Cirurgia Bariátrica e Eventos Cardiovasculares a Longo-Prazo


Dr. Marcello Bertoluci
Professor Associado do Departamento de Medicina Interna da Faculdade de Medicina/ UFRGS
Coordenador do Departamento Cardiovascular da SBD
Presidente da SBD-RS

Resultados de 15 anos do Estudo SOS

Embora grande parte dos estudos epidemiológicos mostre associação positiva entre obesidade e doença cardiovascular, até o momento a redução de peso tem sido paradoxalmente associada a um aumento do risco cardiovascular, especialmente quando são incluídos pacientes que apresentam perda de peso não intencional. Da mesma forma, estudos com intervenção em estilo de vida, mesmo em associação com drogas anti-obesidade, não tem sido capazes de demonstrar redução de incidência de desfechos cardiovasculares, mesmo após 10-20 anos de seguimento. Enquanto isto, estudos retrospectivos envolvendo cirurgia bariátrica tem mostrado associação entre perda de peso e redução de desfechos cardiovasculares em obesos, embora estes dados sejam ainda incompletos e sujeitos a vieses importantes.

O estudo sueco SOS (Swedish Obese Subjects) *, recentemente publicado no JAMA reforça esta discussão. Trata-se de um estudo prospectivo, não randomizado observacional, envolvendo 25 centros cirúrgicos suecos, coordenado pela universidade de Gothemburg, ainda em andamento, que compara pacientes obesos, submetidos a diferentes tipos de cirurgia bariátrica (n=2010) a pacientes submetidos a tratamento convencional para obesidade (n=2037) tendo como desfechos: mortalidade total e incidência de infarto agudo do miocárdio ou AVC. Este estudo teve resultados parciais publicados com 10 de seguimento em 2007 e agora é atualizado com um seguimento médio de 14,7 anos.

Foram incluídos pacientes de 37-60 anos com IMC>34kg/m2 para homens e IMC>38kg/m2 para mulheres. O by-pass gástrico foi realizado em 13,6% dos casos, a banda gástrica em 18,7% e a gastroplastia vertical com banda em 68,1%. Os controles receberam cuidados usuais, com medidas de estilo de vida de acordo com os centros de origem. Os pacientes cirúrgicos perderam 20-30% do peso corporal (dependendo do procedimento) e mantiveram-se próximos a isto durante todo o estudo, enquanto que os controles não perderam peso.

Após diversos ajustes, a análise multivariada mostrou que a cirurgia bariátrica está associada a uma redução significativa no número de mortes cardiovasculares (HR ajustada 0,47; IC 95% 0,29-0,76, P=0,002) e menor incidência de eventos cardiovasculares totais [infarto agudo do miocárdio + AVC] (HR ajustada: 0,67 IC 95%: 0,54-0,83; P<0,001) em relação ao tratamento convencional, após 15 anos de seguimento.

A conclusão do estudo é que a cirurgia bariátrica está associada a um menor número de mortes cardiovasculares e a uma menor incidência de eventos cardiovasculares em adultos obesos.

Comentários:

Esta nova análise do estudo SOS mostra que cirurgia bariátrica leva a uma redução de 30% na incidência de eventos cardiovasculares em pacientes obesos e a quase 50% de redução na incidência de mortes cardiovasculares após 15 anos de seguimento. Estes resultados são importantes porque até agora nenhum tratamento não cirúrgico para obesidade se mostrou capaz de reduzir eventos cardiovasculares, sendo este o primeiro estudo prospectivo nesta área. Há, contudo algumas discrepâncias a serem explicadas: Por que nem o IMC antes da cirurgia e nem a magnitude da perda de peso após a cirurgia foram preditivos para o benefício da cirurgia em relação à redução da incidência de eventos cardiovasculares? Também é curioso que pacientes com hiperinsulinemia tenham tido um desfecho mais favorável. Provavelmente as respostas se encontrem no fato de o estudo não ser randomizado e por isto estes resultados precisam ser vistos com cautela. De qualquer forma é a primeira evidência prospectiva que dispomos na avaliação do potencial benefício da cirurgia bariátrica em doença cardiovascular.

SOS Study: Sjöstrom L, et al: JAMA january 4, 2012 -307, 1 pp56-65

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