Entenda o que o Prêmio Nobel 2011 significa para o Diabetes


Dr. Carlos Eduardo Barra Couri
PhD em Endocrinologia pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP
Pesquisador da Equipe de Transplante de Células-tronco - USP - Ribeirão Preto

Fiquei muito feliz com a linha adotada pelos pesquisadores honrados com o Prêmio Nobel de Medicina 2011. Nos lembramos das aulas de imunologia na faculdade e provavelmente esta matéria não era uma das mais populares, tendo em vista sua complexidade.

Fato é que, com o desenvolvimento desta área de estudo, diversos campos da Medicina passaram a utilizar dos conceitos de imunologia aplicada. Nos dias de hoje, em todas as especialidades médicas há necessidade de se entender e estudar a combinação entre imunologia e os mecanismos das respectivas doenças e até mesmo potencial terapêutico.

No dia 03 de outubro de 2011, três pesquisadores dividiram o Prêmio Nobel. Dois deles na linha de imunidade inata, Bruce A. Beutler e Jules A. Hoffmann e um deles,  Ralph M. Steinman (falecido de câncer 3 dias antes da cerimônia do Prêmio),  na linha de imunidade adaptativa. Todos os 3 pesquisadores desenvolveram conceitos que hoje consideramos corriqueiros, mas que revolucionaram o modo como entendemos a resposta imune frente a diversas formas de agressão.

Todas as pessoas nascem com imunidade inata. Os componentes do sistema imunitário que participam na imunidade inata - por exemplo, macrófagos, neutrófilos e sistema do complemento - reagem de forma semelhante perante todas as substâncias estranhas, e o reconhecimento dos antígenos não varia de pessoa para pessoa.

Como o seu nome indica, a imunidade adquirida é “aprendida”.  Na altura do nascimento, o sistema imunitário de uma pessoa ainda não foi confrontado com o mundo exterior nem começou ainda a desenvolver os seus arquivos de memória. O sistema imunológico  aprende a responder a cada novo antígeno com que se confronta. Como consequência, a imunidade adquirida é específica dos antígenos que a pessoa encontra ao longo da sua vida. O traço característico da imunidade específica é a capacidade de aprender, adaptar-se e recordar.

O sistema imunológico  faz um registro ou memória de cada antígeno que a pessoa encontre, quer seja através dos pulmões - ao respirar -, do intestino - ao comer - ou da pele. Isso é possível porque os linfócitos têm uma vida longa. Quando os linfócitos encontram um antígeno pela segunda vez, a sua resposta face a ele é enérgica, rápida e específica. Essa resposta imune específica explica porque é que não se contrai varicela ou sarampo mais do que uma vez ao longo da vida, assim como o motivo pelo qual as vacinas previnem as doenças. Por exemplo, para evitar a catapora, um indivíduo recebe uma vacina feita a partir de uma forma atenuada da catapora. Se, posteriormente, esse indivíduo for exposto ao age infeccioso, o seu sistema imunológico procura nos seus arquivos de memória, encontra os “dados” desse agente ativa rapidamente as defesas apropriadas. O resultado é que o agente infeccioso é eliminado por anticorpos específicos que neutralizam o vírus antes mesmo de ele ter a oportunidade de se multiplicar ou de invadir o sistema nervoso.

A imunidade inata e a imunidade aprendida não são independentes uma da outra. Cada sistema atua em relação com o outro e influi sobre ele, direta ou indiretamente, por meio da indução de citocinas - mensageiros. Raramente um estímulo desencadeia uma só resposta. O que faz é iniciar várias, algumas das quais podem atuar conjuntamente ou ocasionalmente competir entre si (figura 1).

Fig 1: resumo de imunidade inata e adaptativa

Os vencedores do Prêmio Nobel descobriram também passos importantes das respostas imunes. No caso da imunidade inata,  eles explicitaram um dos seus mecanismos básicos que é a ligação do Lipopolissacáride (LPS) de um determinado agente infeccioso ao seu receptor - Toll-like receptor -  presente em algumas células do sistema imunológico, ativando a cascata imunológica inata (figura 2).

Fig 2: Papel dos LPS e do TLR na imunidade inata e das células dendríticas na imunidade adaptativa. 
Estas descobertas foram determinantes para o Prêmio Nobel 2011

Na resposta imune adaptativa, o falecido Dr Steinman constatou a existência  e isolou a famosa célula apresentadora de antígeno ou célula dendrítica. Esta é a célula que “processa” o antígeno e o apresenta aos linfócitos T e B ativando-os e criando a memória imunológica específica de cada indivíduo.

Estas descobertas foram determinantes para o Prêmio Nobel 2011

Em que podemos utilizar estas informações no campo da Diabetologia e qual seu impacto?

1- Estudos mostram a relação entre a ativação do Toll-like receptor 4 (TLR4) e indução de um estado inflamatório e por conseguinte de resistência insulínica e diabetes tipo 2;

2- A inativação do TLR4 parece proteger contra o surgimento de obesidade e diabetes tipo 2;

3- As células dendríticas (apresentadoras de antígenos) são umas das responsáveis pela autoimunidade no Diabetes tipo 1, fazendo erroneamente a apresentação de antígenos pancreáticos aos linfócitos T naive (virgens) induzindo ao surgimento da autoimunidade;

4- Apenas 3 artigos científicos apresentados no ADA foram publicados no Lancet este ano e  todos os 3 eram relacionados a intervenções imunológicas no Diabetes tipo 1;

5- Vacinas contendo a molécula do GAD (descarboxilase do ácido glutâmico) estão sendo estudadas como forma de vacinação contra o diabetes tipo 1;

6-  O uso de terapia com células-tronco para preservar/regenerar a massa de células beta no diabetes tipo 1,só funciona mediante modulação do sistema imunológico auto-reativo;

7- A célula-tronco mais promissora no tratamento do diabetes não é a célula-tronco embrionária, mas sim a célula-tronco mesenquimal. Isto porque esta última possui propriedades imunomoduladora e anti-inflamatória.

Tomo a liberdade de recomendar a todos nosso último artigo de revisão sobre terapias imunomoduladoras no Diabetes tipo 1 publicada este ano.

Couri CE, Voltarelli JC. Stem cell-based therapies and immunomodulatory approaches in newly diagnosed type 1 diabetes. Curr Stem Cell Res Ther. 2011 Mar 1;6(1):10-5.

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