Efeitos da dieta mediterrânea sobre a necessidade de terapia com drogas anti-hiperglicêmicas em pacientes com diagnóstico recente de diabetes tipo 2


Nutricionista Funcional
Nutricionista do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes

A pandemia do DM2 é um enorme problema de saúde pública, com a projeção para 2025 de 380 milhões de casos no mundo. Estudos de intervenção no estilo de vida têm demonstrado reduções no risco de DM2. Apesar disso, a ADA recomenda que pacientes recentemente diagnosticados de DM2 sejam tratados com farmacoterapia, bem como mudanças no estilo de vida. A razão para a terapia combinada é presumivelmente por que cada tratamento realizado separadamente não funciona. Mudanças no estilo de vida são realizadas frequentemente de forma inadequada, pois nem sempre os pacientes perdem peso, voltam a engordar ou o diabetes piora, independentemente do peso. O tratamento farmacológico também muitas vezes falha com o tempo e algumas drogas tem associação com riscos cardiovasculares, dentre outros. Por essas razões, mudanças no estilo de vida podem ser mais efetivas do que o que tem sido tipicamente recomendado.  A dieta de estilo mediterrâneo (DEM), por exemplo, com uma grande proporção de ácidos graxos monoinsaturados, poliinsaturados ômega 3 e antioxidantes, tem demonstrado benefícios cardiovasculares e aumento da sensibilidade à insulina. Porém, a ADA recomenda dietas com baixa quantidade de carboidrato ou de gordura, com restrição de calorias, para perda de peso em pessoas com sobrepeso ou obesidade e DM2.

Um grupo de pesquisadores (Espósito et al, 2009) da Universidade de Azienda Ospedaliera, Nápoles, Italia,  conduziu um  interessante estudo para comparar a efetividade, durabilidade e segurança da DEM com baixa quantidade de carboidrato com a dieta com baixa quantidade de gorduras no controle glicêmico em pacientes com diagnóstico recente de diabetes tipo2. Foram recrutados homens e mulheres com diagnóstico recente de diabetes pelo critério da ADA, que nunca haviam sido tratados com drogas antihiperglicêmicas.

Os pacientes foram randomizados e atribuídos a uma dieta DEM com baixo teor de carboidratos ou a fazer uma dieta com baixo teor de gorduras. A DEM era rica em vegetais e grãos integrais e pobre em carne vermelha, a qual foi substituída por aves e peixes. As calorias foram restringidas para 1500 kcal/dia para mulheres e 1800 kcal/dia para homens, com no máximo 50% das calorias vindas de carboidratos complexos, baseada na evidência de que, no contexto da DEM, uma dieta com menos de 50% de carboidratos diários é mais benéfica do que maiores concentrações para perda de peso e redução de risco cardiovascular. A dieta tinha no mínimo 30% de calorias provenientes de gorduras. A principal fonte da gordura adicionada foi 30 a 50 g de azeite. Já a dieta com baixo teor de gorduras foi baseada no guia da AHA. Era rica em carboidratos complexos e restrita em gorduras adicionais, doces e snacks gordurosos. A ingestão calórica foi de 1500 kcal/dia para mulheres e 1800 kcal/dia para homens com a meta de até 30% das calorias provenientes de gordura e até 10% de gorduras saturadas.

Os pacientes foram seguidos por 4 anos para então se acessar os resultados. O primeiro resultado medido foi na hora de introduzir a terapia de drogas antihiperglicêmicas. A investigação foi responsável pelo inicio da terapia com drogas pelo seguinte protocolo: como sugerido pela ADA na época para avaliação clinica e manejo de pacientes diabéticos, foi medida a HbA1c, na linha de base e a cada 3 meses depois. Para participantes com HbA1c maior que 7%, foi dado um adicional de 3 meses para reforçar o guia dietético e a atividade física. Se a HbA1c permanecesse maior que 7 %, o regime com drogas era introduzido.

