Células-tronco e Diabetes


Dr. Carlos Eduardo Barra Couri
PhD em Endocrinologia pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP
Pesquisador da Equipe de Transplante de Células-tronco - USP - Ribeirão Preto

As células-tronco são conhecidas pelo seu potencial de se auto-renovar e também de se diferenciar em células mais maduras in vitro. Por isso, muita esperança reside no seu uso terapêutico em humanos, especialmente em doenças crônico-degenerativas.

Como estamos vivendo ainda uma fase inicial dos estudos, não sabemos ao certo quais doenças serão realmente beneficiadas com o uso de células-tronco  e em quais doenças esta terapia ficará apenas na promessa.

Felizmente o Brasil é pioneiro no uso de células-tronco em humanos com diabetes e as pesquisas se iniciaram em 2003 com o diabetes tipo 1. O diabetes tipo 1 é autoimune, ou seja, o sistema imunológico do paciente destrói as células produtoras de insulina localizadas no pâncreas. Neste caso, nossos estudos conduzidos pelo grupo de transplante de células-tronco da USP-Ribeirão Preto visam promover um “reset” no sistema imunológico destes pacientes evitando que ele continue o processo de agressão ao pâncreas. Este “reset” consiste em desligar o sistema imunológico usando altas doses de quimioterapia endovenosa. Esta quimioterapia é semelhante àquela usada o tratamento de algumas leucemias. Uma vez desligado o sistema imunológico, ele é religado reinfundindo-se células-tronco previamente coletadas da medula óssea do próprio paciente chamadas células-tronco hematopoéticas. Estas células-tronco são consideradas adultas e têm a capacidade de regenerar um novo sistema imunológico que então tende a parar de agredir o pâncreas. É bom se destacar que estas células-tronco não têm a capacidade de regenerar as células produtoras de insulina. O objetivo deste trabalho é preservar as células do pâncreas que ainda não foram destruídas pelo sistema imunológico. Por isso, não adianta realizar este procedimento em indivíduos com mais tempo de diabetes.

Dos 25 pacientes submetidos inicialmente, 21 pararam de usar insulina em algum momento. Destes 21 pacientes, 3 ainda estão completamente livres de insulina por mais de 7 anos e os outros 18 pacientes retomaram o uso da insulina na sua maioria usando apenas 1 injeção de insulina ao dia em baixa dosagem. Outro ponto positivo é que independente do uso ou não de insulina, o transplante promoveu aumento da secreção endógena de insulina pelo pâncreas do paciente submetido ao tratamento.

Apesar de nossos estudo estar completando 10 anos em 2013, isto ainda é pouco tempo em ciência. Além disso, trata-se de um procedimento agressivo e que envolve riscos, especialmente associados ao uso de quimioterapia e ao “desligamento” do sistema imunológico, podendo o paciente sofrer de infecções neste período, além das náuseas, vômitos, risco de infertilidade e até mesmo morte.

Recentemente nosso estudo aprovado também nos Estados Unidos e Europa e permanece incluindo novos voluntários. Devidos aos riscos e a critérios éticos, temos inúmeros critérios rígidos de inclusão, sendo que os iniciais são:

-idade entre 18 e 35 anos ao diagnóstico;

-diabetes tipo 1 há menos de 5 meses.

Conforme destacamos inicialmente, estes estudos são promissores, porém não sabemos ao certo sua segurança a longo prazo e obviamente não podemos afirmar de que se trata de cura. Na verdade, não substitui e nunca substituirá uma alimentação saudável e atividade física regular. Além disso, todos os pacientes devem medir suas glicemias capilares diariamente para acompanhar a evolução do controle de sua doença.

Diabetes tipo 2: uma nova fronteira

O diabetes tipo 2 representa o tipo mais comum de diabetes no Brasil e no mundo. Trata-se de uma doença muito relacionada a maus hábitos de vida, excesso de peso, sedentarismo, etc. Portanto, é uma doença prevenível em boa parte dos pacientes.

Os estudos com células-tronco nesta doença começaram apenas em meados de 2008 no mundo todo.

Como sabemos, vários são os defeitos que tornam um paciente diabético tipo 2, mas os mais reconhecidos são a resistência insulínica e a deficiência de secreção de insulina pelo pâncreas.

Neste sentido, estudos com células-tronco têm visado recuperar estas duas funções com um tipo específico de célula chamada célula-tronco mesenquimal. Esta célula tem potencial anti-inflamatório reduzindo a resistência insulínica e diminuindo o processo de insulite e  possivelmente estimulando a regeneração de células produtoras de insulina (por via direta e também por vias indiretas). Veja na figura abaixo um esquema com algumas ações da célula-tronco mesenquimal.

A vantagem deste tipo de célula é que ela é presente em diversos tecidos adultos, cresce facilmente em meio de cultura e não gera rejeição quando implantada em indivíduos diferentes, pois não expressa HLA classe II.

O público-alvo deste tipo de terapia nos estudos realizados até o momento tem sido de pacientes com diabetes tipo 2 de longa data e com baixíssima secreção endógena de insulina. Dados disponíveis até o momento com estudos pequenos e com seguimento de até 3 anos mostram que até 40% dos pacientes conseguiram ficar livres de insulina após injeção destas células-tronco por veia periférica ou diretamente no pâncreas via cateterismo arterial.

Até o momento não há nenhum grupo de estudo nacional avaliando o transplante de células-tronco em pacientes com diabetes tipo 2.

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