Barreiras para insulinização – Lembramos delas ao prescrever?


Dra. Janice Sepúlveda Reis
Endocrinologista - Coordenadora do Ambulatório de Diabetes Tipo 1 da Santa Casa de BH
Doutora em Clínica Médica pelo Instituto de Ensino e Pesquisa da Santa Casa de Belo Horizonte
Coordenadora do Mestrado Profissional em Educação em Diabetes - IEP - Santa Casa de BH

 Iniciar e aderir à insulinização é uma tarefa difícil, muitas vezes sofrida para o paciente, e que vem acompanhada de “lendas sociais negativas” e das barreiras do ponto de vista médico e do paciente.

A palavra insulina não raramente acompanha a leitura de “castigo, não seguimento das recomendações nutricionais e de atividade física, última opção, etc.” e dificilmente é encarada pelo ponto positivo, de alcance de metas glicêmicas com maior facilidade e prevenção das complicações da doença, com melhora da qualidade de vida.

Lembramos de tudo isso ao prescrever uma insulina ou ao receber a receita de um médico? Sabemos exatamente qual o universo envolvido nesta prescrição? Há mais de uma década institui-se o conceito de Resistência Psicológica à Insulina (PIR), uma relutância do paciente para iniciar a insulinização após a concordância com a nova terapia.

Um estudo publicado recente na revista Diabetes Care recordou uma dura estatística: 4.5 % dos pacientes com indicação de inicio de insulinização não iniciaram a terapia (não aderência primária) e um adicional de 25.5 % não fizeram uma segunda utilização da receita (não seguimento da primeira prescrição). Assim, 01 de três pacientes recentemente insulinizados não se tornaram usuários contínuos.

Este estudo incluiu pacientes com prescrição recente de insulinização, dividindo-os em grupos de aderentes e não aderentes, para investigação de fatores associados.

Entre os não aderentes as principais razões citadas foram:

1-      Nova tentativa de mudança no estilo de vida – 25%;

2-      Fobia de injeções – 13%;

3-      Impacto negativo no trabalho – 9%;

4-      Insatisfação sobre uso em longo prazo da medicação (9%);

5-      Inconveniência – 6%;

6-      Falta de convicção sobre a necessidade de insulina – 6%

No grupo de não aderentes, 47% julgavam que necessitavam de insulina aqueles que não se dedicaram ao tratamento no passado, ou seja, um castigo. E ainda mais triste, acreditavam que a insulina, e não o descontrole da doença, eram a causa de cegueira (20%), falência renal (32%), amputações (15%), IAM ou AVC (19%) e morte prematura (35%). No total, 35% acreditavam que a insulina seria maléfica.

O grupo de não aderentes também relatou de forma significativamente diferente, em relação ao grupo aderente, inabilidade para ajustes das doses, dor no local das aplicações e efeitos adversos, principalmente hipoglicemias, além de pobre entendimento da sua condição médica e pouca explicação da equipe de saúde sobre os riscos e benefícios das insulinas e manejo dos instrumentos de aplicação e automonitorização.

“Dai a César o que é de César”: Aplicar isso à realidade da insulinização torna-se a cada dia emergencial, dando às lendas sociais negativas da insulinização um lugar apenas no passado, modificando o futuro do portador de diabetes. E mais uma vez, investir em Educação em Diabetes parece ser um dos caminhos para o bom controle.

Diabetes Care 33:733–735, 2010.

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