Encontrou-se uma diferença significativa na necessidade de terapias com drogas anti-hiperglicêmicas em 18 meses com os participantes da DEM versus a dieta com baixa quantidade de gorduras. Foram dadas terapias com drogas antihiperglicemicas para quase todos os pacientes com um acompanhamento de HbA1c maior que 7% (44 participantes da dieta DEM e 69 participantes da dieta de gordura).

Quanto ao peso corporal, as reduções foram maiores no grupo da DEM do que no grupo da dieta com baixo teor de gordura. Dos 155 pacientes com HbA1c maior que 7% no inicio do estudo, 22 mantiveram este nível nos 3 meses de acompanhamento e nenhum teve este nível aos 6 meses. Participantes em ambos os grupos tiveram reduções na glicose em jejum e HbA1c, mas as reduções foram  significativamente maiores no grupo DEM em todos os 4 anos de estudo.

Participantes do grupo DEM tiveram maiores aumentos da sensibilidade à insulina e nos níveis de adiponectina na maior parte dos anos do estudo. Ao longo da pesquisa, participantes do grupo DEM obtiveram maior aumento da HDL e redução no triglicerídio plasmático do que no outro grupo.

Os autores do presente estudo concluíram que a DEM atrasou a necessidade de terapia com drogas antihiperglicêmicas, comparando-se a dieta com baixo teor de carboidratos de estilo mediterrâneo com uma dieta de baixo nível de gorduras, em pessoas com diagnóstico recente de Diabetes tipo 2.

Em estudo mais recente de 2011, com a participação de 92 homens designados para uma dieta de estilo mediterrâneo ou dieta convencional, Esposito e colaboradores concluíram que, após 2 anos de seguimento, a adesão a uma dieta de estilo mediterrâneo, com ou sem restrição calórica, em homens com sobrepeso ou obesos, está associada com melhora significativa de múltiplos fatores de risco, incluindo um melhor perfil de risco cardiovascular, redução do estresse oxidativo e melhora da sensibilidade à insulina.

Estudo transversal dentro do Nurses’ Health Study encontrou que o aumento da aderência para a dieta mediterrânea estava associado a elevados níveis de adinopectina, relacionada com redução de risco para diabetes tipo 2. Assim, o mecanismo através do qual a dieta mediterrânea pode melhorar o controle glicêmico é possivelmente devido à melhora da sensibilidade à insulina mediada por aumento da circulação dos níveis de adiponectina.

O estudo teve algumas limitações. Os participantes receberam informações intensivas e frequentes sobre dietas saudáveis, o que pode explicar em parte a alta taxa de adesão para as 2 dietas.

Não obstante, os resultados sugerem que pessoas com diagnostico recente de DM 2  que usam uma dieta de estilo mediterrâneo com baixo teor de carboidratos podem diminuir a HbA1c e retardar a necessidade da terapia com drogas antihiperglicemicas quando comparada com dieta de baixo teor de gorduras. Esta dieta pode ser perfeitamente adaptável à nossa realidade, substituindo as nozes pela castanha do Brasil e cereais refinados por cereais integrais como aveia, incluindo também a linhaça, fonte de ômega 3, por exemplo. Os resultados reforçam a mensagem de que os benefícios das intervenções no estilo de vida poderiam ser mais valorizados e colocados em prática, com a participação efetiva do nutricionista no planejamento alimentar do paciente.

Leia mais:

Esposito K et al. Effects of a Mediterranean-Style Diet on the Need for Antihyperglycemic Drug Therapy in Patients With Newly Diagnosed Type 2 Diabetes. A Randomized Trial. Annals of Internal Medicine. 2009 Sep;151(5):306-314.

Esposito K et al. Long-Term Effect of Mediterranean-Style Diet and Calorie Restriction on Biomarkers of Longevity and Oxidative Stress in Overweight Men. Cardiol Res Pract. 2011; 2011: 293916.

Mantzoros CS. Adherence to the Mediterranean dietary pattern is positively associated with plasma adiponectin concentrations in diabetic women. Am J Clin Nutr. 2006 Aug;84(2):328-35.

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