A saga da Rosiglitazona e o dilema do médico


Dr. Amélio Godoy
Endocrinologista
Chefe do Serviço de Metabologia do IEDE-PUC-RJ

Antes do veredicto do FDA sobre a Rosiglitazona, exatamente na noite que antecede o primeiro dia da reunião, resolvi deixar este depoimento almejando que sirva de esclarecimento pessoal, como um dos líderes de opinião na diabetologia brasileira.

Seja qual for o resultado, nada, até o dia de hoje, abalou a minha convicção de que o tratamento adequado dos Diabetes tipo 2 deva passar, obrigatoriamente, pela redução da resistência à insulina (RI).  No meu modesto modo de entender, a RI é a base para o DM2 e para as doenças cardiometabólicas. Acreditei e acredito que as doenças devam ser tratadas observando-se a fisiopatologia. E assim procedo quando ensino, quando trato e, espero que assim seja, quando for tratado como paciente.  

Num inteligente editorial escrito para este site, há alguns meses atrás, o Dr. Pimazoni bem falava das verdades transitórias da medicina. De fato, a medicina tem verdades transitórias, mas a maioria dos conceitos básicos que se estabelecem através de pesquisas sérias, mantém-se verdadeiros através dos tempos. Ou não se mantém verdadeira a primeira hipótese do médico inglês Dr. Himmsworth, quando observou que existiam diabéticos que eram resistentes à ação da insulina, enquanto outros (diga-se de passagem, poucos) não o eram?

Ou não permanece verdadeira a observação do francês Jean Vague quanto aos tipos de obesidade, andróide e ginóide? O que pode acontecer, quando uma verdade médico-científico deixa de ser confirmada, é que médicos honestos e sensatos encaram os fatos. Como aconteceu com um grande cardiologista americano, que sempre fora cético quanto ao valor de reduzir o LDL-c, que ao se defrontar com os inúmeros estudos que demonstravam os benefícios da redução do LDL-c afirmou: “quando os fatos mudam, eu mudo de idéia. E você, o que faz?”.

Eu, talvez mais do que qualquer outro endocrinologista brasileiro, acreditei e ainda acredito nos sensibilizadores de insulina como base para o tratamento do DM2. Eu, talvez mais do que a maioria, dei todo o crédito as tiazolidinedionas.  A Rosiglitazona tem sido o medicamento no qual me apoiei para abordar a RI na maioria dos diabéticos que me procuraram. Não quero, agora, na hora do seu julgamento, fazer-me de surdo-mudo. Penso que não tive qualquer razão, até hoje, para me arrepender de ter prescrito este medicamento para qualquer paciente.

Mas, fiel ao meu conceito de usar uma TZD, também usei e uso a pioglitazona. As evidencias mostram que esta tem um perfil lipídico mais favorável do que aquela. O que isto significa, em relação aos desfechos, nunca ficou claro. O estudo TIDE, que está projetado para comparar diretamente estas duas drogas, poderá responder, se as forças contrárias não o interromperem. Aliás, não estou sozinho. No site theheart.com, no dia de hoje, uma enquete pergunta quem era a favor do FDA interromper o TIDE. Até ás 23h25, 127 votantes produziram o seguinte resultado: 62% contra interromper e 38% a favor.

Por falar em forças contrárias, causa-me enorme suspeição este “affair” da Rosiglitazona. Não conheço nenhum exemplo na história recente da medicina de uma campanha tão orquestrada contra um medicamento. O enredo é típico de uma guerra política, onde acusações de sabotagem, vazamentos de manuscritos, publicações produzidas em cima da hora, manobras estatísticas difíceis de serem compreendidas por médicos com maior e, muito pior, com menor intimidade com os números, sugerem que interesses outros existem.Como nós médicos, podemos nos sentir seguros frente a estas circunstâncias?

Como nos conduzirmos, quando não podemos entender os reais interesses que se ocultam por trás desse cabo-de-guerra? No dia de hoje, diante de um paciente candidato a receber uma TZD, como eu lhe poderia oferecer um medicamento que pode estar sendo retirado do mercado daqui a apenas 2 dias? Mas, diante de tantas incertezas, uma certeza eu tenho. O Dr. Nissen esteve presente nas páginas dos jornais americanos mais vezes do que o Diego Forlan, eleito o craque da copa na África do Sul, esteve nas páginas esportivas.

Por último, quero deixar claro que um médico não defende drogas. Um médico defende conceitos, alicerça conhecimentos, propõe tratamentos, reconhece limitações e, assim, age sempre em consonância com a sua consciência para benefício dos seus pacientes e para a vitória final da ciência. Seja qual for o veredicto...

Conflito de interesse: recebi honorários como palestrante e como membro do “advisory board” para o laboratório GSK, produtor da Rosiglitazona. Também recebi ajuda de custo para viagens e participações em congressos. Recebi ajuda de custo para participação em curso promovido pelo laboratório Abbott e honorários para 2 reuniões sobre a pioglitazona.

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