de cerca de 5% ao fim do estudo, houve na verdade uma recuperação de cerca de 50% do peso perdido ao fim do estudo. Ou seja, apesar de melhor do que o grupo controle e da alegada sustentação da perda de peso, o fato é que a média do peso perdido foi de ~10% em 1 ano e no fim apenas ~de 5%. Além disso, o grupo controle exibia níveis de colesterol LDL mais baixo, porque usaram mais estatinas. E, todos sabem, o uso de estatinas diminui importantemente o risco em diabéticos. Alguns fatores de risco tenderam a piorar após o primeiro ano, quando a melhora foi mais exuberante. Assim, só quando tivermos a análise dos sub-grupos (Ex. comparação entre aqueles que perderam mais de 5% versus aqueles que só perderam 5% ou menos, em média) poderemos ter uma visão mais adequada do estudo.

Será que a perda de peso não é importante para reduzir eventos? Ou será que 5% é insuficiente para mostrar benefícios? Creio que a segunda hipótese é a mais razoável. Senão vejamos: os estudos com perda de peso após cirurgia bariátrica mostram que uma perda maior de peso é, sim, benéfica e reduz a mortalidade por todas as causas. Isto restou demonstrado em pelo menos 2 estudos. No estudo SOS (Effects of Bariatric Surgery on Mortality in Swedish Obese Subjects) o grupo operado perdeu entre 14 a 25% dependendo do tipo de cirurgia, em até 15 anos de observação. Houve uma redução ajustada de 29% na mortalidade. Um outro estudo (Adams TD e cols, NEJM 2007), retrospectivo, com cerca de 20.000 pacientes, dos quais a metade passou pela cirurgia, mostrou uma redução de 40% na mortalidade em cerca de 8 anos! E, alvíssaras, as maiores reduções foram pelo diabetes (92%), cancer (60%) e infarto (56%). Logo, apesar de muito bem desenhado e conduzido, o look AHEAD não obteve uma grande e sustentada perda de peso e esta talvez seja a maior razão do pouco sucesso. Mas, não desistamos. Devemos olhar para a frente e tentar obter dos nossos pacientes a maior perda de peso possível. Com ou sem cirurgia. Look Ahead e não desista!

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