O Diabetes e a Adolescência


Dra. Janice Sepúlveda Reis
Endocrinologista - Coordenadora do Ambulatório de Diabetes Tipo 1 da Santa Casa de BH
Doutora em Clínica Médica pelo Instituto de Ensino e Pesquisa da Santa Casa de Belo Horizonte
Coordenadora do Mestrado Profissional em Educação em Diabetes - IEP - Santa Casa de BH

A adolescência é o estágio do desenvolvimento quando o gerenciamento dos cuidados do diabetes começa a ser transferido dos pais para o adolescente e habitualmente ocorrem de forma gradual, como um processo dinâmico e individual.

Infelizmente, pressões sociais  e influências próprias à idade, juntamente com o desejo de adaptação a esta fase da vida, pode ser tornar a prioridade para  alguns adolescentes, ocupando o lugar do aprendizado para o autocuidado na doença. Crescimento, desenvolvimento e mudanças durante a adolescência têm uma influência sobre a visão de vida dos adolescentes e  consequentemente, na autogestão da sua condição crônica.

Vários fatores influenciam no tratamento:

  1. Individuais: idade, sexo, grau de escolaridade, crenças individuais e características psicossociais;
  2. Relacionados à doença: terapia nutricional e medicamentosa, duração da doença;
  3. Familiar: estado civil dos pais, renda familiar, emprego e apoio da família;
  4. Sistema de saúde onde o diabético está inserido.

Um estudo publicado recentemente1 demonstrou que a colaboração dos pais diminui ao longo do tempo, desde o início (13-14 anos) até a adolescência média (15-16 anos) e tardia (17-21 anos). Os escores médios alcançados nos questionários de avaliação da colaboração dos pais no tratamento diminuíram dramaticamente entre a adolescência precoce  e média.

Dados de estudos anteriores sugerem que envolvimento em excesso ou pouco pode ser deletério para o adolescente na autogestão de práticas no autocuidado e no controle metabólico. O equilíbrio é necessário para encorajar o autocuidado: se os pais estão envolvidos demais, eles não permitem aos adolescentes desenvolverem competências com autonomia, embora pais pouco envolvidos comprometam o controle metabólico. Assim, estudos demonstram que o melhor caminho é  a RESPONSABILIDADE COMPARTILHADA (trabalho em equipe) até o inicio da adolescência média, com uma gradual transição para a tomada de decisão independente no final da adolescência e inicio da idade adulta.

A habilidade  psicomotora para executar muitas das tarefas necessárias para o autocuidado (por exemplo, manuseio da bomba de insulina, aplicações com seringas e canetas e o monitoramento de glicose) começa em idade escolar precoce e está bem desenvolvida no início da adolescência. Entretanto, esta capacidade não deve ser confundida com a habilidade para aplicar todos os princípios do autocuidado, como a programação de uma bomba de insulina.

Adolescentes desenvolvem a capacidade de resolver problemas com o tempo. Resultados deste estudo mostraram uma diferença entre a adolescência precoce e tardia, mas nenhum aumento na capacidade do adolescente de resolver problemas entre a adolescência precoce e média ou entre a média e o final da adolescência. Este achado não foi surpreendente, dado que a solução de problemas envolve a combinação da síntese do conhecimento com experiências passadas e com aplicação de habilidades para um comportamento, o que acontece com a educação continuada.

Respeitando-se limitações do estudo, o nosso aprendizado se refere ao preparo que deve ser iniciado com familiares e o diabético para esta fase da vida, com redução gradual e supervisionada no grau de colaboração nos cuidados da doença, com atenção especial às adaptações psicossociais, principalmente no caso dos meninos, que tendem a se comunicar pouco e realizar menos as tarefas do autocuidado nesta fase da vida.

Assim, fica a lembrança do trabalho em equipe para toda a família, preferencialmente sempre, compartilhando experiências e cuidados, mas ao menos nas fases da vida mais influenciáveis, que seja um item não esquecido.

1  Keough L, Sullivan-Bolyai S, Crawford S, Schilling L, Dixon J.  Self-management of Type 1 Diabetes Across Adolescence. Diabetes Educ. 2011; 37(4):486-500.

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