Infinito enquanto dure


Dr. André Vianna
Endocrinologista
Trabalha no Hospital Nossa Senhora das Graças e Centro de Diabetes, em Curitiba

Dubai, 05 de dezembro de 2011.

Hoje teve início de fato o programa científico do World Diabetes Congress. Tive o prazer de assistir palestra da expert D. Christie, do Reino Unido, sobre como melhorar a aderência dos pacientes ao tratamento no diabetes. Durante e após a sua explanação, fiquei imaginando formas para ajudar os meus pacientes diabéticos que muitas vezes não parecem interessados nos seus próprios cuidados. Serão os meus pacientes culpados? Ou a forma como nós médicos estamos impondo o tratamento é que precisa ser revista?

O cuidado com o diabetes, se bem feito, consome grande parte do tempo e da energia de uma pessoa. Dos diabéticos, os médicos e nutricionistas exigem que se alimentem de 3 a 6 vezes por dia, comam 3 a 5 porções de frutas e vegetais, diminuam o estresse, cuidem dos dentes, chequem a sua glicemia de 2 a 7 vezes ao dia, apliquem injeções de insulina ou tomem os seus medicamentos por via oral, pratiquem exercícios diariamente, durmam 8 horas por dia, deixem de fumar e beber, evitem os doces e carboidratos nocivos. E ainda tem que sobrar tempo para se divertir, para o trabalho, para o cônjuge, filhos, netos, amigos...

A carga física e emocional que os profissionais impõem ao diabético é muitas vezes exagerada e acaba sobrecarregando os pacientes. Por isso, como mostrou a Dra. Christie, estamos cada vez mais observando nos pacientes o Diabetes Burnout. Nada mais é do que um apagão, como se a pessoa tivesse uma amnésia consciente de que deve cuidar da sua doença. Os cuidados são deixados de lado involuntariamente, como se o cérebro quisesse controlar apenas a "parte boa" da vida, mesmo que o preço futuro a ser pago pela saúde seja muito alto.

E não se confunda burnout com depressão, pois são situações distintas!

Vejo cada vez mais pessoas com a sensação de que "o diabetes controla a minha vida" e que, para ter de volta as rédeas da sua existência, deixam de lembrar que têm a doença.

E nós médicos? A Dra. Christie fez uma rápida enquete com os presentes. Ficariam em pé somente aqueles que, simultaneamente, tinham peso corporal normal, não pulavam refeições durante o dia, comiam 5 porções de frutas ou vegetais, exercitavam-se diariamente. Menos de 10% da platéia permaneceu em pé. E tratava-se de uma platéia que recomenda diariamente tais ações para os seus pacientes!

Estamos sendo hipócritas ao recomendar um cuidado que dificilmente pode ser colocado em prática em sua totalidade e ainda deixa os nossos pacientes ainda mais estressados?

Todo o diabético deve ter a sua realidade individual conhecida e compreendida por seu médico. O médico deve conhecer a rotina do paciente, seus valores, suas expectativas, seus objetivos e sua percepção da doença. A partir de então, deve sugerir modificações de estilo de vida que sejam compatíveis com a realidade de determinado indivíduo, respeitando suas vontades e engajando o paciente nas mudanças consideradas possíveis. E sem cobranças ou julgamento!

Se determinada mudança, mesmo após explicada, não é considerada importante ou prioritária para aquela pessoa, não deve ser cobrada pelo profissional a ponto de gerar mais uma carga desnecessária na sua vida.

E assim, a relação entre o médico e o diabético poderá ser de maior confiança e engajamento. E que as mudanças conseguidas sejam infinitas enquanto durem. Como é o diabetes!

VOLTAR