Vacina de DNA para diabetes tipo 1 – uma nova linha de pesquisa se abre para a prevenção desta doença


Dr. Carlos Eduardo Barra Couri
PhD em Endocrinologia pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP
Pesquisador da Equipe de Transplante de Células-tronco - USP - Ribeirão Preto

Apesar de estarmos acostumados com a dosagem de auto-anticorpos na determinação diagnóstica do diabetes tipo 1, sabemos que estes anticorpos possuem papel secundário no fenômeno de autoimunidade desta doença.

Há quase 15 anos o Dr Bart Roep da Universidade de Leiden - Holanda publicou no New England Journal of Medicine um relato de caso de um menino portador de uma doença genética rara chamada agamaglobulinemia. Trata-se de uma síndrome de imunodeficiência congênita em que o paciente não produz nenhum tipo de anticorpos. Neste relato de caso, o menino em questão desenvolveu diabetes tipo 1 a despeito de não possuir qualquer nível de anticorpos circulantes.

Por conta disto e por diversos outros estudos sabemos que o diabetes tipo 1 é uma doença autoimune que tem como principal agente a imunidade celular, sendo os anticorpos atores coadjuvantes e não necessários para a ocorrência do fenômeno autoimune. Dentre os principais agentes da autoimunidade celular temos o linfócito T CD8+.

Infelizmente até o momento não sabemos quais são as causas exatas que desencadeiam ou que são os “gatilhos” de todo o processo autoimune. Enquanto isto não é descoberto, inúmeros trabalhos têm sido desenvolvidos com o intuito de modular ou diminuir o processo autoimune contra as células β.

Um dos estudos mais recentes e que ganhou divulgação na mídia leiga também foi liderado pelo Dr Bart Roep  juntamente com pesquisadores americanos das Universidades de Stanford, do Diabetes Research Institute deMiami e de pesquisadores australianos. Trata-se do uso de vacina de DNA contra o diabetes tipo 1.

Como funciona a vacina de DNA contra diabetes tipo 1?

De uma maneira resumida e básica, a vacina é composta por um plasmídio de bactéria (chamado de vetor) contendo sequência de DNA da pró-insulina humana. O “pulo do gato” é o fato de os pesquisadores promoverem mudanças na sequência do DNA da pró-insulina de forma a estimular uma imunossupressão ou imunotolerância a este antígeno.

A vacina é administrada via intramuscular. Após a vacinação, as células localizadas ao redor do local de aplicação englobam o plasmídio. Este DNA é transcrito pelo núcleo das células “hospedeiras” sob a forma de proteína no citoplasma (2).  Esta proteína é degradada por proteases citoplasmáticas (3)  e sofre um processo de externalização pela membrana plasmática após se unir a moléculas de MHC classe I (4,5). A expressão do complexo MHC/antígenos protéicos se ligam aos linfócitos T CD8+ (que são as células efetoras principais do processos autoimune do DM1) codificando a informação de imunotolerância ao antígeno da pró-insulina (6). Por induzir imunotolerância ela é chamada de vacina às avessas.

Para testar a vacina, os pesquisadores realizaram um estudo duplo-cego e placebo controlado. Incluíram pacientes diabéticos tipo 1 com idade acima de 18 anos e com tempo médio de 5 anos de doença. Eles testaram a aplicação de 12 injeções semanais de diferentes doses da vacina (0,3 mg, 1 mg, 3mg, 6 mg).

Num seguimento de até 2 anos eles verificaram que os pacientes que receberam a dose de 1mg da vacina apresentaram o maior aumento dos níveis de peptídeo-C (o peptídeo-C é um marcador de secreção endógena de insulina). O peptídeo-C foi avaliado pela área sob a curva do teste de alimentação mista e os pacientes que receberam a dose de 1mg apresentaram aumento de cerca de 20% dos níveis de peptídeo-C versus uma redução de 9% naqueles que receberam placebo.

Os parâmetros de automunidade ao longo do tempo também mostraram que os pacientes que receberam a vacina apresentavam menor concentração no sangue de linfócitos T CD8 auto-reativos contra células β.

De uma maneira geral a vacina se mostrou segura e não gerou efeitos adversos importantes. Entretanto, ao final do seguimento a dose de insulina era praticamente a mesma do grupo placebo.

Na minha opinião esta técnica de vacinação é uma grande promessa porque atua diretamente gerando tolerância imunológica especificamente das células efetoras CD8+, deixando intacto o restante do sistema imunológico.

Pela segurança desta técnica de vacinação, creio que ela poderia gerar melhores resultados práticos se aplicada em uma fase pré-clínica ou em pacientes de alto risco de desenvolver diabetes tipo 1 (mas que ainda não desenvolveram).

Segue em anexo texto na íntegra deste estudo.

Vamos aguardar cenas dos próximos capítulos...

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