O Estudo Look Ahead não está sozinho. Basta “Olhar para Trás”


Dr. Márcio Mancini
Chefe do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica da Disciplina de Endocrinologia e Metabologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
Doutor em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP

O estudo Look Ahead mostrou que a modificação intensiva de estilo de vida pode promover melhora significativa em indicadores intermediários de saúde, como peso, pressão arterial, controle glicêmico, lípides. Pode ainda promover taxas maiores de remissão parcial e (embora bem menos comum) completa de diabetes (com ressalvas à crescente recidiva de diabetes de 1/3 por ano que acompanhou o aumento de peso gradual de -10% no primeiro ano para -5% no fim do estudo). Os resultados do Look Ahead não levaram a redução de desfechos cardiovasculares ou morte.

No meu entendimento um dos motivos que pode ter levado ao resultado negativo em termos de ausência de redução de desfechos foi a baixa taxa de eventos cardiovasculares, tanto no grupo controle quanto no grupo intervenção, o que pode ser resultado de dois tipos de vieses. Ou viés de recrutamento, por exclusão de pacientes de muito alto risco ou recrutamento de sujeitos saudáveis demais, ou viés de tratamento, por controle clínico excessivo dos fatores de risco em ambos os grupos ou por cuidado médico excepcional pós-eventos.

Independentemente disso, nessa questão da intervenção não ter reduzido desfechos cardiovasculares ou morte, o Look Ahead não está só. Basta “olhar para trás” –- ADVANCE, VADT compartilham resultados desapontadores ou, como disse Sérgio Vencio, “paradoxais”. Mas, reforço o que disse o Amélio Godoy-Matos: se não mostrou benefícios, “pelo menos não apresentou riscos” – o ACCORD mostrou aumento de quase 20% na mortalidade do grupo de controle glicêmico intensivo comparado com o controle padrão.

Uma intervenção mais poderosa – o bypass gástrico em Y-de-Roux – parece até o momento ser a ferramenta que consegue a mudança suficientemente intensiva que promove perda de peso de magnitude suficiente para levar a remissão do diabetes de 70% em 2 anos com 50% de recidiva em 10 anos, mas ainda assim suficiente para reduzir eventos e mortalidade entre obesos diabéticos. Ao menos por enquanto.

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