Automonitorização da glicemia: usar a primeira ou a segunda gota de sangue?


Dra. Janice Sepúlveda Reis
Endocrinologista - Coordenadora do Ambulatório de Diabetes Tipo 1 da Santa Casa de BH
Doutora em Clínica Médica pelo Instituto de Ensino e Pesquisa da Santa Casa de Belo Horizonte
Coordenadora do Mestrado Profissional em Educação em Diabetes - IEP - Santa Casa de BH

A automonitorização é parte fundamental dos cuidados no diabetes e valores reais são fundamentais para o ajuste dos medicamentos, alimentação e exercícios. A orientação inicial para realização adequada da automonitorização glicêmica é lavar bem as mãos com água e sabão e secar antes do procedimento ou realizar limpeza local com algodão e álcool. Na correria do dia a dia observamos que isso nem sempre é realizado e as variações nos valores glicêmicos com técnicas não adequadas são pouco estudadas.

Um estudo publicado recentemente na revista Diabetes Care demonstrou alguns valores que valem a pena conferir, na tentativa de aprimorarmos constantemente essa técnica, que parece a olhos leigos “tão simples”.

Os pesquisadores avaliaram as concentrações glicêmicas em 123 diabéticos, na primeira e segunda gota de sangue utilizada para monitorização da glicemia, após lavagem correta das mãos e expostos a diferentes situações:

  • Sem lavar as mãos;
  • Após exposição das mãos a frutas;
  • Após exposição das mãos a frutas e limpeza das mãos com água e sabão;
  • Após a aplicação de pressão externa nos dedos (“espremer”).

Os resultados demonstraram que no grupo que não realizou a lavagem das mãos houve uma diferença maior ou igual a 10% entre a primeira gota de sangue e a medida controle, para cima ou para baixo nos valores de glicemias, porém com uma freqüência maior de valores elevados. Nesse caso, utilizar a segunda gota de sangue demonstrou em 96% dos pacientes uma diferença menor que 10% nos valores glicêmicos.

No grupo com lavagem das mãos e exposição posterior a uma fruta, 88% dos diabéticos apresentaram uma diferença maior que 10% nas glicemias, em relação à medida controle, e o uso da segunda gota de sangue diminuiu consideravelmente essa variação. A lavagem das mãos após a exposição a frutas melhorou a avaliação glicêmica em 83% dos casos.

No grupo submetido à pressão nos dedos (espremer para conseguir uma gota de sangue) foi demonstrada, em caso de pressão leve, uma variação maior que 10% nas glicemias em cerca de 5-10% dos pacientes, e em caso de aplicação de uma pressão forte, essa variação afetou cerca de 13% dos diabéticos.

CONCLUSÕES:

  1. A primeira gota de sangue pode ser usada na monitorização glicêmica somente após lavagem das mãos com água e sabão e esse é o procedimento de escolha;
  2. Se lavar as mãos não for possível e as mesmas não estiverem visivelmente sujas ou recentemente expostas a produtos com açúcar, o uso da segunda gota de sangue é aceitável, após enxugar a primeira gota com algodão seco ou um tecido limpo;
  3. A pressão externa pode tornar os resultados variáveis, e se necessária, deve ser bem leve.

Com esses cuidados, a medida glicêmica domiciliar se aproximará de valores mais confiáveis no dia a dia da insulinização, colaborando no alcance das metas glicêmicas desejáveis.

REFERENCIA:

Hortensius J et AL. Self-monitoring of blood glucose: the use of the first or the second drop of blood. Diabetes Care 34:556–560, 2011.

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