Educação em diabetes: estamos adaptados à realidade brasileira?


Dra. Janice Sepúlveda Reis
Endocrinologista - Coordenadora do Ambulatório de Diabetes Tipo 1 da Santa Casa de BH
Doutora em Clínica Médica pelo Instituto de Ensino e Pesquisa da Santa Casa de Belo Horizonte
Coordenadora do Mestrado Profissional em Educação em Diabetes - IEP - Santa Casa de BH

O controle glicêmico adequado é fundamental na prevenção de complicações crônicas relacionadas ao Diabetes. Entretanto, apesar dos grandes avanços no tratamento, a maioria dos pacientes (mais de 70%) está fora das metas de bom controle glicêmico, sendo o tratamento um enorme desafio para o paciente, familiares, médicos e toda a equipe envolvida na assistência.

O enorme impacto no dia a dia dos pacientes causado pelo tratamento é aspecto fundamental no entendimento deste desafio. A literatura médica mostra diversas evidências de que um programa de educação continuada em Diabetes é ferramenta essencial para que se consiga alcançar bom controle da doença.

As chances de sucesso são maiores à medida que o paciente tenha consciência e entenda não apenas a importância do bom controle para a saúde e prevenção de complicações, como também o papel das medicações, noções básicas do metabolismo de glicose, nutrição, uso de monitores de glicose, cuidados com os pés, atividade física, entre outros.

Educação em Diabetes é uma proposta terapêutica proposta desde 1918, quando Elliot P. Joslin afirmou que “o paciente educado fica melhor”. Assim, é considerada como um processo que oferece ao indivíduo o conhecimento, a habilidade e a técnica necessários para o auto cuidado, o manejo dos dias de doença e para fazer adaptações no seu estilo de vida visando ao melhor controle glicêmico, à prevenção de complicações crônicas e, acima de tudo, à melhora na qualidade de vida. 

E falando em educação, em maio deste ano a revista Pediatrics publicou um interessante trabalho abordando a associação entre alfabetização e habilidade matemática dos cuidadores e o pobre controle do diabetes em crianças com diabetes tipo 1. No dia a dia do atendimento muitas vezes interpretamos o “saber ler e escrever” como receitas e demais orientações compreendidas e percebemos no decorrer do tratamento que a educação precisa ser contínua e repetitiva.

Neste estudo, a abordagem foi direcionada aos cuidadores de crianças diabéticas, os responsáveis pelo entendimento e aplicação de mudanças alimentares, cálculo das doses de insulina na contagem de carboidratos e/ou correções de hiperglicemias, cujo não entendimento pode contribuir para a piora do controle glicêmico. Os familiares de crianças com pelo menos 01 ano de acompanhamento foram submetidos a um questionário validado de avaliação da qualidade da alfabetização e dos conhecimentos matemáticos. 

A glicohemoglobina no grupo de crianças com familiares com alfabetização inadequada e menos de 50% de acertos matemáticos (10.4 ± 2.2 %) foi significativamente maior que no grupo com adequada alfabetização e mais de 50% de acertos matemáticos (8.6 ± 1.7%). 

Os resultados não foram surpreendentes, pela experiência podemos até dizer que foram os esperados. Porém, ativam a nossa memória para o cotidiano do atendimento e a necessidade de reforçarmos periodicamente os pontos mais difíceis do tratamento, tentando adequar os serviços, principalmente os da rede pública de saúde, à realidade da educação brasileira, não negando às crianças diabéticas a possibilidade de tratamento adequado. 

Então, as questões que ficam para reflexão: a educação nos serviços de diabetes, públicos e privados, está adaptada à realidade educacional brasileira? Estamos detectando e direcionando as deficiências dos cuidadores na individualização do tratamento e nos programas de educação para as nossas crianças diabéticas?
    
Pediatrics 2010; 125: e1104–e1108.

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