Neuropatia diabética na medula óssea?


Dr. Carlos Eduardo Barra Couri
PhD em Endocrinologia pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP
Pesquisador da Equipe de Transplante de Células-tronco - USP - Ribeirão Preto

Todos estamos familiarizados (infelizmente) com a neuropatia diabética acometendo os nervos periféricos de membros inferiores, acometendo a inervação autonômica cardiovascular e gastrointestinal, etc.

A diabetologia vive um enorme dilema com relação às neuropatias diabéticas. Muitas formas de neuropatia são de diagnóstico difícil e outras neuropatias facilmente identificáveis não são detectadas por uma simples falta de exame físico adequado em consulta médica regular.

Não bastasse tudo isto exposto, surge uma nova forma de neuropatia: neuropatia na medula óssea! A medula óssea não é apenas um arcabouço ósseo. Na medula óssea existem células-tronco adultas responsáveis por inúmeras funções, dentre elas:

  • Angiogênese (via produção de células-tronco endoteliais)
  • Formação do sistema imunológico
  • Formação da série vermelha do sangue

Estudos recentes apontam que o diabetes poderia reduzir a formação e a liberação destas células para o sangue periférico, sendo estas uma das causas para a pessoa com diabetes ter maior risco de doenças macrovasculares.  Com a redução liberação da circulação de células-tronco endoteliais ocorre menor reparo vascular e menor neoangiogênese e por conseguinte maior risco de amputações, infarto do miocárdio, etc.

Um dos grupos que mais estuda o efeito do diabetes na medula óssea é Universidade de Pádova – Itália. Em 2012, numa publicação no Diabetes Care eles mostraram o efeito do granulokine, uma substância que sabidamente aumenta a mobilização das células-tronco da medula óssea para o sangue periférico, em indivíduos com diabetes tipo 1, tipo 2 e em indivíduos não-diabéticos. O que se pôde observar é uma menor capacidade das pessoas com diabetes em aumentar a quantidade destas células-tronco para a corrente sanguínea mesmo após o estímulo com esta substância (figura 1).

Figura 1: Níveis circulantes de células-tronco hemaotpoéticas em indivíduos não-diabéticos,  diabéticos tipo 1 (esquerda) e tipo 2 (direita) após tratamento com granulokine.

Em 2013, este mesmo grupo apresentou no Congresso Europeu de Diabetes e publicou no periódico Diabetes uma possível associação entre o diabetes e a disfunção da medula óssea: a Neuropatia Diabética. Eles conseguiram mostrar que seres humanos com diabetes e neuropatia liberam menos células-tronco da medula do que aqueles sem neuropatia. Ainda na mesma publicação em modelo animal, eles conseguiram mostrar que um dos responsáveis pela ligação entre diabetes, neuropatia e disfunção da medula óssea seria a hiper-expressão do gene p66Shc (figura 2).

Para quem acha que a aplicabilidade clínica disto é pequena, vale à pena ressaltar que o mesmo grupo de Pádova também mostrou que a inibição da enzima DPP-4 é capaz de melhorar a disfunção da medula óssea (via SDF-1).

Como é um tema relativamente novo e palpitante, sugiro a todos que leiam os artigos citados neste comentário.

Boa leitura!

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